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25 de fev de 2014

Bittencourt Sampaio e a epopeia do Evangelho



Há 180 anos reencarnava um Espírito de escol. Atuou como jurisconsulto, magistrado, político, jornalista, literato e espírita vinculado a grupos que originaram a FEB.

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio nasceu em Laranjeiras (Sergipe) no dia 1º de fevereiro de 1834. Era filho de Maria de Sant’Ana Leite Sampaio e do português Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (homônimo). Iniciou o curso jurídico na Faculdade de Direito do Recife, transferiu-se para São Paulo e o concluiu na Faculdade de Direito do  Largo de São Francisco em 1859. Em seguida à formatura, atuou como promotor público durante dois anos na sua cidade natal e em Itabaiana,e depois se fi xou na cidade do Rio de Janeiro.1 Desencarnou nesta cidade no dia 10 de outubro de 1895.

Literato e jornalista Destacou-se na sua vida acadêmica por ter sido o autor de conhecidas letras musicadas por Antônio Carlos Gomes.Este, em sua juventude, no ano de 1859, morou em uma república na proximidade da Faculdade,convivendo com os estudantes de Direito. Compôs o hino, com letra de Bittencourt Sampaio, que foi adotado como o Hino da Faculdade de Direito.2 A primeira apresentação aos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo provocou
ovação por parte dos jovens. Eis um trecho:

Mocidade, eia avante, eia avante! / Que o Brasil sobre vós ergue a fé; Este imenso colosso gigante / Trabalhai por erguê-lo de pé! O Brasil quer a luz da verdade, / E uma c’roa de louros também, Só as leis que nos deem liberdade, / Ao gigante das selvas convém! Vossa estrela reluz radiante, / Oh! erguei-a vós todos, com fé, Este imenso colosso gigante / Trabalhai por erguê-lo de pé!

A nosso ver, o brado é adequado, inclusive para a juventude espírita de nossos dias. Bittencourt Sampaio e Carlos Gomes também compuseram, respectivamente, a letra e a música da modinha Quem sabe?, muito reproduzida até a atualidade. 4 Esta foi composta pelos dois juntos em apenas uma noite.5 Autor de diversas obras em prosa e verso foi considerado, por Sylvio Romero e João Ribeiro, o primeiro dos autores líricos brasileiros, logo depois de Gonçalves Dias. Entre suas obras merece destaque A divina epopeia de João Evangelista.
Trata-se de uma reprodução do Evangelho de João, em versos decassílabos, de rara beleza e grandiosidade.6 É editada pela FEB desde 1938.7 Livros de poesia: Harmonias brasileiras (incluindo também Macedo Soares e Salvador de Mendonça, 1859), Flores silvestres (1860) e Poemas da escravidão (1884).6

Quando desencarnou seu amigo José Bonifácio, o Moço, (José Bonifácio de Andrada e Silva, 1827-1886),sobrinho-neto do “Patriarca da Independência”, Bittencourt Sampaio dedicou-lhe os seguintes versos:

Sim! Ele entrou, de bênçãos [radiante,Pelo portão de luz da eternidade,Qual águia, que, dos céus na [imensidade,Livre revoa, tão de nós distante!1
Colaborou em diversos órgãos de imprensa – acadêmicos,literários e políticos –, em São Paulo e no Rio de Janeiro.Era conhecido pelo brilho de seus artigos e respeitado pela elevação, sinceridade e firmeza com que  sustentava e defendia os seus ideais.
Atividades políticas e administrativas Envolvido com a política, filiou-se ao Partido Liberal e foi eleito deputado para a Assembleia Geral Legislativa nas legislaturas de 1864–1866 e 1867–1870. Neste último período, foi presidente da Província do Espírito Santo, nomeado por carta imperial de 29 de setembro de 1867 a 26 de abril de 1868.1

Em 1870, abraçou as ideias republicanas. Com Saldanha da Gama, Quintino Bocaiúva e outros assinou o célebre Manifesto Republicano–importante documento histórico – de 3 de dezembro de 1870. Foi um dos fundadores do Partido Republicano.1
Em seguida à proclamação da República, atuou no Legislativo para inventariar os documentos da Câmara dos Deputados e como redator dos debates na Assembleia Constituinte, em 1890. Simultaneamente, foi o primeiro administrador da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com a aposentadoria do último bibliotecário, Saldanha da Gama, e já com o novo título oficial de diretor da Biblioteca Nacional, no início do Governo da República, foi nomeado para este cargo, em 12 de dezembro de 1889, permanecendo até 25 de outubro de 1892. O ministro da Instrução Benjamin Constant foi quem assinou a reforma “republicanizando” a Biblioteca em 1890.8

Atuação espírita1 Como espírita, desenvolveu sua mediunidade como receitista de homeopatia no Grupo Confúcio, no Rio de Janeiro, entidade a cuja diretoria pertencia desde 2 de agosto de 1873.1 Relata Antônio Luís Saião, em 1878:
[...] Bittencourt dava remédios aos pobres desenganados pelos médicos, tornou-se ele o médico de nossa família, com tal êxito que as moléstias, as mais insignificantes como as mais complicadas, foram sempre combatidas com o mesmo esplêndido resultado, o que foi presenciado até por alguns médicos, nossos íntimos amigos.1

Bittencourt foi membro fundador da Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade (Rio de Janeiro, 23 de março de 1876), mais tarde denominada Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade (1879). Desgostoso com a situação nesta Sociedade, a 21 de março de 1880, juntamente com um grupo de dissidentes, entre os quais Antônio Luís Saião e o médium Frederico Júnior, fundaram a Sociedade Espírita Fraternidade, sob a presidência de João Gonçalves do Nascimento,notável médium curador.

