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10 de abr de 2013

Tabu em torno da morte gera temor que pode atrapalhar a vida


Se o medo de morrer impede que você faça coisas que lhe dão prazer, é hora de procurar ajuda

A maioria das pessoas tem, em alguma medida, medo de morrer. Mais do que saudável, esse sentimento é uma ferramenta de sobrevivência: é ele, por exemplo, que impede atitudes arriscadas, como atravessar a rua sem olhar ou não usar equipamentos de segurança ao fazer um esporte radical.

Porém, quando exagerado, esse temor pode causar danos. "Quem passa por isso deixa de realizar atividades importantes e de viver. De certa forma, essa pessoa já está morta", diz Maria Julia Kovács, coordenadora do laboratório de estudos sobre a morte do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

A diferença entre o medo normal e o excessivo é que, enquanto o primeiro torna a pessoa mais cuidadosa, o segundo pode imobilizá-la. "Um bom indicador de que o temor passou do limite é a perda da liberdade", afirma Maria Helena Franco, coordenadora do laboratório de estudos sobre o luto da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

"Se tenho medo de morrer viajando de avião, mas mesmo assim escolho ir, não perdi a liberdade. Mas tem gente que só vai de carro ou, pior, nem vai", exemplifica.

Quem sofre desse mal também pode ter dificuldades de cumprir tarefas cotidianas, como ir trabalhar ou a aceitar um convite para uma festa. "Um exemplo, nas grandes cidades, são as pessoas que deixam de sair à noite e, em casos extremos, se trancam em casa", diz Kovács.

Se a questão for a morte de entes queridos, a pessoa passa até a não querer ter relacionamentos para não precisar lidar com o fim deles.
 
"Quando amigos e parentes notam que há algo diferente, é é preciso abordar, perguntar se está tudo bem e, se for o caso, convencer quem tem o problema a procurar ajuda", diz o psicanalista e professor da Unicamp Roosevelt Cassorla.
 
De onde vem o medo

O medo exagerado de morrer pode ser causado por diversos fatores. É comum com aqueles que chegaram muito perto da morte em um acidente grave, em situações de violência ou pela perda de pessoas queridas. "É o que chamamos estresse pós-traumático. A pessoa revive aquela situação a todo momento, mesmo sem razão para que isso aconteça", explica Cassorla.
 
Outro fator que pode desencadear esse temor são doenças emocionais, como a depressão. "A pessoa fica muito pessimista, achando que não vale a pena viver, e essa sensação é acompanhada de um terror muito grande de deixar de existir", diz Cassorla.

Para o professor, o medo da morte geralmente está relacionado a outras inseguranças. "O problema não é bem morrer. É o temor do desaparecimento, da loucura". Nesses casos, o sentimento aparece na forma de fobias, como a de altura, a de viajar de avião ou a de doenças. "Muitas vezes, quando afirma temer a morte, a pessoa está falando no medo de algo que supõe que seja catastrófico e sobre o que não tem controle", explica.
 
Como tratar
 
Ainda que o temor excessivo da morte esteja mascarando outras questões, o primeiro passo para acabar com esse sentimento é assumi-lo. E, então, conversar sobre ele. "Ao falar, você se ouve e percebe uma série de coisas", diz Cassorla.

Compreender o que está por trás do medo vai ajudar a descobrir a forma adequada de lidar com ele e com a realidade. Por isso, o tratamento normalmente é feito com a combinação de psicoterapia e medicamentos. O tipo de abordagem, porém, varia conforme o paciente e o tipo de problema, assim também como a duração do processo, que vai de alguns meses até anos.

Educação para a morte
 
Os especialistas afirmam que, se fosse tratada de maneira natural, a morte não assustaria tanto. "Esse assunto deveria ser abordado desde a infância como fato da vida, e não algo de que temos que fugir o tempo todo", segundo Cassorla.

Maria Helena Franco afirma que a morte deve ser apresentada às crianças em situações cotidianas, como na perda de um bichinho de estimação. "Você pode dizer "ele morreu". Muitos adultos acham que devemos poupar os filhos disso. Mas falar com naturalidade contribui para não tornar a morte uma fonte de medo".

Para o geriatra Franklin Santana Santos, presidente da Associação Brasileira de Tanatologia e autor de "Cuidados Paliativos: Discutindo a Vida, a Morte e o Morrer" (Editora Atheneu), a falta de discussão sobre o assunto é prejudicial. "A morte é um tabu. O medo dela é construído desde sempre, ao longo das nossas vidas", diz.
 
Ele acredita que é preciso educar as pessoas para ver o lado positivo da finitude. "Isso tem que ser uma alavanca para repensar a existência, para avaliar se estou colocando minhas energias naquilo que acredito", afirma. "Quem evita pensar sobre morrer vai sendo levado pela vida, fica no emprego que não gosta, mantém o casamento que já acabou".
 
Para o geriatra, que dá cursos de "educação para a vida e para a morte", o melhor caminho é tornar a ideia familiar, falando abertamente sobre ela e pesquisando sobre o tema não só em livro científicos, mas também na música, nos filmes e na literatura. "Isso não vai tirar a dor na hora da morte. Mas tudo será abrandado porque algumas perguntas que se impõem nesse momento já terão sido trabalhadas," defende.
 

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