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25 de abr de 2013

Dialogo com as Sombras 2ª PARTE - (21) MAGOS E FEITICEIROS



21 - MAGOS E FEITICEIROS

Os trabalhadores da desobsessão não devem ignorar a reali­dade da magia negra, a fim de não serem tomados de surpresa nas suas tarefas redentoras. Com freqüência, terão oportunidade de observar tentativas de envolvimento do grupo e de seus com­ponentes, ou de pessoas que dele se socorrem, promovidas por antigos magos e feiticeiros que, no mundo espiritual, persistem nas suas práticas e rituais.
Extremamente complexo e delicado, especialmente porque éescassa, nesse particular, a literatura doutrinária de confiança exis­tente, o assunto precisa ser abordado com muita prudência e lucidez.
O tema não ficou indiferente a Kardec, como podemos veri­ficar do exame das questões números 551 a 557, de “O Livro dos Espíritos”, sob o título “Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros”. Os Instrutores do eminente Codificador colocaram a questão naquele clima de prudência e lucidez de que há pouco falávamos. Obvia­mente, a época não estava madura para o aprofundamento do pro­blema, nem seria isto apropriado no livro básico da Doutrina Es­pírita, cujo escopo era o de entregar aos homens uma síntese didática acerca do Espírito e suas manifestações, do seu relacionamento com Deus e com o Universo. Disseram, porém, o sufi­ciente para formular-se um juízo sobre a matéria, levando em conta as superstições que prevaleciam àquele tempo.
Foram muito sóbrios os Espíritos, limitando-se a respostas sumárias que, não obstante, deixaram aberturas para futuros des­dobramentos. Ensinaram, por exemplo, que um “homem mau” não poderia, “com o auxílio de um mau Espírito que lhe seja de­dicado, fazer mal ao seu próximo”, porque “Deus não o permitiria”.
A despeito da notável economia de palavras, o pensamento contido nesse período é, ao mesmo tempo, amplo e exato. Naquilo que Deus não o permite, realmente, nada podem fazer os Espí­ritos ainda voltados para o mal — e essa é a nossa proteção, pois o que seria de nós se tudo lhes fosse permitido? Quando, porém, nos credenciamos a esse amparo? Talvez seja melhor reformular a questão: Quando nos tornamos vulneráveis e, portanto, expostos àcobrança? A partir do momento em que nos atritamos com as leis divinas, colocando-nos, portanto, não fora de sua proteção, não abandonados por Deus, mas submetidos às conseqüências de nossas próprias ações. É assim que um Espírito faltoso coloca-se, por exemplo, ao alcance de dores inomináveis, como a da obsessão. Realmente, seria desastroso que qualquer Espírito desajustado pu­desse fazer conosco o que bem entendesse, mas estejamos certos de que, ao cometer nossos desatinos, abrimos a eles as portas da nossa intimidade. O próprio Cristo advertiu-nos de que, se não nos reconciliássemos com os nossos adversários, eles nos levariam ao juiz, e o juiz nos mandaria à prisão, donde somente seríamos libe­rados depois de cumprida toda a pena, até o último centavo.
Quanto à crença no poder de enfeitiçar, os Espíritos foram cau­telosos, declarando que tais fatos são naturais, mal observados e, sobretudo, mal compreendidos, mas que “algumas pessoas dispõem de grande força magnética, de que podem fazer mau uso, se maus forem seus próprios Espíritos, caso em que possível se torna serem secundados por outros Espíritos maus”.
Sobre as fórmulas, esclarecem que todas são mera charlata­naria, e prosseguem:
“Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal caba­lístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porqüanto estes só são atraidos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.”
Kardec, no entanto, insistiu, com a pergunta 554, assim for­mulada:
“Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa confiança, visto que, então, o que atua é o pensa­mento, não passando o talismã de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?”
“É verdade — respondem os Espíritos —; mas, da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do Es­pírito que é atraído.” (Destaques meus.)
Do que se depreende que o talismã, em si, nada vale, mas fun­ciona como uma espécie de condensador de energias psíquicas emanadas do operador que, pelo pensamento, atrai os seres desen­carnados que lhe são afins.
Realmente, como muito bem observa Kardec, em nota de sua autoria, em seguida à Questão número 555, “O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela imaginação.”
Lamentavelmente não temos ainda um estudo aprofundado dessa curiosa temática, mas é certo que o Espiritismo tem condições para desmistificar muito da complicada e, às vezes, ingênua ritualística da magia, retirando-lhe a aura de mistério e ocultismo, para expli­cá-la em termos de conhecimento científico, aberto, racional, dentro do contexto das leis naturais. O Espiritismo não ignora o fenômeno, nem o nega, como vimos. A Doutrina empenha-se em negar é o caráter sobrenatural que alguns procuram atribuir aos fenômenos, bem como as inúteis complicações dos ritos, fórmulas, invoca­ções, posturas, símbolos, apetrechos e instrumentos de que se valem os operadores, que não passam de médiuns agindo em consonância com seus companheiros desencarnados.
Sobre a influência dos astros, por exemplo, ensina Emma­nuel (1) que:
— “As antigas assertivas astrológicas têm a sua razão de ser. O campo magnético e as conjunções dos planetas influenciam no complexo celular do homem físico, em sua formação orgânica e em seu nascimento na Terra; porém, a existência planetária é sinô­nimo de luta. Se as influências astrais não favorecem a determi­nadas criaturas, urge que estas lutem contra os elementos per­turbadores, porque, acima de todas as verdades astrológicas, temos o Evangelho, e o Evangelho nos ensina que cada qual receberá por suas obras, achando-se cada homem sob as influências que merece.” (Destaques meus.)
Dentro dessa mesma linha de pensamento, reconhece, o escla­recido mentor, as influências que podem exercer, sobre Espíritos encarnados ou desencarnados, os nomes que recebem, por causa da “simbologia sagrada das palavras”. Também os números “possuem a sua mística natural”, segundo suas vibrações. Os próprios objetos armazenam energias que ainda não estão bem definidas para nós.
— “Os objetos — responde Emmanuel à questão número 143 —,       mormente os de uso pessoal, têm a sua história viva e, por vezes, podem constituir o ponto de atenção das entidades pertur­badas, de seus antigos possuidores no mundo; razão por que pa­recem tocados, por vezes, de singulares influências ocultas, porém, nosso esforço deve ser o da libertação espiritual, sendo indispen­sável lutarmos contra os fetiches, para considerar tão-somente os valores morais do homem na sua jornada para o Perfeito.” (Destaques meus.)
O assunto mereceu também observações, ainda que sumãrias, de André Luiz, em “Evolução em dois Mundos” — livro que talvez ainda levemos meio século para desdobrar em todas as suas impli­cações. Diz o autor espiritual que, a certo ponto da história evolutiva...

