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A MULHER EQUIVOCADA



Seu nome não é citado nos Evangelhos, nem as tradições apostólicas o registraram de alguma forma que alcançasse os nossos dias.

O evangelista João é o único a narrar seu encontro com Jesus, no capítulo 8 do seu Evangelho, nos versículos 2 a 11, portanto, deve ter sido testemunha ocular.

As folhas do outono juncavam o chão. Terminadas estavam as festividades dos Tabernáculos, ou Festa das Tendas, considerada pelo povo de Israel a mais espetacular de todas as festas.

Para a celebrar, cada família devia construir nos arredores de Jerusalém uma cabana de folhagens, na qual residiria por uma semana. As cabanas deviam relembrar aos filhos de Israel que Iavé os fizera morar nelas, quando saíram do Egito e peregrinavam pelo deserto. Dos rituais, fazia parte toda manhã, uma procissão de sacerdotes que descia o monte Moriá até a fonte de Siloé, acompanhada pelo povo, que levava palmas, ao som do shofar (longo chifre de carneiro que serve de trombeta).

Colhida a água em vaso de ouro, tornava a multidão a subir a colina do templo, onde os sacerdotes derramavam o líquido, misturado com vinho, no altar dos holocaustos.

Jesus viera a Jerusalém para participar da Festa e permanecera, concluídas as festividades, pregando. Naquele dia, "Ele estava próximo à porta Nicanor, do lado leste do Templo, chegando pelo caminho do Monte das Oliveiras, acompanhado dos discípulos." (1)

Então, um grupo de fariseus, em meio a um grande alvoroço, lhe trouxe uma jovem mulher, aparentemente apanhada em flagrante adultério.

Diga-se que, entre o povo de Israel, a definição de adultério não era a mesma para o homem e a mulher. O homem somente era acusado de adultério se tivesse relações com uma mulher casada ou noiva, porque, entendia-se, agredia outro homem. A mulher, adulterando, agredia o matrimônio.

Suspeita de adultério, era submetida à prova da água amarga. Devia beber uma monstruosa bebida à base de pó apanhado no Templo. Se vomitasse ou ficasse doente, era considerada culpada. Surpreendida em flagrante, a pena era a morte, que igualmente era aplicada à mulher que fosse violada dentro dos muros da cidade, pois supunha a Lei que, dentro da cidade, se ela tivesse gritado por socorro, teria sido ouvida e socorrida.

Os fariseus submetem a adúltera ao julgamento de Jesus. Em verdade, embora tivessem olhos de lince para todas as faltas do próximo, a questão daquela hora visava muito mais aproveitar o incidente para armar uma cilada ao Profeta de Nazaré do que zelar pela pureza do matrimônio.

Eles a jogaram no chão e ela ali ficou, sem coragem sequer de erguer os olhos. Sabia que delinqüira e conhecia a penalidade. Sabia, igualmente, que ninguém dela se apiedaria. Ninguém, senão Ele.

Enquanto a indagação dos fariseus aguarda uma resposta do Rabi, sobre a pecadora, Ele se inclinou e traçou na areia do pavimento caracteres misteriosos.

Que escreveria Ele? O nome do cúmplice que se evadira? O nome do marido que, ferido no orgulho, permitia fosse sua esposa tão vilmente tratada?

Narram diversos intérpretes do texto evangélico, que Ele grafava a marca moral do erro de cada um. Curiosos, os que ali esperavam a sentença de morte, para se extasiarem no espetáculo de sangue e impiedade, podiam ler: ladrão, adúltero, caluniador... Em síntese, as suas próprias mazelas morais.

Crescia a expectativa. Jesus se ergueu, percorreu o olhar perscrutador pela turbamulta dos acusados, que sentiu atingir-lhes a intimidade, e disse tranqüilamente:

"Aquele dentre vós que estiver sem erro, atire-lhe a primeira pedra."

Em silêncio, os circunstantes se afastaram, um a um, a começar pelos mais velhos. "Sim, os mais velhos trazem maior soma de empeços e problemas, remorsos e azedumes..." (1)

No meio da indecisão geral, Jesus tornou a traçar na areia sinais enigmáticos. Quando o silêncio se fez, Ele se levantou. Ali estava a mulher à espera do seu castigo. Se todos os demais haviam partido, ela devia esperar da parte dEle a sentença e a execução. O Divino Pastor considerou a fragilidade do ser humano e, compadecido com suas misérias morais, lhe disse: "Mulher, onde estão aqueles que te acusavam? Ninguém te condenou?"

"Ninguém, Senhor" - ousou responder à meia-voz. Então, em vez do sibilar mortífero das pedras, ela ouviu as palavras do perdão e da vida: "Nem eu tão pouco te condeno: vai e não tornes a pecar!"

As anotações evangélicas se resumem ao episódio. Contudo, o espírito Amélia Rodrigues nos conta que, naquela noite, a equivocada procurou o Mestre, na residência que O acolhia.

Falou da fraqueza que a dominara, nos dias da mocidade, sentindo-se sozinha. O esposo, poucos dias após o matrimônio, retomara as noitadas alegres e despreocupadas junto dos amigos. Ela se sentira carente e cedera ao cerco do sedutor, que a brindava com atenção e pequenos mimos.

Nada que a desculpasse, reconhecia. E agora, consumada a tragédia, para onde iria? O esposo não a receberia, após o espetáculo público. Também não poderia contar com a proteção paterna, porque fora levada à execração pública, não simplesmente recebendo uma carta de repúdio, o que poderia servir até como indenização ao seu pai, pois o marido que assim procedesse deveria devolver uma parte do dote da noiva ao sogro.

Não havia lugar para ela em Jerusalém.Que seria dela, só e desprotegida?

O Mestre lhe acenou com horizontes de renovação, discorrendo sobre a memória do povo que é duradoura para com as faltas alheias. Ela sentiu, nas entrelinhas, que deveria buscar outras paragens, lugares onde não a conhecessem, nem o drama que acabara de viver.

