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28 de abr de 2013

Dialogo com as Sombras 2ª PARTE - (23) MULHERES





23 - MULHERES

O trabalho mediúnico oferece insuspeitadas condições de apren­dizado. Cada sessão traz as suas surpresas; cada manifestação suas lições e ensinamentos. A contínua observação desse vaivém de companheiros desencarnados, o desfile trágico de problemas, an­gústias, dores e ódios, a força irresistível do amor, as maravilhas da prece, o poder do passe, constituem experiência inesquecível para aqueles que, ao longo dos anos, entregam-se a essas tarefas redentoras.
Uma pergunta poderá ser colocada agora. Que papel represen­tam as mulheres, nesses dramas que se desenrolam entre os dois mundos? Há mulheres obsessoras? Há mulheres que se vingam, que perseguem, que odeiam? Sim, mas em número bem mais re­duzido que os homens.

*

Antes de prosseguir, talvez sejam convenientes algumas obser­vações de caráter doutrinário.
O Espiritismo ensina que o Espírito não tem sexo, podendo encarnar-se como homem ou como mulher, em diferentes existên­cias, mas que costuma escolher, preferentemente, um ou outro sexo, renascendo continuamente como homem ou mulher. (Ques­tões números 200 a 202, de “O Livro dos Espíritos”.) Ao comentar as respostas, Kardec escreveu o seguinte:
“Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.”
Dessa forma, não são muito precisas as expressões Espírito feminino e Espírito masculino, que são usadas à falta de outras. A questão é bem mais complexa do que parece à superfície.
Certa vez, perguntei a um amigo espiritual por que difere tanto, na sua estrutura psíquica, o Espírito encarnado como homem, da­quele que se encarna como mulher. O homem é mais agressivo, dado a gestos de coragem física, menos sentimental, ao passo que a mulher inclina-se mais à compassividade, à renúncia, ao recato, sendo, portanto, mais acessível à emoção e aos sentimentos. Por que isso, se, não tendo sexo, os Espíritos deveriam ser asseme­lhados?
Disse-me ele, coerente com os postulados doutrinários, que, como Espíritos, conservam características em comum, mas, ao se reencarnarem, aceitam condições que lhes facultam desenvolvimen­to de certas faculdades, em detrimento de outras; ou melhor, optam pelo aprimoramento de alguns aspectos espirituais em que este­jam particularmente interessados.
Assim é, realmente. Como a perfeição deverá resultar, um dia, do desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades possíveis ao ser humano, é natural que este tenha que ir por etapas, cultivan­do-as em buques, até que, alcançando o ponto desejado, possa en­cetar outras realizações.
Tentemos, não obstante, ampliar um pouco mais a questão, na esperança de alcançar uma visão mais clara de suas dificuldades. Ao responderem à pergunta formulada por Kardec (Têm sexos os Espíritos?), os instrutores informaram o seguinte:
“Não como o entendeis, pois que os sexos dependem da orga­nização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na con­cordância dos sentimentos.”
Certamente que sentiram, esses instrutores, que não era tempo, ainda, de aprofundar mais a questão, mas disseram o bastante para compreendermos alguns pontos essenciais. De fato, a Doutrina nos ensina, alhures, que o ser encarnado resulta de um “arranjo” entre três componentes distintos: espírito, perispírito e corpo físico. Ao declararem que o sexo depende da organização, deixaram bem en­tendido que a diferenciação sexual não alcança o núcleo da indivi­dualidade, representado pelo Espírito imortal, pois fica contida nos limites extremos da organização perispiritual.
Por outro lado, Emmanuel informa, em resposta à pergunta número 30: “Há órgãos no corpo espiritual?” (1), que sim, pois o corpo físico “e uma exteriorização aproximada do corpo perispiritual”, e prossegue acrescentando que tal exteriorização “subordina (-se) aos imperativos da matéria mais grosseira, no mecanismo das heranças celulares, as quais, por sua vez, se enquadram nas indispen­sáveis provações ou testemunhos de cada individuo”.
Essa interdependência entre corpo físico e perispírito é acen­tuada por André Luiz (2) ao declarar que:
“Os cromossomos, estruturados em grânulos infinitesimais de natureza fisiopsicossomática, partilham do corpo físico pelo núcleo da célula em que se mantêm, e do corpo espiritual pelo citoplasma em que se implantam.” (Destaques meus.)
É bastante compreensível, pois, que os seres que trazem o perispírito ainda espesso, regressem ao mundo póstumo, pela desen­carnação, com uma pesada carga fluídica, profundamente impreg­