(1)      “O Consolador”, questão numero 140.

     - ... “Iniciou-se o correio entre o plano físico e o plano ex­trafísico, mas, porque a ignorância embotasse ainda a mente hu­mana, os médiuns primitivos nada mais puderam realizar que a fascinação recíproca, ou magia elementar, em que os desencarna­dos, igualmente inferiores, eram aproveitados, por via magnética, na execução de atividades materialonas, sem qualquer alicerce na sublimação pessoal.”
E prossegue:
— “Apareceu então a goecia ou magia negra, à qual as inte­ligências superiores opuseram a religião por magia divina, acen­tuando-se a formação da mitologia em todos os setores da vida tribal.”
“A luta entre os Espíritos retardados na sombra e os aspi­rantes da luz encontrou seguro apoio nas almas encarnadas que lhes eram irmãs. Desde essas eras recuadas, empenham-se o bem e o mal em tremendo conflito que ainda está muito longe de ter­minar, com base na mediunidade consciente ou inconsciente, téc­nica ou empírica.”
Essa digressão introdutória tornou-se indispensável para que a nossa penetração no lusco-fusco da magia conte com um suporte de bom senso e racionalismo, a funcionar como fio de Ariadne, que nos permita transitar pelos seus meandros, sem o menor temor de perder o caminho de volta.
Não resta dúvida de que os fenômenos elementares de magia reportam-se às eras primitivas, como nos assegura André Luiz. Embora os autores especializados procurem distinguir magia de feitiçaria — e ainda veremos isto um pouco adiante — a Enci­clopédia Britânica lembra que o termo inglês para esta última — “witchcraft” — quer dizer a arte ou ofício do sábio, de vez que a raiz semântica da primeira seção da palavra — “witch” — está associada com a palavra “wit”, saber.
Realmente, os magos, originários, segundo Lewis Spence (1), da antiga Pérsia, eram cultores da sabedoria de Zoroastro. Possi­velmente da raça média, adquiriram enorme prestígio, especialmente,

(1) “An Encyclopaedia of Occultism”, University Books, New York, 1960.

ao que parece, depois que Ciro os institucionalizou, ao fundar o império persa, sobre o qual exerceram considerável in­fluência político-religiosa. É evidente que esse prestígio tinha que ser alicerçado em rico acervo de conhecimentos, pois o homem sempre respeita e, às vezes, teme aquele que sabe.
“Religião, filosofia e ciência — escreve Spence — estavam todas em suas mãos. Eram médicos universais que curavam os doentes do corpo e do espírito e em estrita consistência com essas características, socorriam as mazelas do Estado que é apenas o homem em sentido mais amplo.”
Distribuíram-se em três graus: os discípulos, os professores e os mestres, o que vale dizer que o conhecimento de que dispu­nham os grandes mestres era ministrado por processos iniciáticos, à medida que o discípulo revelava condições de absorvê-lo e apli­cá-lo rigorosamente, segundo os métodos e interesses da Ordem.
A organização correspondeu generosamente ao apoio que re­cebeu de Círo, muito contribuindo, com seus recursos, para conso­lidação das conquistas do rei persa, mas, por volta do ano 500 antes do Cristo, entrou em desagregação, especialmente por causa da tenaz perseguição de Dario Histaspes. Emigrações em massa es­palharam-nos pela Capadócia e pela Índia, mas ainda eram uma força respeitável ao tempo de Alexandre, o Grande (356-323 a. C.) que, segundo Spence, sentiu-se enciumado de seus poderes.
São profundas as implicações da magia em alguns cultos reli­giosos, mais intensamente, é claro, nos primitivos, tanto quanto na medicina, na astrologia, no magnetismo, na alquimia e em certas correntes místicas que prevalecem até hoje.
Lewis Spence declara, no seu erudito verbete, que, a seu ver, misticismo e magnetismo são idênticos para alguns ocultistas, entre os quais cita, em tempos recentes, Auguste Comte, o Barão du Potet e o Barão de Guldenstubbé, este último autor do livro “La Realité des Esprits”, publicado em 1857. (1)
Sir James Frazer (2) considera magia e religião uma só coisa, tão identificadas se acham entre si. Isto é provavelmente verda­deiro