Na despedida, Jesus a confortou: "...Há sempre um lugar no rebanho do amor para as ovelhas que retornam e desejam avançar. Onde quer que vás, eu estarei contigo e a luz da verdade, no archote do bem brilhará à frente, clareando o teu caminho."

Dez anos passados e ei-la, em Tiro, em casa humilde, onde recebe peregrinos cansados e enfermos sem ninguém. Um pouso de amor ela erguera ali.

Não esquecera jamais daquele entardecer e da entrevista noturna. Tornara-se uma divulgadora da Boa Nova. De seus lábios brotavam espontâneas as referências ao Doce Rabi, alentando as almas, enquanto limpava as chagas dos corpos doentes.

Foi em um cair de tarde que lhe trouxeram um homem quase morto. Ela o lavou e pensou-lhe as chagas. Deu-lhe caldo reconfortante e tão logo o percebeu aliviado das dores, lhe ofereceu a mensagem de encorajamento, em nome de Jesus.

Emocionado, confessa ele que conhecera o Galileu, num infausto dia, em Jerusalém. Odiara-O, então, porque Ele salvara a mulher que adulterara, a sua esposa, mas não tivera para com ele, o ofendido, nenhuma palavra.

O tempo lhe faria meditar em como se equivocara em seu julgamento. Confessa que, desde algum tempo, vinha buscando a companheira, procurando-a em muitos lugares, sem êxito. Até que a doença lhe visitara o corpo, consumindo-lhe as energias.

"Embargada pelas emoções em desenfreio, naquele momento, a mulher recordou-se da praça e do diálogo, à noite, com o Mestre, um decênio antes, reconheceu o companheiro do passado e sem dizer-lhe nada, segurou-lhe a mão suavemente e o consolou: '...Deus é amor, e, Jesus, por isso mesmo nunca está longe daqueles que O querem e buscam. Agora durma em paz enquanto eu velo, porquanto, nós ambos já O encontramos..." (2)

Bibliografia:
01.FRANCO, Divaldo Pereira. Atire a primeira pedra. In:___. Luz do mundo. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1971. cap. 13.
02.______. Encontro de reparação. In:___. Pelos caminhos de Jesus. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1988. cap. 15.
03.______. A consciência de culpa. In:___. Trigo de Deus. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1993. cap. 13.
04.ROHDEN, Huberto. A adúltera. In:___. Jesus nazareno. 6. ed. São Paulo: UNIÃO CULTURAL. v. 2, cap. 92.
05.ROPS, Daniel. Família, "Meus ossos e minha carne". In:___. A vida cotidiana na Palestina no tempo de Jesus. Livros do Brasil. pt. 2, cap. 2, item VII.
06. SAULNIER, Christiane e ROLLAND, Bernard. As instituições religiosas. In:___. A Palestina no tempo de Jesus. 2. ed. São Paulo: PAULINAS, 1983. item As festas.
07.VAN DER OSTEN, A . Adultério. In:___. Dicionário enciclo-pédico da bíblia. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - fevereiro/2004




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Nicodemos (O entrevistador noturno)


 Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - junho/2005

Ele era um dos homens mais ricos da sua terra. Talvez a quinta fortuna dos seus dias. Era um vencedor. Pertencia à seita dos fariseus, portanto, à elite judaica.

Ao tempo de Jesus, deveriam existir uns 6.000 fariseus e ele era um dos principais entre os judeus e considerado mestre em Israel.

Seu nome significa aquele que vence as pessoas: Nicodemos. Existem três registros à sua pessoa, todos no quarto Evangelho.

O primeiro se encontra nos apontamentos de João 3,1-21 e narra o seu encontro noturno com Jesus. 

Os tempos eram difíceis e a Judéia respirava intranqüilidade. Nicodemos pede uma entrevista a Jesus e vai ao Seu encontro, altas horas da noite.

Esgueira-se pelas colunas, anda pelas ruas olhando para trás, com medo de estar sendo seguido.

Enquanto, normalmente, os que andam à noite, pela cidade de Jerusalém, portem archotes com resina para iluminar o caminho, ele teme ser identificado, reconhecido e anda às escuras.

Desde que ouvira referências ao Homem de Nazaré começara se inquietar. Algo lhe dizia que deveria ouvi-Lo, conhecê-Lo. No entanto, como poderia, sem se expor?

Jesus se hospeda em casa de amigos, fora dos muros da cidade. Na varanda, na noite de primavera, aguarda. Três pancadas se ouvem. João, que O acompanha, se ergue e recebe o que chega.

Na véspera, ocorrera o episódio de Jesus exortar aos mercadores do Templo, dizendo-lhes de que haviam transformado a Casa do Pai em uma casa de vendas.

O fato andava de boca em boca, naturalmente, por muitos acrescido de detalhes nem ocorridos. De toda forma, a política na Judéia era complicada e os ouvidos da espionagem se multiplicavam por todos os recantos de Jerusalém.

Por conhecer o que havia na alma do homem que lhe solicitara a secreta entrevista, Jesus concordara em recebê-lo. Um encontro em casa de alguém que não levantaria suspeitas. Uma ida altas horas da noite.

A Luz do Mundo fala ao intelecto e ao inquieto coração de Nicodemos. O "nascer de novo" mais lhe suscita inquirições. Não que desconhecesse a lei judaica dos renascimentos, deseja antes entender o verdadeiro processo.

"O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de ter eu dito: necessário é nascer de novo. O espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é tudo aquilo que é nascido do Espírito."

Jesus vai além das indagações do doutor da Lei e lhe confia algo acerca do futuro próximo. Nicodemos não é um discípulo, nem parente. Mas é a ele que Jesus revela Seu destino sobre a Terra, pela primeira vez.

Era o início do Seu ministério, Sua primeira viagem a Jerusalém: "Ninguém subiu ao céu a não ser o Filho do homem, ele, que desceu do céu. Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim deve ser elevado também o Filho do homem, para que todo o homem que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna."