(1) “O Consolador”. FEB, 4ª edição, capítulo 1 — “Ciências Funda­mentais: Biologia”.
(2) Evolução em dois Mundos”, 3ª edição, capitulo 6º, página 50..

nada de materialidade e, por conseguinte, de sensações e necessi­dades bem semelhantes às que experimentava na carne.
Isto é confirmado pelos relatos mediúnicos, sendo a série André Luiz bastante rica em informações desse tipo. Para não alongar demais esta digressão, sugiro a releitura do capítulo 99 de “Nosso Lar”, sob o título “Problema da alimentação”.
Informa Lísias que, há cerca de um século, a questão alimen­tar era muito séria ali na colônia. Muitos dos recém-chegados da carne “duplicavam exigências”. Queriam mesas lautas, bebidas excitantes, “dilatando velhos vícios terrenos”. Quando a direção da colônia tomou providências mais enérgicas para coibir os abusos, estabeleceu-se um comércio clandestino com os representantes das trevas que, agindo, como sempre, através das brechas que as nossas paixões inferiores lhes abrem, utilizavam-se desse lamentável inter­câmbio como instrumento de infiltração e assalto à vasta organiza­ção regeneradora intitulada “Nosso Lar”.
Foram implantadas severas medidas de correção e reajuste, mas os alimentos não foram totalmente abolidos, em virtude da condição perispiritual, ainda bastante densa, da grande maioria dos que habitam aquela colônia.
No capítulo 18 dessa mesma obra, Laura informa que:
— “Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências, em “Nosso Lar”, que as dispensam quase por completo; mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.” (Destaques meus.)
Portanto, a alimentação com substâncias concentradas é ainda indispensável, mesmo para aqueles Espíritos mais esclarecidos, que se entregam a tarefas redentoras, ainda que mais humildes.
Assim, da mesma forma que os problemas alimentares, os de sexo não ficam totalmente eliminados por um passe de mágica, simplesmente porque se deu a desencarnação. Espíritos enredados nas tramas da sensualidade, tombam em situações calamitosas no mundo póstumo. Somente os mais purificados conseguem libertar-se dos apelos da carne.
— “Entre os casais mais espiritualizados — informa Laura a André —, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória.”
“Inútil é supor — diz um elevado instrutor (1) — que a morte física ofereça solução pacífica aos espíritos em extremo desequilíbrio, que entregam o corpo aos desregramentos passionais.
A loucura, em que se debatem, não procede de simples modifica­ções do cérebro: dimana da desassociação dos centros perispiriticos, o que exige longos períodos de reparação.” E, mais adiante:
“Convictos desta realidade universal (a aquisição gradativa das virtudes) não podemos esquecer que nenhuma exteriorização do instinto sexual na Terra, qualquer que seja sua forma de expres­são, será destruida, senão transmudada no estado de sublimação.” (Destaques meus.)
Não resta dúvida, portanto, do estudo doutrinário e das obser­vações colhidas, por Espíritos credenciados, no imenso laboratório da vida, que o sexo persiste no mundo póstumo, até que seja subli­mado. A sublimação há de marchar, por isso, junto com a sutili­zação progressiva do Espírito, pois que, chegado à condição de pureza, o sexo será, para o Espírito, apenas a lembrança de uma experiência valiosa que, entre outras, lhe serviu de degrau para a sua escalada.
Retomando, porém, nossas perguntas iniciais, poderemos res­ponder que, infelizmente, Espíritos que passaram por experiências no sexo feminino também odeiam, perseguem, obsidiam. Alguns são mesmo particularmente agressivos, rancorosos e violentos. É que; levando para o Além as suas frustrações, seus desvios, suas ânsias, recaem, fatalmente, em faixas desarmonizadas, onde se consorciam com outros seres igualmente desarvorados, para darem prossegui­mento ao exercício das paixões incontroladas. Nesse estado, con­tinuam mulheres, sentindo e agindo como tais. Exercem seus po­deres de sedução sobre outros seres, ganham “vestimentas”, “jóias”, “sapatos” e “perfumes”, a troco de favores. Prestam serviços tene­brosos junto a companheiros encarnados, mancomunados aos seus comparsas das sombras, que lhes asseguram uma “boa vida” de prazeres e proteção contra a dor que as espera fatalmente, para o reencontro, um dia, lá na frente.