(1) Ver o artigo “O Tempo, o preconceito e a humildade”, em “Re­formador”, agosto/1975.
(2) “The Golden Bough”, MacMilian, New York, 1951, eruditíssimo tra­tado sobre magia e religião que, mesmo em forma condensada, apresenta-Se com 827 páginas de texto. A obra completa consta de 12 volumes.

para as primitivas crenças, mas não para as religiões mais recentes, que embora conservem sinais exteriores dos antigos cultos — simbolos, ritos, fórmulas, encantações —, perderam contacto com os seus aspectos esotéricos.
Um conceito reproduzido por Spence informa-nos que o apelo aos deuses constitui prática religiosa, enquanto a prática da magia tenta forçá-los à complacência. A religião é freqüentemente oficial e quase sempre organizada, enquanto a magia é, usualmente, proi­bida e secreta.
Embora Spence nos fale da magia na Pérsia, sabemos que ela floresceu amplamente no Egito, muito antes da época citada na sua obra. Os livros mediúnicos de Rochester, vários deles publicados pela FEB, narram, com minúcias de extremo realismo, pro­cessos terríveis de magia e ocultismo, como em “O Chanceler de Ferro” e “Romance de uma Rainha”.
O segundo livro do Antigo Testamento — o Êxodo — espe­cialmente nos capítulos de números 5 a 13, narra o duelo entre os magos egípcios e hebreus, ante a aturdida expectativa de todo o país.
Já antes disso, no capítulo 4, os guias espirituais de Moisés conferem-lhe poderes ostensivos, pois certamente ele deveria co­nhecer bastante acerca dos rituais e da teoria que os sustentava.
O Espírito que se apresenta como Jeová ordena que conduza o povo hebreu para fora do Egito, mas Moisés revela sua impo­tência em convencer sua gente a segui-lo.
—  Não acreditarão em mim — diz ele — nem ouvirão a minha voz, pois dirão: Jeová não te apareceu coisa alguma.
—  Que tens tu na mão? — pergunta-lhe Jeová.
—  Um cajado.
—  Atira-o ao chão.
Mal atirado ao solo, o cajado transformou-se numa serpente. Ante o temor de Moisés, o Espírito disse-lhe que a agarrasse pelo pescoço, o que ele fez, voltando a serpente a ser um mero cajado.
Essa mesma “mágica”, no melhor sentido da palavra, Moisés faria diante do Faraó e sua corte.
Segundo Will Durant (1), a crença na feitiçaria, na Idade Média, era praticamente universal. “O Livro da Penitência”, do Bispo de

(1)      “The Age of Falth”, Simon and Schuster, New York, 1950.

Exeter, condena as mulheres “que professam a faculdade de mo­dificar a mente dos homens pela feitiçaria, ou encantamento, como do ódio para o amor ou do amor para o ódio, bem como enfeitiçar ou roubar os bens dos homens”, ou ainda as que declaram “cavalgar durante certas noites certos animais, com um bando de demônios em formas femininas, ou estarem em companhia de tais”.
Quando a Igreja resolveu entrar em cena para coibir a prá­tica, criou-se um clima de terror que, ao mesmo tempo em que combatia as crendices, parecia atribuir-lhes certa substância, que mais as autenticavam na imaginação do povo inculto, porque ninguém combate aquilo que não teme. As conseqüências dessas impiedosas perseguições foram danosas e lamentáveis para o entendimento do fenômeno mediúnico, e é bem provável que a notícia que os Espí­ritos superiores vieram trazer a Kardec, no século 19 pudesse ter sido antecipada de um século ou mais, se em vez de queimar os médiuns medievais, sob a acusação de que mantinham pactos com o demônio, procurassem estudá-los com respeito e interesse. A despeito disso, não foram poucos os prelados católicos que, durante toda a existência, mantiveram cultos paralelos de magia negra, com os seus estranhos rituais.
Ao escrevermos este livro, o mundo moderno assiste, algo per­plexo, a um fantástico ressurgimento da magia negra e da feiti­çaria, por toda parte e, desta vez, não nos países menos desen­volvidos, ou primitivos, e sim nos de mais avançada tecnologia e mais sofisticada cultura, como a Inglaterra, os Estados Unidos, a França, a Itália.
A Britânica, tanto quanto Sir James Frazer, atribui à magia origens nitidamente religiosas, sob a forma de cultos à base de animais sacrificados. Oferendas de sangue e de estranhas substân­cias eram feitas para propiciar os deuses em troca de favores, fosse em benefício de alguém ou com a intenção de destruí-lo.
Entre os ritos destinados a destruir um inimigo, por exemplo, o mais antigo, dramático e conhecido, consiste em modelar uma pequena estátua representativa da vítima, geralmente em cera, e, com os métodos apropriados, espetá-lo com agulhas e punhais.
Seria impraticável, num resumo como este, repassar todo o campo da magia e empreender sua avaliação em termos de Dou­trina Espírita; poderemos, não obstante, tentar oferecer algumas noções colhidas em alentados livros, facilmente encontráveis no mercado, praticamente em todas as línguas vivas.
Um desses autores é o médico francês, Dr. Gérard Encausse, contemporâneo de Allan Kardec, que, sob o pseudônimo de Papus, escreveu abundantemente sobre o assunto. Seu filho, o Dr. Phi­lippe Encausse, também médico, revelou igual interesse pela ma­téria, produzindo algumas obras sobre o assunto, como “Sciences Occultes et Déséquilibre Mental”.
Colheremos algumas informações na obra de Papus intitulada “Tratado Elementar de Magia Prática”. (1)
Antes de mergulharmos no seu livro, creio útil transmitir ao leitor espírita uma idéia da posição de Papus em relação ao
Espiritismo:
“Existe, não obstante — escreve ele, à página 11 de seu livro —, uma forma de experiências mágicas próprias para as pessoas pusilânimes, e que aconselharemos a quantas desejarem di­vertir-se, dedicando, à sobremesa, alguns momentos aos fenômenos de espiritismo. Nada têm de difíceis e sim muito consoladores, e, afinal de contas, situam-se a tal distância da verdadeira magia, que não há a temer nenhum acidente sério, desde que não se esqueça da precaução de deixar as coisas no momento oportuno.”
Ao apreciar alguns aspectos da magia, da qual o Dr. Encausse é admirador ardoroso, tentemos não ser tão radicais e superficiais como ele, em relação ao Espiritismo.
Papus acata o princípio, também lembrado por Sir James Frazer, acima citado, segundo o qual o mecanismo da magia pre­cisa de um veículo entre a vontade humana e as coisas inani­madas. Na opinião de Sir James Frazer, toda a magia baseia-se na lei da simpatia, ou seja, “as coisas atuam umas sobre as outras, a distância, por estarem secretamente ligadas entre si por laços invisíveis
“Para isso — escreve Papus — o operador deverá aplicar sua vontade, não sobre a matéria, mas sobre aquilo que incessan­temente a modifica, o que a Ciência Oculta denomina o plano de formação do mundo material, ou seja, o plano astral.” (O primeiro destaque é meu; o segundo, do original.)
Esse plano, os magos concebem como sendo as forças da na­tureza, das quais, por certo, tanto se utilizam os trabalhadores do bem, como os outros.