Quando a madrugada se tingia de escarlate, o Mestre e o amigo se despediram.

O segundo momento em que Nicodemos é citado é em João 7, 37ss. Jesus fora assistir às cerimônias litúrgicas, no meio do povo.

No último dia da festa dos Tabernáculos, Ele viu o sacerdote, por entre o som das trombetas, colher água, em um vaso de ouro, na fonte de Siloé, tornar a subir a montanha e derramá-la sobre o altar dos holocaustos.

Finda a cerimônia, o povo ainda no átrio do Templo, Jesus, do alto da escada semicircular de 15 degraus, bradou:

"Quem tiver sede venha a mim e beba! Quem crer em mim, brotar-lhe-ão do interior torrentes de águas vivas."

A explanação que o Mestre deu a seguir impressionou o povo e inquietou os sacerdotes. Emissários foram despachados para O prender, mas ninguém O ousou tocar.

Retornaram de mãos vazias. O Sinédrio reunido discute. Não é somente a plebe ignorante que aplaude Jesus. Muitos personagens ilustres O seguem.

Nicodemos recorda seu colóquio noturno com Ele e O defende com desassombro:

"Acaso a nossa lei condena um homem sem primeiro o ouvir e inquirir o que fez?"

Tal defesa lhe valeu a acusação de galileu, o que era sinônimo de discípulo do Nazareno.Sofismando, as vozes exaltadas afirmam que da Galiléia não pode vir profeta algum. O Nazareno é um impostor. Estavam tão enceguecidos pela paixão, que esqueciam que eram filhos da Galiléia os profetas Jonas e Nahum.

A assembléia discutiu muito e acabou por se dissolver, sem nada resolver, afirma o historiador evangélico.

Quantas outras vezes terá Nicodemos defendido Jesus, sem que houvesse registros, porque ele, pela sua humildade, não o revelou a ninguém?

Mas João não o esqueceria. Ser-lhe-ia eternamente grato por sua atitude corajosa, ao se concretizar a morte de Jesus.

E o menciona como aquele que auxiliou José de Arimatéia a conceder sepultamento digno ao corpo do Mestre. Diligenciou a retirada do corpo da cruz, auxiliou a embalsamar o corpo, rapidamente, face ao sábado judaico que logo se iniciaria.

Sua derradeira homenagem foi comprar 100 libras de essências odoríferas e um grande lençol de linho precioso para envolver o corpo.

As anotações evangélicas não vão além. Esteve Nicodemos no Sinédrio, na tenebrosa noite do julgamento do Senhor das estrelas? Se presente, terá sido sua voz a única a se erguer em favor do acusado?

De toda forma, Nicodemos se mostrou amigo Daquele de quem recebeu não somente esclarecimentos, mas confiança na célebre entrevista noturna.

E justiça lhe seja feita, se num primeiro momento foi ouvi-Lo às ocultas, teve a ousadia de defendê-Lo perante os demais membros do Sinédrio. E muita coragem para se expor, providenciando-Lhe a sepultura.

É de nos perguntarmos se não terá ele sofrido represálias do Sinédrio, perseguições, demissão do seu cargo, como conseqüência do seu gesto. 

Era sim, um amigo fiel do Mestre de Nazaré.


Bibliografia:


01. FRANCO, Divaldo Pereira. Nicodemos, o amigo. In:___. As primícias do reino. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Rio [de Janeiro]: SABEDORIA, 1967.
02. ROHDEN, Huberto. A sepultura de Jesus. In:___. Jesus nazareno. 6. ed. São Paulo: UNIÃO CULTURAL. v. II, nº 190.
03.________. Último dia da festa dos tabernáculos. Op. cit. v. II, nº 91.
04.SALGADO, Plínio. O amigo. In:___. Vida de Jesus. 21. ed. São Paulo: Voz do Oeste, 1978. cap. 21.
05.VAN DER OSTEN, A . Nicodemos. In:___. Dicionário enciclopédico da bíblia. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

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Joana de Cusa




Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - outubro/2003

O Evangelista Lucas a ela se refere em duas oportunidades, em seus apontamentos. A primeira, no capítulo 8:1-3: "...e andavam com ele os doze, e algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, e Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes, e Susana..."

A segunda, no capítulo 24, onde a identifica como uma das mulheres que, vindo da Galiléia com Jesus, tendo observado que o Seu corpo, ao ser descido da cruz, fora simplesmente envolvido num lençol e depositado no sepulcro aberto na rocha, cedido por José de Arimatéia, preparou aromas e bálsamos e, no primeiro dia da semana, foi ao sepulcro.

Ao chegar, em companhia de outras mulheres, entre as quais, Madalena e Maria, mãe de Tiago descobriu a pedra do sepulcro revolvida.

Adentrando o local, foram surpreendidas por dois homens com vestes resplandecentes que lhes informaram que Jesus não mais estava ali, pois que ressurgira, ressuscitara.

Retornaram a Jerusalém, entre o assombro e a ansiedade, a transmitir as novas aos apóstolos e discípulos.

O espírito Humberto de Campos a ela se refere como uma mulher de muitas posses, que tinha a seus serviços inúmeras criadas, que a serviam com zelo. Desfrutava, ao tempo de Jesus, de privilegiado nível social, em Cafarnaum.

Casada com um alto funcionário de Herodes, Joana era das mulheres mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum.

Atraída pelo verbo eloqüente de Jesus, passou a ouvir as pregações do lago. Denotando a nobreza de caráter, vestia-se de forma simples, a fim de não atrair a atenção do povo para si.

Desejava beber da água viva de que Ele falava. Trazia no coração uma infinidade de dissabores. Possuidora de verdadeira fé, amargurava-se pela posição do esposo.

Intendente de Herodes, em contato constante com os representantes do Império, a fim de gozar do prestígio social, ele ora comparecia ao Templo de Jerusalém, ora sacrificava aos deuses romanos.