(1) “No Mundo Maior”, FEB, 5ª edIção, capitulo 11 — “Sexo”.

De outras vezes, são escravizadas, reduzidas à condição mais abjeta, e seviciadas, perambulando, dementadas, em andrajos imun­dos, por vales de sombras espessas, até que, desgastadas pelo sofri­mento, tenham um impulso de arrependimento que lhes possibilite o socorro de que tanto necessitam.
Temos tido algumas experiências com espíritos femininos. Já lembrei, noutro ponto deste livro, o caso da irmã que se empe­nhava em perturbar uma família, tentando destruir um lar, para o que contava com o apoio de um sacerdote desencarnado, que a incentivava, e a isentava de culpa, “absolvendo-a”, provavelmente no confessionário, da responsabilidade, sob a alegação de que, em encarnação anterior, ela também fora traída.
Tivemos o caso de uma jovem que se suicidara por uma pai­xão desvairada, numa antiga encarnação na Escócia, quando aquele a quem amava abandonou-a, grávida e na vergonha. Localizando-o como encarnado, perseguia-o, tentando — e conseguindo — indu­zi-lo a erros bastante sérios.
Outra — fora irmã de caridade — atormentava uma criatura encarnada, em cumprimento a “ordens superiores”.
Vimos, também, aquela pobre companheira, teleguiada por hábeis indutores, que transviava um homem encarnado e era recom­pensada com festas, vestidos bonitos e prazeres.
Em certa oportunidade compareceu uma bem mais difícil. Já há algum tempo vinha tentando induzir um dos componentes do grupo a uma atitude extremamente arriscada. O caso era apresentado de maneira sutil, inteligente, como se fosse a coisa mais na­tural do mundo. Seria apenas a antecipação do que, segundo o Espírito, estava já programado para mais tarde. Não haveria culpa alguma, portanto. Era “físicamente” simpática, apresentava-se bem vestida, unhas muito polidas, sorridente, educada, cordial.
Várias vezes tentou influenciar o nosso companheiro, apresen­tando-se ante seus olhos espirituais, ou durante o desdobramento do sono natural. Finalmente, comparece aos nossos trabalhos me­diúnicos.
Ri-se, muito divertida da situação. Tem a voz suave, envol­vente e doce. Diz-se muito bela, elegante, esguia, bem-cuidada. Conta casos, sorri, faz gestos graciosos e parece imensamente segura de si mesma. Trata-me com condescendência e superiori­dade. Informa que “trabalha” junto a casais e que seu objetivo é libertar a mulher, para que todas sejam como ela, felizes e livres para gozar a vida, sem preconceitos. De vez em quando, pára a exposição para rir, pois deixa entrever que se decepcionou profun­damente comigo. Conhecia-me apenas de nome e a realidade não confere com a imagem que formulou a respeito da minha aparên­cia. Acha-me, provavelmente, feio, desengonçado e ridículo. Diz que no mundo em que vive é muito poderosa, porque é a favorita. Ainda muito condescendente, aconselha-me, como amiga, a juntar minhas coisas e partir enquanto é tempo, pois não tenho a menor idéia do que estou fazendo e onde estou me metendo. Esquiva-se habilmente às perguntas, muito segura, inteligente e tranqüila. Quando lhe formulo questão mais complexa, desculpa-se, dizendo que é uma mulher e não é dada à Filosofia.
Do mundo espiritual, sugerem-me que lhe pergunte por que fugiu de um certo castelo inglês. Ela continua a negacear, mas se mostra visivelmente transtornada. Por fim, perde a calma, aban­dona a atitude de inconseqüente e superior condescendência, e or­dena-me autoritariamente que me sente, o que não quero fazer, para permanecer junto do médium que a recebe.
É chegado o momento de começar realmente o processo de doutrinação. Até aqui — o trabalho todo durou cerca de uma hora — o tempo foi aplicado em tatear a sua personalidade e os seus problemas, a fim de obter informações. Agora, já dispomos de alguns elementos mais concretos. Digo-lhe, de início, que sua beleza física, de que tanto se orgulha, é mera criação de sua mente, mas ela está bem preparada para o confronto. Pede um espelho, para me provar que não tenho razão. Nesse ponto, não obstante, vê junto dela um Espírito de aparência agressiva e pejado de vi­brações desarmonizadas. É um antigo esposo, de quem ela matou todos os filhos recém-nascidos e os enterrou no jardim. Não queria filhos, porque eles “deformam o corpo”. Está igualmente preparada para esse encontro. Na organização em que vive, como favorita de um poderoso líder das trevas, tudo aquilo lhe fora mostrado em retrospecto, por meio de imagens vivas, em filme, para que ela pudesse, numa emergência como esta, suportar a lembrança das suas próprias atrocidades, sem se perturbar e perder o “equilíbrio”. Agora, enquanto revê as cenas, está aparentemente segura e core­tinua a rir-se de tudo, dizendo que não adianta mostrar-lhe nada. A despeito do seu preparo, no entanto, não resiste muito tempo e entra em crise dolorosa, a pobre e querida irmã. Seu ex-marido incorpora-se em outro médiuni e atira-lhe impropérios, entre dentes, chamando-a de assassina. Diz-lhe que está à sua espera e ri, de prazer insano, ante o desespero em que ela se precipita. Dirijo a ele algumas palavras, tentando acalmá-lo, e me volto para ela, para ajudá-la a enfrentar o seu problema, as suas recordações e, princi­palmente, o seu futuro. Ela me responde em perfeito inglês:
      - 1º burned all the bridges behind me. (Queimei todas as pon­tes por que passei.)
      Respondo-lhe que tentou também queimar as pontes para o futuro e, por isso, se sente prisioneira numa ilha sinistra. É uma longa e penosa agonia! Sente as mãos sujas de sangue, detesta aquele vestido vermelho, que não consegue trocar, e começa a temer o momento fatal em que terá de deixar o médium para enfrentar a nova realidade que se pastou diante dela subitamente, mas, por certo, não inesperadamente. Elà pressente as dores que a esperam, pois muitas vezes deve ter presenciado esse momento dramático, em outros Espíritos endívidados. De repente, começa nela um ful­minante processo de envelhecimento, ao mesmo tempo em que suas roupas apresentam-se sujas e em frangalhos. Ela ainda consegue dizer que seu ventre secou e, por fim, desprende-se com enorme sofrimento para o médium, que ficou com os resíduos da sua pro­funda e dolorosa angústia.
      Poucas semanas depois deste caso, tivemos outra manifestação de Espírito feminino. Também é das que se dizem atraentes e se­dutoras, estando, obviamente, empenhada em fascinar criaturas encarnadas e desencarnadas, a serviço dos seus mandantes. Vai logo dizendo, muito sorridente, que não venha com as minhas conversas macias. Ainda se fossem outras conversas... diz, maliciosamente. Declara-se muito sutil e por isso é destacada para missões delicadas. Teria descoberto que o pobre doutrinador é muito amado e teve o desejo de conhecê-lo pessoalmente; no entanto, mal pode escon­der seu desapontamento. Presa aos seus condicionamentos, espe­rava, por certo, que eu fosse jovem e belo, e não um desenxabido senhor de cabeça a branquear. Digo-lhe que realmente sou um velho sem graça e quando lhe pergunto se ela é jovem, responde corretamente que o Espírito não tem idade. A uma outra per­gunta minha, declara que vive no céu, pois o céu é um estado de espírito e ela é muito feliz. A conversa prolonga-se aparentemente sem rumo, mas é a fase em que são colhidas as informações de que necessitamos para o trabalho real de doutrinação.
Depois de reunidos os elementos que me parecem suficientes, proponho-me a orar. Ela protesta, alegando que eu oro demais e, mal me levanto, ela se debruça sobre a mesa, em pranto, numa crise emocionante, dolorosa. Sinto por ela uma infinita e paternal ternura e lhe falo com muito carinho. Ela deixa cair todas as guar­das e me conta que é uma infeliz: foi explorada pelos homens aqui, na carne, e continua a ser explorada do lado de lá. Vive num verdadeiro campo de concentração, com outras criaturas infelizes. Enquanto “ela” estava lá — refere-se, como depois apuramos, à irmã atendida semanas antes e que descobrimos ter sido uma duquesa — foi protegida; depois, não. Havia sido incumbida de uma tarefa, junto à esposa de alguém que estávamos interessados em ajudar; mas, ao chegar junto a essa pobre senhora, viu-a em pranto, a chorar às escondidas. Teve pena dela e ficou sem coragem de exe­cutar friamente o seu mandato.
(Estava presente também quando telefonei para essa amiga encarnada, para consolá-la de dores que me havia confiado.) Aproveito para dizer-lhe que foi aquele mo­mento de compaixão, diante da sua vítima em perspectiva, que a salvou, permitindo que fosse, por sua vez, socorrida. Sente-se muito desconcertada e arrependida de ter-me tratado como tratou, de iní­cio. Quando lhe digo que tenho idade para ser seu pai, ela me interrompe para afirmar que não teve a intenção de me ofender: Como estou, precisamente naquela noite, comemorando 56 anos de idade, digo-lhe que ela acaba de me dar o mais lindo presente: seu coração. Ela teme seus verdugos e está apavorada ante as perspec­tivas de ser arrastada por eles, ao deixar o médium. Sente-se muito emocionada ante o carinho e o respeito com que a tratamos, se diz cansada e confessa que até aos meus prejudicou bastante, em suas atividades, Vê, agora, ao seu lado, uma jovem pacificada e tranqüila, que veio recebê-la, mas um dos emissários da sua tene­brosa organização está presente, em outro médium, e tenta confun­di-la, dizendo que a moça que a espera também é deles, o que não é verdade. Pergunto se ela confia em mim. Diz que sim. Peço-lhe que siga a moça, e ela parte, repetindo uma pequena prece que lhe sugiro:
—   Jesus, me ajude!
Houve, neste caso, um pós-escrito. O companheiro que se in­corporou em outro médium, para ameaçá-la, perguntou se eu ainda dispunha de tempo para atendê-lo. Respondi-lhe que, infelizmente, não, porque tínhamos uma disciplina de trabalho, que precisava ser obedecida, mas poderíamos conversar na oportunidade seguinte, com o que ele concordou, dizendo que voltaria. No decorrer da semana, porém, nossos mentores disseram-nos que ele havia sido doutrinado no mundo espiritual mesmo, e que se esclarecera, não sendo, por­tanto, necessário trazê-lo novamente ao grupo.