(1) Tradução de medial Shaiah, 1974, 5ª edição da Editorial Kier, Buenos Aires, do original francês “Traité Elementaire de Magia Pratique”.

“Não cabe dúvida — prossegue Papus — que são as forças da natureza que o mágico deverá pôr em ação, sob o influxo da sua vontade; mas que classe de forças são essas?”
Diz ele que são as forças hiperfísicas, assim entendidas as que apenas diferem das energias meramente físicas nas suas origens, pois emanam de seres vivos e não de mecanismos inanimados.
No fenômeno da pronta germinação, crescimento da planta e produção de frutos, que alguns faquires teriam realizado, segundo testemunhos nos quais Papus acredita, aconteceria apenas uma abun­dante doação, à semente, e depois à planta e ao fruto, das ener­gias orgânicas do faquir, que se poriam em consonância com as energias armazenadas na semente.
“A vontade do faquir — diz Papus — põe em ação uma força capaz de desenvolver, em algumas horas, a planta, que, em condições normais, levaria um ano para atingir aquele ponto de crescimento. A dita força não tem muitos e diversos nomes de bom sentido; pura e simplesmente, chama-se vida.”
A magia seria, portanto, uma ação consciente da vontade sobre a vida. A definição completa proposta por Papus é a seguinte:
“É a aplicação da vontade humana dinamizada à evolução rápida das forças vivas da natureza.”
À página 91, resume ele a sua teorização, ao dizer que são três as maneiras de agir sobre a natureza:
1ª — Físicamente, modificando a estrutura do ser ou de um ponto qualquer na natureza, pela aplicação exterior de forças físicas, que utiliza o trabalho do homem. A agricultura, em todas as categorias, a indústria, com todas as suas transformações, entram neste quadro.
2ª — Fisiológica ou astralmente, modificando a estrutura de um ser, por meio da aplicação de certos princípios e de certas forças, não à forma exterior, mas aos fluídos que circulam dentro do aludido ser. A Medicina, em todos os seus ramos, é um exem­plo desse caso, e haveremos de declarar que a Magia (ele a escreve com letra maiúscula, embora escreva Espiritismo com letra minús­cula) admite a possibilidade de influir sobre os fluídos astrais que atuam na natureza e sobre os que atuam nos homens.
3ª — Psiquicamente, atuando diretamente, não sobre os fluídos, mas sobre os princípios que os põem em movimento.”
Vamos conferir:
“Colaboradores desencarnados — escreve André Luiz (1) —extraiam forças de pessoas e coisas da sala, inclusive da Natureza em derredor, que casadas aos elementos de nossa esfera faziam da câmara mediúnica precioso e complicado laboratório.” (Destaques meus.)
O resto é aplicação prática desses princípios: se os orienta­mos para o bem, obteremos resultados positivos; se os dirigirmos para o mal, arcaremos com a responsabilidade correspondente. E é precisamente na aplicação que mais veementes restrições o Espi­ritismo teria a fazer à magia, ainda que sem tocar os tenebrosos domínios da magia negra.
Ao cuidarem dos problemas da obsessão, por exemplo, mesmo os adeptos mais bem informados da magia, revelam um despreparo comovedor, atribuindo a base do fenômeno à formação das chama­das larvas, que se alimentariam da “substância astral” emanada do “imprudente que lhes deu vida”. Para a criação dessas larvas, basta que se tenha medo dos ataques de ódio de outra pessoa, e segundo Papus, a prática mediúnica espírita seria uma dessas causas.
Papus oferece dois métodos diferentes para tratamento dessas “obsessões”: um de ação indireta, outro de ação direta.
Exemplifica ambos. Num deles, em Londres, optou pelo mé­todo indireto, magnetizando uma senhora na presença do obsidiado.
A mulher, em transe, via uma faixa fluídica pairando em certo recanto da residência da vítima. Orientado pela descrição da mulher, Papus desenhou a faixa num pedaço de papel branco, “consagrado e perfumado”, e prosseguiu:
“Terminado que foi o desenho, uma fórmula e uma prece puseram em comunicação a imagem física com a forma astral e então cortamos o desenho em vários pedaços, com a ajuda de uma grande e afiada lâmina de aço. A mulher adormecida declarou que os cortes influiram, incontinenti, na forma astral, que, igualmente, se desfez em pedaços.”
E, com isto, estaria curada a “obsessão”...
O segundo método (direto) seria recomendável para “os casos em que a obsessão toma um caráter especialmente grave”.