Joana possuía verdadeira fé. Tentara expor ao marido a sua nova crença, em vão. Trazendo a alma torturada, pelos tantos dissabores domésticos, certa vez procurou o Mestre para lhe falar das suas lutas e desgostos, no lar.

Jesus a ouviu longamente e depois ponderou: "Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o Seu amor. Todos os Templos da Terra são de pedra; eu venho , em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens."

Por fim, Jesus lhe recomenda que volte ao lar e ame o seu companheiro, despedindo-a com um "Vai, filha!...Sê fiel!" Uma inflexão de tal carinho, que ela jamais haveria de esquecer.

Retornou ao lar e transformou todas as suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia. Procurou esquecer as características inferiores do marido, enaltecendo o que ele possuía de bom.

Um filho veio lhe enriquecer os dias e os anos passaram. Perseguições políticas e reveses se abateram, finalmente, sobre o ex-intendente Cusa. Perdendo seu prestígio, envolvendo-se em dívidas insolváveis e amargurado, enfermou gravemente.

Numa noite de sombras, ele voltou ao plano espiritual. Joana que tudo suportara até então, viu-se a braços com as dificuldades mais acerbas.

Ela, que possuíra a seu comando tantas servas, necessitou procurar trabalho para se manter e ao filhinho, embora as observações acres de amigas. Fiel a Jesus, recordava que Ele também havia trabalhado, modelando a madeira, na modesta carpintaria. Ele, o Divino Mestre.

Desta forma, se dedicou aos filhos de outras mães e afazeres domésticos em casa alheia, provendo as suas e as necessidades do filho. Anos mais tarde, a bordo de uma galera romana, ela demandaria à capital do Império.

Nos anos 54 a 68, o Império romano foi governado por Lúcio Domizio Enobardo, que a História imortalizou com o nome de Nero. Dentre tantas loucuras, como o esbanjar sem limite o dinheiro público, organizar orgias extravagantes, desencadeou grandes perseguições aos cristãos.

Segundo crônicas do historiador latino Tácito, fiéis do Cristo, amarrados, cobertos de alcatrão, eram usados como tochas humanas para as insônias de Nero, nos passeios noturnos nos jardins da sua residência privada, a Domus Áurea (Casa Dourada), no Monte Aventino.

Ao comando da sua maldade, tendo acusado os cristãos de terem ateado fogo a Roma, foram executados de 200 a 300 mil.

No dia 27 de agosto de 68, nas proximidades das águas termais de Caracala, no Monte Aventino, Joana, junto a outros 500 cristãos, foi levada ao poste do martírio. De cabelos nevados, ela ouve as queixas de um homem novo, amarrado ao poste próximo.

É seu filho que exclama, entre lágrimas: "Repudia a Jesus, minha mãe!... Não vês que nos perdemos?! Abjura!...por mim, que sou teu filho!..."

As lágrimas acodem aos olhos daquela mulher. Pela sua mente, passam rapidamente as cenas de sua juventude, os primeiros anos do casamento, os dissabores, as alegrias da maternidade, as lutas, a viuvez, as necessidades mais duras.

Lembra de Maria, mãe de Jesus, que assistira, por horas, o suplício do seu amado filho. Por fim, acode-lhe à memória, a tarde memorável do particular encontro com o Mestre e suas palavras de despedida: "Vai filha! Sê fiel!"

E pede ao filho que se cale, conclamando-o à fidelidade a Deus. As labaredas lhe lambem o corpo e ela abafa, no peito, os gemidos. A massa de povo grita, desvairada.

Um dos verdugos se aproxima dela e lhe pergunta, irônico: "O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?"

A resposta, corajosa, se deu num murmúrio: "Não apenas a morrer, mas também a vos amar!"

E sentindo uma mão suave a lhe tocar os ombros, escutou a voz inconfundível do Divino Pastor: "Joana, tem bom ânimo! Eu aqui estou!"

Triunfante, ela transpôs o pórtico da morte para adentrar na verdadeira vida.

Bibliografia:

01.Evangelho de Lucas, 8:1-3 e 24:1-10.

02.RENAN, Ernest. Os discípulos de Jesus. In:___. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 1995. cap. 9.

03.SCHUBERT, Suely Caldas. Joanna além do tempo. In:___. O semeador de estrelas. Salvador: LEAL, 1990. cap. 2.

04.XAVIER, Francisco Cândido. Joana de Cusa. In:___. Boa nova. Pelo espírito Humberto de Campos 8. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1963. cap. 15.

05.______. A mulher ante o Cristo. In:___. Religião dos espíritos. Pelo espíritoEmmanuel. 4. ed. Rio[de Janeiro]: FEB, 1960


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JEZIEL(ESTEVÃO)



Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - janeiro/2004

Em Atos dos Apóstolos, a primeira referência que é feita a Estêvão, se encontra no cap. 6, v. 5 e seguintes, ao relatar a escolha dos diáconos (aqueles que servem) para a Igreja de Jerusalém (Casa do Caminho), figurando o seu nome em primeiro lugar, na lista dos sete escolhidos.

Emmanuel, no entanto, ao enfocar a saga de Paulo de Tarso, inicia a sua maravilhosa narrativa, com a história da família de Jochedeb ben Jared, no ano 34, que se constituía do pai, Jochedeb, a filha Abigail, de 18 anos e Jeziel, no vigor dos seus 25 anos de idade.

Naquele ano, o representante de César em Corinto, Licínio Minúcio, lhes tomou a propriedade e destroçou a família. O pai morreu açoitado diante dos dois filhos. Abigail foi socorrida pelas generosas mãos do casal Zacarias ben Anan e sua esposa, que haviam acabado de sofrer a morte do filho, e foi viver, em uma granja, na estrada de Jope. Jeziel, após sofrer bárbara tortura por espancamento, foi recolhido à prisão e encaminhado, transcorridos mais ou menos 30 dias, para o serviço das galeras romanas.