Em 15 de julho de 1880, Antônio Luís Saião – convertido ao Espiritismo graças à mediunidade curadora de Bittencourt Sampaio –, e que tentara, sem êxito, recompor a antiga Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, fundou em 24 de setembro de 1885, com Frederico Júnior, João Gonçalves do Nascimento, Bittencourt Sampaio e outros, o Grupo dos Humildes, mais conhecido como Grupo do Saião, destinado ao estudo e prática dos Evangelhos. A alteração para a designação de Grupo Ismael ocorreu quando este se integrou à Federação Espírita Brasileira (fundada em 2 de janeiro de 1884). Neste Grupo, Bittencourt Sampaio atuou como médium para receber belas e instrutivas mensagens de Espíritos superiores. O Grupo funciona até os nossos dias na Sede Seccional da FEB, no Rio de Janeiro. Em 1891, a FEB recebeu a adesão da Sociedade Espírita Fraternidade.1,9 Em memorável reunião realizada em julho de 1895, concluía-se, no Grupo Ismael, um autêntico acordo espiritual de aliança entre as três mais fortes correntes que atuavam na antiga Capital: a Federação,o Grupo Ismael e a Assistência aos Necessitados. Bezerra de Menezes seria o delegado desta aliança espiritual, e com base na bandeira “Deus, Cristo e Caridade” e na união dos três polos seria erguido o templo do Cristianismo Espírita no Brasil.9

Está evidente que Bittencourt e Bezerra foram contemporâneos e estiveram próximos nas lides políticas no Partido Liberal, na Assembleia Geral Legislativa e no Grupo Ismael. Mas, a atuação espírita de Bittencourt antecede a de Bezerra em cerca de quinze anos. 

A divina epopeia 

Na sua marcante obra – citada por literatos6–, Bittencourt comenta os objetivos do livro: 

[...] mostrar-lhes que não se vive tão somente do pão material levou-me nos dias santificados ao estudo dos Evangelhos, escrevendo ora o próprio texto em linguagem ao alcance de todos, ora traduzindo em verso o que mais me parecia adaptar-se à índole e ao ritmo do nosso endecasílabo.Trasladando para versos heroicos o Evangelho segundo S. João, não tive outro fim senão o de elevar a Deus o meu espírito [...]. 7 Escutai as palavras do Evangelho,

[...]A boa nova, que o discípulo [amado Por ordem de Jesus ditou aos [homens.7
Referência e obras espirituais Depois de sua desencarnação, Bittencourt Sampaio,através do médium Frederico Júnior, escreveu as obras Jesus perante a cristandade, De Jesus para as crianças e Do calvário ao apocalipse, editadas pela FEB. No livro Voltei,10 o Espírito Irmão Jacob, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, em conversação no mundo espiritual com Guillon Ribeiro, revela a missão de Bittencourt Sampaio:     
– Guillon – exclamei hesitante –, você sabe que sempre dediquei amor e veneração a Bittencourt Sampaio... Onde estará ele? Poderei encontrá-lo? Informou-me o companheiro que o nosso respeitável amigo colabora na supervisão do Espiritismo evangélico, em plano superior, adiantando, porém, que, provavelmente, seria Bittencourt o mensageiro de amizade que viria de mais alto trazer-me as boas-vindas, na noite de minha recepção no grande templo.10 Desde seus esforços – como um denodado pioneiro do Espiritismo no país – até nossos dias, Bittencourt Sampaio é um arauto da difusão do Evangelho à luz do Espiritismo!

Antonio Cesar Perri de Carvalho

REFERÊNCIAS:

1 WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. p. 244 a 253 e 143.
2 Disponível em: . Acesso em: 6/12/2013.
3 Disponível em: . Acesso em: 6/12/2013.
4 Disponível em: . Acesso em:6/12/2013.
5 SOARES, Sylvio Brito. Grandes vultos da humanidade e o espiritismo. 4. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. p. 46 e 47.
6 BARRETO, Luiz Antonio. (Organizador.) Parnaso sergipano. Edição Comemorativa, de Sílvio Romero. Rio de Janeiro: Imago Editora; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001. p. 516.
7 SAMPAIO, F. L. Bittencourt. A divina epopeia. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. Advertência, p. 9; Introdução, p. 23.
8 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. Sesquicentenário – 1810-1960. Guia da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional do Ministério da Educação e Cultura. caps. Notícia Histórica e Relação dos Diretores. 1960. p. 13, 14 e 27, respectivamente.
9 ABREU, Silvino Canuto. Bezerra de Menezes. Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895. 6. ed. São Paulo: Editora Feesp, 2001. p. 55, 90.
10 XAVIER, Francisco C. Voltei. Pelo Espírito Irmão Jacob. 28. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 12, Entre companheiros, it. Noite divina, p. 107.

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