(1) “Nos Domínios da Mediunidade”, capitulo 28 — “Efeitos Físicos”, edição FEB.

Baseia-se no princípio de que as larvas e os elementais — seres algo animalizados que servem aos magos — alimentam-se da subs­tância astral de que é muito rico o sangue. O método consiste, pois, no seguinte: toma-se uma mecha de cabelos do obsidiado, que deverão ser incensados, consagrando-os segundo o procedimento habitual. Em seguida, o paciente deverá aproximar-se e diante dele se molhará um punhado de seus cabelos no sangue de uma pomba ou de uma cobaia, também consagrados sob a influência de Júpiter ou de Apolo, pronunciando-se o Grande Conjuro de Sa­lomão. Para isto, o oficiante deverá vestir-se de roupas brancas.
Em seguida, colocar o cabelo, molhado em sangue, sobre uma pequena prancha, traçar à sua volta um círculo, desenhando-o com uma mistura de carvão e ímã pulverizado. Escrever no interior do círculo, nos quatro pontos cardeais, as quatro letras do tetragrama sagrado. A seguir, com a espada mágica (ou, na sua falta, com uma ponta de aço comum, com cabo de madeira envernizada) investir energicamente contra os cabelos, ordenando à larva que se dissolva.
Segundo o autor, o processo raramente falha, pelo menos depois de repetido três vezes, de sete em sete dias.
A reprodução destes métodos não tem por objeto aqui ridicula­rizar o procedimento daqueles que os praticam, pois como seres humanos, e irmãos nossos, merecem respeito e consideração; limi­tamo-nos a expô-los. Aqueles que lidam com graves problemas obsessivos, sabem muito bem que pouca diferença existe entre esse procedimento e o recurso igualmente inócuo do exorcismo eclesiástico. Num ou noutro caso, podem, no entanto, produzir resultados positivos, inteiramente aleatórios, seja porque o Espírito obsessor ficou algo impressionado com as complexidades do ritual, ou porque resolveu, “sponte sua”, abandonar sua vítima; mas é raro que um obsessor ferrenho e tenaz desista definitivamente da luta, apenas porque alguém o ameaçou com uma espada.
Por exemplos como estes, podemos admitir que os verdadeiros segredos da magia perderam-se há muito. Restaram apenas frag­mentos de uma técnica que, em tempos idos, foi manipulada com habilidade e competência. Os magos caldeus, persas e egípcios não ignoravam fenômenos elementares como os da obsessão, a ponto de tentarem curá-la com práticas tão ingênuas. Seus recursos e co­nhecimentos eram muito mais amplos e profundos. Mas, se essa técnica perdeu-se para os encarnados — pelo menos para os que têm escrito os tratados mais conhecidos de magia —, ela se pre­servou para os Espíritos desencarnados, antigos magos que levaram para a vida póstuma os conhecimentos especializados.
A propósito, parece ainda oportuno reproduzir uma das normas coligidas por Papus:
“Tratai de não vos servir jamais desta arte contra vosso pró­ximo, a não ser para uma vingança justa. Mesmo assim, porém, aconselho-vos que é melhor imitar a Deus, que perdoa, e que vos tem perdoado a vós mesmos. E não há ocasião mais meritória do que a de perdoar.”
A despeito do apelo ao perdão, quem achará que sua vingança é injusta? Buscando novamente André Luiz, encontramos em “Nos Domínios da Mediunidade” esta observação preciosa de Aulus:
— “Abstenhamo-nos de julgar. Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal, significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte?”
Outro autor bastante conceituado entre os entendidos é Eliphas Levi. O Dr. Gérard Encausse tem-no em elevada conta e, por vá­rias vezes, em suas obras, refere-se a ele com respeito e admi­ração. Eliphas Levi também viveu no século 19 e sua obra “Dogma e Ritual da Alta Magia” (1), por exemplo, foi escrita em 1855, quando o Espiritismo estava ainda na fase preliminar das mesas girantes. Embora sem declarar-se católico, Levi acata os principais dogmas ortodoxos: a divindade de Jesus, a Trindade, a existência do céu e do inferno. A despeito disso, não se furta a algumas criticas veementes, como esta, por exemplo:
“A Igreja ignora a magia, porque deve ignorá-la ou perecer, como nós o provaremos mais tarde; ela nem ao menos reconhece que seu misterioso fundador foi saudado no seu berço por três magos, isto é, pelos embaixadores hieráticos das três partes do mundo conhecido, e dos três mundos analógicos da filosofia oculta.”
A obra de Papus é bem mais didática e ordenada do que a de Levi, mas os princípios fundamentais identificam-se em vários