"Sua formação moral resistiu heroicamente à dureza das novas condições. Não se deixou vencer pelo desespero nem pelo ódio, impondo voluntariamente sua autoridade moral, não apenas aos companheiros de infortúnio, mas até mesmo ao feitor." (1)

O ilustre romano Sérgio Paulo, que se encontrava a bordo, em missão política, adoeceu gravemente. Abriu-se seu corpo em chagas, de tal forma que nem seus amigos o desejaram tratar. A incumbência foi dada ao jovem escravo Jeziel.

À conta de suas preces e seus cuidados, a autoridade romana se restabeleceu, enquanto o escravo manifestou a mesma enfermidade.

Grato pelo cuidado de Jeziel, Sérgio Paulo conseguiu se opor ao comandante do barco que o desejava jogar ao mar, para evitar a contaminação, e o deixou em terra, na costa da Palestina, munido de uma bolsa de dinheiro.

Depois de ter dado a bolsa a um homem que o encontrou, o jovem israelita mereceu dele a misericórdia de ser conduzido à casa de um tal Efraim, que o levou à Casa do Caminho, em Jerusalém.

Recebido pelo generoso coração de Pedro, foi tratado e curou-se. Logo mais, abraçaria a nova fé e, por sugestão do próprio Pedro, adotaria o nome grego, tanto para resguardar-se de ser identificado, criando dificuldades ao romano que lhe concedera a oportunidade de uma nova vida, quanto para demarcar a nova fase de sua vida em Cristo: Estêvão.

Rapidamente, Estêvão se integrou na vida da comunidade cristã, passando a servir à causa com todas as suas forças. Breve, se tornou uma das figuras de destaque na Casa do Caminho, pelas suas faculdades curadoras e inspirada pregação.

O seu primeiro encontro com o futuro Apóstolo dos Gentios se deu na própria Casa do Caminho, quando Saulo ali esteve, levado por Sadoc que o desejava liderando uma campanha contra "aqueles homens", cujo prestígio crescia em Jerusalém.

Saulo ameaçou Estêvão com a autoridade do Sinédrio, mas o pregador não se atemorizou. Para ele, não havia autoridade maior que a de Deus.

Convidado ao debate, no Sinédrio, escusou-se, dizendo que esse era contrário aos ensinos de Jesus. Denunciado formalmente, então, por amigo de Saulo, compareceu perante o Tribunal, sozinho.

O interrogatório foi presidido pelo próprio Saulo que, vencido pela serenidade e paz que descobriu em Estevão e sua convicção inabalável em Jesus, acabou por se deixar dominar pela cólera e o esbofeteou, repetidas vezes.

A sentença final foi a morte por apedrejamento, após quase dois meses, período em que Estêvão foi mantido em regime carcerário.

No dia marcado para o apedrejamento, foi conduzido às proximidades do altar dos holocaustos, no Templo. Apresentava equimoses nas mãos e nos pés. O passo tardio demonstrava cansaço. A barba estava crescida e maltratada.

Após a leitura das acusações, antes de pronunciar a sentença, Saulo perguntou-lhe se estaria disposto a abjurar, com o que teria preservada sua vida.

A resposta desassombrada do moço de Corinto foi de que nada no mundo o faria renunciar à tutela de Jesus. Morrer por Ele significava uma glória.

O tumulto foi geral. Fariseus exaltados o arrastaram, puxaram-no pela gola, e não fosse a intervenção enérgica de força armada, ele seria estraçalhado pela multidão furiosa.

Com o auxílio de um legionário romano, recompôs as vestes sujas e rotas, acima dos rins, para não ficar inteiramente nu. Algemado a um tronco, com os pulsos sangrando, pela grosseria dos soldados, sob o sol abrasador das primeiras horas da tarde, começou o apedrejamento.

Os executores da sentença eram os representantes das sinagogas das cidades que convergiam ao Templo. Despindo seus mantos brilhantes e enfeitados, entregando-os a Saulo, eles se esmeraram em poupar a cabeça do condenado, a fim de que o espetáculo durasse mais tempo.

Estêvão pensa em Jesus e ora. O peito se cobre de ferimentos e o sangue flui, abundante. Ele recita o Salmo XXIII de Davi: "O senhor é meu pastor...Nada me faltará..".

Sentindo a presença de seus amigos espirituais exclama, o que os Atos, no cap. 7, vers. 56, registrou: "Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressuscitado na grandeza de Deus!"

Recorda a irmã Abigail. Por onde andaria? Que teria sido feito dela? Nunca mais a encontrara.

Abigail, noiva de Saulo, e por ele convidada para assistir a execução chegava naquele instante. Demorara-se em vir porque não desejava presenciar o espetáculo vil. Instara mesmo junto a Saulo se não poderia ser outra a sentença ao jovem pregador, a respeito do qual o noivo lhe falara.

Surpresa, reconhece o irmão e ele, ante a visão do Cristo que olhava melancolicamente para Saulo, a reconhece igualmente. Já não tem certeza se ela em espírito ali se apresenta ou se é produto de alguma alucinação, pelas dores que o acometem.

A pedido de Saulo, que não entende como se tornara o verdugo do irmão de sua noiva, ele é retirado do poste e conduzido ao gabinete dos sacerdotes.

Tanto quanto pôde, Jeziel resumiu para Abigail sua história e lançou em sua alma as primeiras sementes da Boa Nova.

A irmã lhe apresenta o noivo, Saulo, a quem o moribundo contempla sem ódio e acentua:

"- Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo, um inimigo, tenho um irmão... Saulo deve ser bom e generoso, defendeu Moisés até ao fim... Quando conhecer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor... Sê para ele a companheira amorosa e fiel." (3)

A cena é comovedora. Abigail deixara o irmão preso ao poste de martírio em Corinto uma vez e torna a encontrá-lo, em idêntica condição, em Jerusalém.

Ora, a pedido dele, conforme o fizera, um dia, na sala de torturas. Ele desencarna, em seu regaço.