*

      São essas algumas experiências com Espíritos ditos femininos. As vezes, elas são obsessoras implacáveis, tão violentas e agres­sivas como os homens, tão irracionais quanto eles, nas suas paixões e no desejo insaciável de vingança; mas são estatisticamente em número reduzido, em relação aos Espíritos masculinos e, decidi­damente, mais abertas ao entendimento e predispostas ao desper­tamento, porque mais sensíveis ao apelo da ternura, da emoção, do respeito à sua condição feminina, ainda que estejam transitoria­mente numa posição de aviltamento, ou, talvez, por isso mesmo. Ao sentirem que são tratadas como seres humanos, reagem como seres humanos, respondendo, mais cedo ou mais tarde, às vibrações da nossa afeição.
O  mais comum, porém, em trabalhos mediúnicos, é encontrar mulheres que vêm recolher nos seus braços amorosos os compa­nheiros recém-despertos. São velhos e seculares amores: mães, es­posas, filhas, irmãs, que guardaram ternuras profundas, alimentadas em esperanças que nunca se apagaram, nem mesmo esmoreceram. Comparecem, às vezes, ainda enoveladas, elas próprias, em res­gates dolorosos, mas quase sempre já mais avançadas no caminho da pacificação. Algumas encontram-se de há muito revestidas de luz e harmonia. Um destes casos, intensamente dramático, está rela­tado por André Luiz, em “Libertação”. Matilde desce aos subter­râneos da dor, para resgatar o seu amado Gregório, que se trans­viara lamentavelmente, e é com o seu amor apenas — e é tudo! — que enfrenta a sua cólera, numa cena inesquecível.

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