(1)      Editora Pensamento, São Paulo.

pontos importantes e ambos consideram o mago como o verdadeiro conhecedor e o feiticeiro como simples imitador. Papus usa uma imagem, dizendo que o mago é o engenheiro da magia, enquanto o feiticeiro é simples obreiro.
“Há uma verdadeira e uma falsa ciência — escreve Levi —; uma magia divina e uma magia infernal, isto é, mentirosa e tene­brosa; temos de revelar uma e desvendar outra; temos de distin­guir o mago, do feiticeiro; e o adepto, do charlatão.”
O estilo de Levi, como, aliás, o de Papus, também, é algo pomposo, às vezes obscuro e nem sempre muito coerente. Ambos concordam, porém, em que o conceito fundamental da magia está na movimentação, em proveito próprio, dos segredos e forças da natureza.
Levi defende a tese de que a resistência, num sentido, é indis­pensável para que a força aplicada, em sentido contrário, se robus­teça e a vença. Seus dogmas não são menos surpreendentes, como este, por exemplo:
“Assim, para o sábio, imaginar é ver; como, para o mago, falar é criar. Aquele que deseja possuir, não deve dar-se. Só pode dispor do amor dos outros aquele que é dono do seu, ou seja, não o entrega a ninguém.”
Quanto ao fenômeno das mesas girantes, diz ele, “outra coisa não são senão correntes magnéticas que começam a formar-se, e solicitações da natureza que nos convida, para a salvação da hu­manidade, a reconstituir as grandes cadeias simpáticas e religiosas”. Por isso, atribui “todos os fatos estranhos do movimento das mesas ao agente magnético universal, que procura uma cadeia de entu­siasmo para formar novas correntes”. Os golpes, “raps” e os ins­trumentos que tocam, aparentemente sozinhos, “são ilusões produ­zidas pelas mesmas causas”.
Sua descrição da evocação do Espírito de Apolônio de Tiana, em Londres, é de uma riqueza impressionante de minúcias e começa com um sabor de romance de capa e espada, quando ele recebe, dentro de um envelope, no hotel, um cartão cortado transversal­mente, com este recado:
“Amanhã, às três horas, diante da abadia de Westminster, vos será apresentada a outra metade deste cartão.”
Era uma senhora, e colocou à disposição dele, após os jura­mentos devidos, arsenal completo, com toda a instrumentação necessária a uma evocação. Ao cabo de complicadíssimo ritual, um Espírito manifestou-se, realmente:
— “Chamei três vezes Apolônio, fechando os olhos; e, quando os abri, um homem estava diante de mim, envolto inteiramente por uma espécie de lençol, que me pareceu ser mais cinzento do que branco; a sua forma era magra, triste e sem barba, o que não combinava exatamente com a idéia que primeiro tinha de Apo­lônio. Experimentei uma sensação extraordinária de frio, e quando abri a boca para interrogar o fantasma, me foi impossível arti­cular um som. Pus, então, a mão sobre o signo do pentagrama, e dirigi para ele a ponta da espada, ordenando-lhe mentalmente, por este signo, a não me amedrontar e a obedecer-me. Então, a forma ficou mais confusa e ele desapareceu imediatamente. Orde­nei-lhe que voltasse: então senti passar, junto a mim, como que um sopro, e, alguma coisa tendo-me tocado na mão que segurava a espada, tive imediatamente o braço adormecido até os ombros. Julguei entender que esta espada ofendia o Espírito, e a plantei, pela ponta, no circulo junto a mim. A figura humana reapareceu logo; mas senti tão grande fraqueza nos meus ombros e um repen­tino desfalecimento apoderar-se de mim, que dei dois passos para me assentar. Desde que fiquei assentado, caí num adormecimento profundo e acompanhado de sonhos, de que me restou, quando voltei a mim, somente uma lembrança confusa e vaga.” (Destaques meus.)
Assim foi realizada a evocação que, sem nenhum ritual com­plicado, sem substâncias, círculos, espadas e vestimentas especiais, e sem evocação, realiza-se, a cada instante, em incontáveis sessões mediúnicas.
Quanto à magia negra, apresenta o autor o que chama de revelação nova e que consiste no seguinte:
“O diabo, em magia negra, é o grande agente mágico em­pregado para o mal por uma vontade perversa.”
Também o enfeitiçamento está dentro dessa linha de raciocínios.
“O instrumento do enfeitiçamento não é outro senão o próprio grande agente, que, sob a influência de uma vontade má, se torna, então, real e positivamente o demônio.”
Às vezes, no entanto, deixa entrever que o domínio que muitos buscam exercer sobre o semelhante não está tanto nos ritos e nas práticas, mas na própria psicologia humana:

“Acariciar as fraquezas de uma individualidade é apoderar-se dela e fazer dela um instrumento, na ordem dos mesmos erros e das mesmas depravações.”
Ou então:
“Todos nós temos um defeito dominante, que é, para nossa alma, como que o umbigo do seu nascimento pecador, e é por ele que o inimigo sempre nos pode pegar; a vaidade, para uns, e preguiça para outros, o egoísmo para o maior número. Que um espí­rito hábil e mau se apodere desta mola, e estais perdidos.”
De outras vezes, percebemos, de relance, por que tanto se em­penham em conquistar a insensibilidade os Espíritos encarnados e desencarnados que fazem do domínio sobre o semelhante a meta de suas vidas:
“Só o adepto de coração sem paixão — escreve Levi — disporá do amor ou ódio daqueles que quiser fazer de instrumento da sua ciência.”
“O magista — prossegue adiante — deve, pois, ser impas­sível, sóbrio e casto, desinteressado, impenetrável e inacessível a toda espécie de preconceitos ou terror. Deve ser sem defeitos corporais e estar à prova de todas as contradições e de todos os sofrimentos. A primeira e mais importante das obras mágicas échegar a esta rara superioridade.”
Em suma, ele tem que aprender a querer, para poder impor a sua vontade. A instrumentação é secundária, quando uma von­tade firme e dinâmica sustenta os seus interesses. É preciso crer que se pode, e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos.
Vejam este outro conselho:
“Ter o maior respeito por si mesmo e considerar-se como um soberano desconhecido, que assim faz para reconquistar a sua coroa.”
Por causa desse e de outros princípios e noções, não é fácil lidar com os magos desencarnados. Não exatamente por causa dos danos que possam causar-nos. Se estamos num grupo mediúnico bem constituído e harmonizado, nada conseguirão contra nós. Nada sofreremos em razão do próprio trabalho de desobsessão, o que seria injusto, mas é claro que, como seres imperfeitos que somos, temos abertas as brechas das nossas próprias imperfeições. Como nos disse um amigo espiritual, certa vez, sofreremos, no decorrer do trabalho de desobsessão, apenas aquilo que estiver autorizado pela nossa ficha cármica. Ë claro, pois, que os trabalhadores das sombras empenharão o melhor de seus esforços no levantamento de nossas fichas, ou seja, de nossa vida pregressa, estudando-nos sob todos os ângulos, vigiando-nos, a fim de surpreenderem-nos no momento em que mostramos onde a nossa cerca está arrombada... Entrarão em ação imediatamente. Estão convictos de que poderão atingir-nos; é só questão de tempo e oportunidade, pensam eles, e, como dizia Levi, “para poder é preciso crer que se pode e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos”.
Estejamos vigilantes, porém tranqüilos e guardados na paz do Cristo. Se o nosso trabalho é de Deus, sigamos em frente, serenos, confiantes, destemidos. Estejamos preparados, porém, para enfren­tar os companheiros desarmonizados. Aqueles que por longos sé­culos vêm praticando a magia, estão habituados a vencer pela vontade disciplinada — que aprenderam a dominar — todos os obstáculos. Não nos impressionemos, porém, com os seus rituais, seus gestos, seus talismãs, suas evocações, suas palavras misterio­sas e secretas.
Temos que atuar não sobre esses sinais exteriores dos seus cultos, mas sobre os seus Espíritos atormentados, embora aparen­temente següros e frios. Toda aquela serenidade aparente desmorona, quando conseguimos convencê-los de seus trágicos enganos. Estejamos prontos para ajudá-los, pois este é o momento mais grave, mais sério, mais profundamente humano de suas vidas: quando entrevêem uma réstia de luz a iluminar-lhes o próprio co­ração, os escombros dos antigos sonhos, os fantasmas que trazem no íntimo, os desenganos, os remorsos, as angústias, o desespero. É preciso tratá-los com carinho, com humildade e singela com­preensão, porque a dor do despertamento é, quase sempre, esma­gadora. Quem a presenciou pode fazer idéia, porque senti-la, em toda a sua profundidade, somente aquele que a experimentou.
Lembremo-nos de que os Espíritos que na Terra estiveram en­volvidos nas práticas mágicas não desapareceram, nem se perdeu o conhecimento dos mecanismos de certas leis do magnetismo, da hipnose, da manipulação de drogas e fluídos, de forças naturais e de toda a parafernália que lhes proporcionava poderes secretos e misteriosos, mas muito reais.
Com os esclarecimentos contidos hoje na Doutrina Espírita, es­tamos em condições de entender muitos desses segredos e mistérios, pois, no fundo, o mago sempre foi um médium, assistido por companheiros desencarnados, com os quais se afina bem, no inte­resse de ambos. Os Espíritos vivem em grupos, ligados por interesses comuns, e revezam-se na carne e no além, apoiando-se mutuamente, alguns empenhados em finalidades nobres, construti­vas e reparadoras, e outros envolvidos, século após século, em lamentáveis e tenebrosas práticas de dominação e vingança, tor­tura, perseguição, infligindo sofrimentos atrozes aos infelizes que lhes caem sob o poder maligno e infeliz.
O conceito de Sir James Frazer, de que a magia baseia-se na simpatia, é válido. Em Espiritismo, diríamos que se trata de sin­tonia vibratória. Não que a magia tenha poderes por si mesma, pois ela não encontra ressonância e, por conseguinte, não alcança êxito junto àqueles que já se redimiram, ou que, pelo menos, acham-se defendidos pela prece, pela vigilância e pela prática da caridade, no serviço ao próximo.