Mais tarde, quando o Apóstolo dos Gentios rogou socorro a Jesus, pois sentia que a tarefa estava se tornando maior do que a pudessem suportar as suas forças, a doce voz do Mestre lhe diria: "...o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida." (5)

Paulo não poderia estar presente em todas as novas comunidades, mas poderia escrever. Para tanto, Estêvão ficaria agora mais junto dele, transmitindo os pensamentos de Jesus. Seria o intermediário entre o Cristo e o Apóstolo.

Seria ainda Estêvão que, ao lado de Jesus, e de Abigail (desencarnada pouco depois do irmão, acometida de febre) viria receber Paulo, liberto dos laços da carne, consumada a sua decapitação.

Estêvão abraça o antigo perseguidor, agora Servidor de Jesus, com efusão.

"E assim unidos, ditosos, os fiéis trabalhadores do Evangelho da redenção seguiram as pegadas do Cristo, em demanda às esferas da Verdade e da Luz..." (4)

Bibliografia:

01.MIRANDA, Hermínio C. O homem e a obra. In:___. As marcas do Cristo. Rio[de Janeiro]: FEB, 1979. v. 1, cap. 2.

02.PEREIRA, Yvonne A. Estêvão. In:___. Cânticos do coração. Rio de Janeiro: CELD, 1994. cap. 1.

3.XAVIER, Francisco Cândido. In:___. Paulo e Estevão. Pelo espírito Emmanuel. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2002. pt. 1, cap. 1 a 10.

04.______. Ao encontro do Mestre. Op. cit. pt. 2, cap. 10.

05.______. As epístolas. Op. cit. pt. 2, cap. 7.

FONTE: Nucleo Espirita Verbo de Luz
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Mirian





Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - agosto/2003

Ela crescera, tendo o espírito alimentado pelas profecias de Israel.

Desde a meninice, quando acompanhava a mãe à fonte, para apanhar o líquido precioso, ouvia os comentários. Entre as mulheres, sempre que se falava a respeito, perguntavam-se umas às outras, qual seria o momento e quem seria a felizarda, a mãe do aguardado Messias.

Nas noites povoadas de sonhos, era visitada por mensageiros que lhe falavam de quefazeres que ela guardava na intimidade d'alma.

Então, naquela madrugada, quase manhã do princípio da primavera, em Nazaré, uma voz a chamou: "Miriam". Seu nome egípcio-hebraico, significa "querida de Deus".

Ela despertou. "Que estranha claridade era aquela em seu quarto? Não provinha da porta. Não era o Sol, ainda envolto, àquela hora, no manto da noite quieta. De quem era aquela silhueta? Que homem era aquele que ousava adentrar seu quarto?"

"Sou Gabriel", identifica-se, "um dos mensageiros de Yaveh. Venho confirmar-te o que teu coração aguarda, de há muito. Teu seio abrigará a glória de Israel. Conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo e o seu reino não terá fim."

Maria escuta. As palavras lhe chegam, repassadas de ternura e pela sua mente, transitam os dizeres proféticos.

Sente-se tão pequena para tão grande mister. Ser a mãe do Senhor. Ela balbucia: "Eis aqui a escrava do Senhor. Cumpra-se em mim segundo a tua palavra."

O mensageiro se vai e ela aguarda. Lucas lhe registraria, anos mais tarde, o cântico de glória, denominado Magnificat:
A minha alma glorifica o Senhor!

E o meu espírito exulta[de alegria]

Em Deus, meu Salvador!

Porque, volvendo o olhar à baixeza da terra,

Para a minha baixeza e humildade atentou.

E eis, pois, que, desde agora, e por todos os tempos,

Todas as gerações me chamarão

Bem-aventurada!

Porque me fez grandes coisas o Poderoso

E santo é o seu nome!

E a sua misericórdia [se estende]

De geração em geração,

Sobre os que o temem.

Com seu braço valoroso

Destruiu os soberbos

No pensamento de seus corações.

Depôs dos tronos os poderosos

E elevou os humildes.

Encheu de bens os famintos

E despediu vazios os ricos.

Cumpriu a palavra que deu a Abraão,

Recordando-se da promessa

Da sua misericórdia!" (Lucas, I, 46 a 55)

Ela gerou um corpo para o ser mais perfeito que a Terra já recebeu. Seus seios se ofereceram úberes para alimentar-lHe os meses primeiros. Banhou-O, agasalhou-O, segurou-O fortemente contra o peito mais de uma vez. E mais de uma vez, deverá ter pensado:

"Filho meu, ouve meu coração batendo junto ao teu. Dia chegará em que não te poderei furtar à sanha dos homens. Por ora, amado meu, deixa-me guardar-te e proteger-te."

Ela lhe acompanhou o crescimento. Viu-O iniciar o seu período de aprendizado com o pai, que lhe ensinou os versículos iniciais da Torá, conforme as prescrições judaicas, embora guardasse a certeza de que o menino já sabia de tudo aquilo.

Na sinagoga, O viu destacar-se entre os outros meninos, e assombrar os Doutores. O seu Jesus, seu filho, seu Senhor. Angustiou-se mais de uma vez, enquanto O contemplava a dormir. Que seria feito Dele?

No célebre episódio em Jerusalém, seu coração se inquietara a cogitar se não seria aquele o momento do início das grandes dores.

A viuvez lhe chegou e ela viu o primogênito assumir os negócios da carpintaria. Suas mãos, considerava, tinham habilidade especial e a madeira se lhe submetia de uma forma toda particular.

Aquele era um filho diferente. Um olhar bastava para que se entendessem. Tão diferente dos demais, que não tinham para com ela a mesma ternura...

Chegou o dia em que Ele se foi e ela começou a ter Dele as notícias. A escolha dos primeiros discípulos, o batismo pelo primo João, no Jordão.

Mantinha contato constante, providenciando quem lhe fizesse chegar a túnica tecida no lar, sem nenhum costura, sempre alva. Em cada fio, um pouco do seu amor e da sua saudade.

Quando Ele a veio visitar e a acompanhou a Caná, às bodas da sua parenta, ela sabia que Ele a obedeceria, providenciando o líquido para que os convivas se pudessem deliciar, saindo da embriaguez em que haviam mergulhado.

Acompanhou-lHe a trajetória de glórias humanas, e as injustas alusões ao Seu messianato, aos Seus dizeres.

Em Nazaré, quando quase O mataram, tomou-se de temores. Contudo, ela sabia que Ele viera para atender os negócios do Pai. Por vezes, visitava a carpintaria, e parecia vê-lo, ainda uma vez, nos quadros da saudade.

Tanto quanto pôde, acompanhou o seu Jesus e recebeu-lhe o carinho. Ele era tão grande, e, entretanto, atendia-lhe o coração materno, os pedidos. Quantas vezes ela intercedera por um ou outro?

Quando os dias de sombra chegaram, Ela acompanhou, junto a outras mulheres, as trágicas horas. Ao ver o corpo chagado do filho, o sangue coagulado nas feridas abertas, a túnica tão alva, que ela tecera com tanto desvelo, toda manchada, sentiu as lágrimas inundarem-lhe os olhos.

Porém, era necessário ser forte. Seu filho lecionara as lições mais belas que jamais os ouvidos humanos haviam escutado. Ele cantara as belezas do Reino dos Céus, no alaúde do lago de Genesaré, e prometera as bem-aventuranças aos que abraçassem os inovadores ensinos.

Ao pé da cruz, junto ao Apóstolo João, ouviu a expressão do carinho filial se externar, outra vez: "Mulher, eis aí teu filho". E a confia ao jovem apóstolo.

Ela estaria presente, quando das Suas aparições, após a morte. Vê-lO-ia mais de uma vez. E compreenderia: aquele corpo era diferente. Não era o que fora gerado em seu ventre. Embora se deixasse tocar, para dar-se a conhecer, era de substância muito diversa aquele corpo. Ela o sabia.

Viu-O desaparecer perante os olhos assombrados dos quinhentos discípulos, na Galiléia, na Sua despedida.

E, amparada por João, seguiu a Éfeso, mais tarde. Ali, numa casinha de onde podia ouvir o mar, balbuciando cantigas, viveu o Amor que Ele ensinara. Tornou-se a mãe dos desvalidos e logo sua casa se enchia de estranhos viandantes, necessitados e enfermos que desejavam receber os cuidados de suas mãos e ouvir as delícias das recordações daquele que era o Caminho, a Verdade e a Vida.

Numa tarde serena, ela atendeu um homem. Serviu-lhe o alimento e seu coração extravasou saudade. Quanta a tinha do filho amado.

Então, o viajor se deu a conhecer:

"...minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos." 2

João, chamado às pressas, ainda lhe pôde assistir o derradeiro suspiro e o espírito liberto adentrou a Espiritualidade.

Ainda e sempre amorosa, seu primeiro pensamento foi visitar os cristãos que estavam em Roma, sofrendo o martírio e os foi animar a cantar, enquanto conduzidos ao suplício, na arena circense.

Mais tarde, notícias nos chegariam de que a suave mãe de Jesus, Maria, foi por Ele incumbida de assistir os foragidos da vida, os infelizes suicidas; detalhes do Hospital Maria de Nazaré nas zonas espirituais; do seu desvelo maternal para com tais criaturas.

Maria, espírito excelso, exemplo de mulher, esposa, mãe.

Bibliografia:

1.PEREIRA, Yvonne A. No hospital "Maria de Nazaré". In:___. Memórias de um suicida. 5. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1975. pt. I, cap. III.

2.XAVIER, Francisco Cândido. Maria. In:___. Boa nova. Pelo espírito Irmão X. 8. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1963. cap. 30.


FONTE: Núcleo Espírita Verbo de Luz
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Judas Iscariote



Na dobra dos séculos, ele continua sendo apontado como alguém que destoou no Colégio Apostólico, exemplo de mau amigo, traidor. Ainda na atualidade, o seu nome é dado aos que traem uma causa, aos que erguem a mão contra quem os brindou com amizade.

Dentre os doze apóstolos, parece ter sido o único que não era galileu. Filho de Simão, era da cidade de Cariote ou Kerioth, "cidade do extremo sul da tribo de Judá, a uma jornada além do Hebron." (3)

Em Cafarnaum, Judas, comumente denominado, Judas Iscariotes, o que equivale a dizer, Judas, de Kerioth, sua localidade de nascimento, se consagrava ao pequeno comércio, vendendo peixes e quinquilharias.

Entendia de contabilidade, e se transformou no tesoureiro do grupo. Era quem cuidava da bolsa das ofertas. Quem lhe analise a personalidade, o qualifica como culto, eloqüente e polido. Também alegre e um homem realizado.

Destacam-se nele, igualmente, qualidades como discrição e sensatez. Com certeza, um homem prático. Sua cabeça era de um comerciante. Seu negócio era adquirir, revender e contar os lucros.

"Imediatista, considerava as pessoas e ocorrências através da óptica distorcida da realidade, pelo valor relativo, amoedado, social, transitório, não real. (...)" (2)

Foi exatamente sob essa tônica, que ele expôs o Amigo Celeste. Judas tinha ambição, fascinação pelas riquezas, preocupações com a vida material. Não conseguiu apreender o sentido da missão do Grande Amigo.

Para ele, o carpinteiro de Nazaré era o Messias, aguardado há séculos por Israel, sofrida e à época, escrava da águia romana dominadora. O poder de Jesus, Seus discursos, Sua inteligência e Seus milagres o fascinavam.

No Evangelho de João (12:6), encontramos uma referência à sua desonestidade, referindo o evangelista que "tendo a bolsa, roubava o que se lançava nela."