*

Por mais de uma vez temos tido experiências com processos de magia, em trabalhos de esclarecimento mediúnico. Magos do passado, que continuando no Além seus estudos e práticas, com­parecem, excepcionalmente, aos trabalhos de desobsessão nos quais se acham envolvidos, pois não gostam de descobrir-se. Entre eles encontramos até ex-sacerdotes católicos que, em tempos idos, pra­ticaram a magia e, revertidos ao mundo espiritual, retomaram suas experiências.
À visão espiritual de nossos médiuns apresentavam-se com as vestimentas e os simbolos de sua preferência, ou portando “obje­tos”, poções, signos, velas, substâncias e até acompanhados de acó­litos, para servi-los.
Um deles trouxe-nos — certamente para intimidar-nos — um pobre ser espiritual inteiramente dominado, reduzido a uma deplo­rável Condição subumana de pavor e deformação perispiritual. Nosso médium viu-o atirar esse pobre espírito, de rastros, num círculo magnético infernal, do qual a infeliz vítima não podia livrar-se, por mais que se debatesse. Era um exemplo para nós, a fim de que deixássemos de interferir em sua atividade, disse ele.
Outro veio traçar signos e fazer invocações contra um de nós, especificamente. Tinha recebido uma solicitação, selada com san­gue, num terreiro. Não podia deixar de atender ao “irmão de sangue”. Depois de seu ritual, cumprido à nossa vista, declarou que sua vítima “estava amarrada”, e partiu.
Mais tarde manifestou-se outro de sua equipe — ou seria ele mesmo? — com a proposta de “desfazer” o trabalho. E repetia, incessantemente:
— Quer que vire, eu viro. -. Quer que vire, eu viro...
Não; não queríamos que ele virasse, com o que ele ficou muito desapontado, pois obviamente teria sido muito mais fácil, para ele, alcançar seus objetivos ocultos e lamentáveis, se aquele a quem ele visava propusesse um “pacto”, que entregaria a ele sua vítima, de pés e mãos atados, pronta para o “serviço”. Vendo-se recusado, passou para outro médium, no mesmo grupo, e apresentou-se agora com outro nome, embora reclamando que seu “cavalo” não pres­tava, porque não o obedecia. Tinha diante de si um prato de sangue, com o qual pretendia alcançar-nos.
De outra vez, um desses visitantes sinistros deixou sobre a mesa, segundo relato de um de nossos videntes, pequenas caveiras com as órbitas iluminadas por uma baça luz vermelha. Uma para cada um de nós.
Acontece, porém, que, empenhado em trabalhos redentores, o grupo dispõe de proteção e ajuda de companheiros redimidos, também antigos magos, profundos conhecedores desses trabalhos, sempre presentes para contraporem seus conhecimentos e recursos às desesperadas tentativas desses irmãos, agarrados ainda ao lado escuro da vida, tentando dominar pelo terror. Um desses compa­nheiros infelizes confessou que via ao nosso lado quem, melhor do que ele, conhecia os segredos de sua arte e a neutralizava. Mais do que isso: por processos que não se revelaram aos nossos sen­tidos, o mago foi completamente desarmado em suas táticas, tão cuidadosamente planejadas. Nosso médium viu apenas que, em torno dele, colocaram sete lâmpadas, ou lanternas, de cores dife­rentes.
Um caso marcou época, pela sua extraordinária sofisticação. O mago era realmente profundo conhecedor de sua arte e engendrou um mecanismo magnético, através do qual mantinha, subjuga­das aos seus propósitos, as mentes de quatro seres encarnados.
Em suma, a magia é mais comum do que desejaríamos admitir, e oferece riscos realmente sérios, contra os quais os grupos me­diúnicos têm que estar muito bem preparados e assistidos. É claro que ela age apenas quando e onde encontra as necessárias brechas e o condicionamento da culpa, da falta, do erro, que nos sintoniza com o mal e nos expõe à aproximação dos implacáveis cobradores das trevas.
Os magos desencarnados são, as mais das vezes, inteligentes, experimentados e conhecedores profundos das mazelas e fraquezàs humanas, pois vivem disso, nas suas práticas funestas. Não se detêm diante de nenhum escrúpulo, não temem represálias, são pouco acessíveis à doutrinação, ao apelo do amor e do perdão. Sabem, como todo Espírito envolvido nas sombras das suas pai­xões inferiores, que somente estarão protegidos da dor enquanto mantiverem em torno de si mesmos aquele clima de terror. Atacam para nao serem atacados, oprimem para não serem oprimidos, espalham a dor para fugirem às suas próprias. Sabem muito bem que no dia em que “fraquejarem”, ou seja, aceitarem a realidade maior, que muito bem conhecem, chegará o duro momento da verdade e começará a longa escalada de volta. E quem desceu semeando sofrimentos, só pode contar com sofrimentos durante a subida. Não há outro caminho. Por isso são implacáveis e, por -isso, demoram-se no erro que, paradoxalmente, os compromete cada vez mais. Estão perfeitamente conscientes, no entanto, de que um dia — não importa quando — terão fatalmente que enfrentar a realidade de si mesmos, pois o mal não é eterno.
Enquanto isso, utilizam-se da vontade bem treinada, para mo­vimentar, em seu proveito, as forças da Natureza.


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