Segundo as lições espirituais, Jesus o teria advertido, ao início do apostolado: "...Judas, a bolsa é pequenina; contudo, permita Deus que nunca sucumbas ao seu peso!" (6)

Sua é a voz primeira que sussurra acerca do desperdício, em casa de Simão, o ex-leproso, durante o banquete em que Maria, de Betânia, oferece ao Amor não amado, o caro perfume, ungindo-Lhe os cabelos. Servindo-se do momento para o ensino, Jesus recorda da pérola da amizade e da preciosidade da manifestação afetiva, alertando sobre a precariedade das coisas temporais.

Acompanhando o Rabi, dia após dia, registrando-Lhe a grandeza, alimenta o filho de Simão a idéia de que, dia chegará em que Ele assumirá o poder, liderando uma grande revolução, esmagando Roma. Não conseguira entender que a maior revolução que o doce Rabi propunha era contra o inimigo interior.

Após a triunfal entrada do Amigo em Jerusalém, Judas imaginou que melhor momento não haveria do que aquele para que Ele inaugurasse o Seu Reino.

No entanto, sequer sorrira Jesus, nem retribuíra com acenos ou um inflamado discurso à extraordinária recepção, que o povo lhe oferecia. Aquela maré humana entrou por um dos grandes portais da muralha do Templo e se derramou para o interior da extensa área do átrio dos gentios, ao átrio do povo e dos sacerdotes.

E quem ouvisse os brados de Hosana ao Filho de Davi! Hosana! acorria para ver quem seria a personagem que assim estaria sendo ovacionada. Quem seria alvo de tão deslumbrante manifestação?

Os fariseus ficaram indignados e mais recrudesceu o ódio contra o Galileu. Os sacerdotes devem ter tremido, temendo, mais que nunca, perder o cargo e seus privilégios. Decretava-se, ali, a urgência da sentença de morte do Filho de Nazaré.

Contudo, enquanto Judas aguarda que Ele tome uma atitude, o Mestre se retira da cidade, ao anoitecer e se dirige a Betânia, onde costumava passar a noite.

O discípulo se inquieta. Sob seu ponto de vista, Jesus não sabe aproveitar as oportunidades, nem se preocupa em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida.

Gozando da amizade de políticos influentes em Jerusalém, Judas decide propor um acordo para apressar o triunfo do Messias. Arquiteta entregá-lO aos homens do poder temporal, "em troca de sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente justas, com o fim de organizar a vitória cristã no seio de seu povo.

Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos." (7)

Quando a alvorada se fez, o discípulo imprevidente se dirigiu ao Sinédrio. Aguardou horas, mas muitas promessas lhe foram feitas. Guardou as 30 moedas, nem mesmo sabia porquê. Afinal, logo mais, ele teria as rédeas do movimento renovador. Era uma quantia pequena para o que idealizava. Nada além do preço de um escravo: trinta moedas de prata.

Com um beijo entrega o Amigo a quem amava, sem O compreender. Aterrorizado, viu seu Mestre ser conduzido à cruz, sem nenhum lamento, sem nenhuma queixa.

Dando-se conta do equívoco, busca Caifás, reclamando o cumprimento do acordo. Somente recebe dele e dos demais membros do Sinédrio sorrisos de sarcasmo. Recorre às suas relações de amizade e teve que reconhecer a fragilidade das promessas humanas.

De longe, Judas contemplou as cenas humilhantes e angustiosas do drama do Gólgota. O remorso o abraça, dilacerando-lhe a consciência.

Um pensamento o toma. Sem amigos, traidor vil que entrega o Amigo querido, da forma mais ignominiosa, ele somente pensa em desertar da vida. Naquele momento, não se recordou das exortações acerca da prece, da comunhão com o Pai, do perdão lecionado tantas vezes pelo Nazareno.

Ele somente escuta a voz tenebrosa de seu tremendo remorso e, dirigindo-se à rampa do vale de Hinom, compõe o laço em torno do pescoço e se deixa pender, vencido pela dor, ingressando no mundo espiritual, atormentado e sofredor.

Conta-se que, tendo devolvido aos sacerdotes o dinheiro vil, entenderam eles que aquele era "preço de sangue" e não seria lícito retorná-lo aos cofres do Templo. Assim, adquiriram um campo para servir de cemitério a estrangeiros e peregrinos que morressem em Jerusalém. O local ficou conhecido como "campo de sangue" e, segundo alguns, Judas teria sido o primeiro a ser ali sepultado.

Na seqüência dos anos, ele expiaria sua tenebrosa falta. Em entrevista que concede ao espírito Irmão X, assim narra a sua trajetória de redenção: "Depois de minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV.

Desde esse dia em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo do perdão da minha própria consciência..." (8)



Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - abril/2004



Bibliografia:

01.FRANCO, Divaldo Pereira. Isto é lá contigo. In:___. Há flores no caminho. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1982. cap. 23.

02.______. Arrependimento tardio. In:___. Trigo de Deus. Pelo espíritoAmélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1993. cap. 12.

03.RENAN, Ernest. Os discípulos de Jesus. In:___. Vida de Jesus. 13. ed. São Paulo: Martin Claret, 1995. cap. 9.

04.TEIXEIRA, J. Raul. Jesus e a traição. In:___. Vida e mensagem. Pelo espírito Francisco de Paula Vitor. Niterói: FRÁTER, 1993. cap. 15.

05.VINICIUS. Reabilitação de um culpado. In:___. Na escola do mestre. 4. ed. São Paulo: FEESP, 1981. cap. 4.

06.XAVIER, Francisco Cândido. Os discípulos. In:___. Boa nova. Pelo espírito Irmão X. 8. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1963. cap. 5.

07.______. A ilusão do discípulo. Op. cit. cap. 24.

08.______. Judas Iscariotes. In:___. Crônicas de além-túmulo. Pelo espírito Humberto de Campos. 8. ed. Rio[de Janeiro]: FEB, 1975. cap. 
5.



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