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25 de fev. de 2014

Bem-aventurados Aspectos de uma interpretação


Entre as passagens evangélicas mais memoráveis estão as “bem-aventuranças”, proferidas por Jesus no Sermão do Monte:

Bem-aventurados os pobres em espírito [...]. Bem-aventurados os afl itos [...]. Bem-aventurados os mansos [...]. Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça [...]. Bem-aventurados os misericordiosos [...]. Bem-aventurados os limpos de coração [...]. Bem-aventurados os pacifi cadores [...]. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça [...]. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e {mentindo} disserem todo o mal contra vós, por causa de mim.(Mateus, 5:3 a 11.)1

Esses ensinamentos e os demais, que integram o referido Sermão, não constituem um compêndio de regras formais (à semelhança de conjunto de leis civis exteriores) mas, na essência, um novo padrão de conduta pautado pela modificação–a ser dinamizada de dentro para fora – dos sentimentos, da mentalidade e, consequentemente, das atitudes das pessoas. Tais assuntos são parte do “ensino moral” legado por Jesus, cujos princípios formam o “objeto exclusivo” de O evangelho segundo o espiritismo.2 Na obra, há cinco capítulos dedicados às bem-aventuranças: Bem-aventurados os aflitos; Bem-aventurados os pobres de espírito; Bem-aventurados os que têm puro o coração; Bem--aventurados os que são brandos e pacíficos; Bem-aventurados os que são misericordiosos.3

Os “bem-aventurados” são comumente definidos, do ponto de vista literal, como “felizes” ou “muito felizes”, “alegres”, “merecedores das graças divinas” etc.4 Quando emoldurados pelo contexto das dificuldades terrenas – manifestas em aflições, sofrimentos, perseguições etc. –, tais significados (e, por conseguinte, os ensinamentos a eles associados) podem soar um pouco contraditórios. Todavia, conforme ponderou Allan Kardec, os ensinos morais do Cristo constituem 

[...] uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura [...].5 (Grifo nosso.) 

Segundo o Codificador, “é a dúvida quanto ao futuro”6 que leva o homem “a procurar suas alegrias neste mundo, satisfazendo às suas paixões, ainda que à custa de seu próximo”.6 Por isso, convém considerar o conjunto de dificuldades, associado por Jesus aos “bem-aventurados”, não sob o ângulo circunsta cial e efêmero da vida física, mas sob o ponto de vista dilatado e pleno da imortalidade da alma. Sob esse viés, as “aflições terrenas”,7 conforme explicou
Kardec, transformam-se nos “remédios da alma”,7 pois “salvam-na para o futuro, como dolorosa operação cirúrgica salva a vida de um doente e lhe restitui a saúde”.7

Articulado ao princípio da imortalidade da alma está, por conseguinte, o da reencarnação, que é a chave para se compreender a expressão “bem-aventurados”, pois confere a noção dinâmica de processo ao seu significado. Para matizar esse ponto de vista, analisam-se, separadamente, as palavras “bem” e “aventurado”: a primeira, em termos lógicos, pode ser entendida, antiteticamente, como o oposto de mal – aqui identificado, em sua expressão máxima, com a Lei de Amor; já a segunda, pode ser relacionada à ideia de ventura e, desdobradamente, de destino. Sob essa perspectiva, os “bem-aventurados” poderiam ser encarados como Espíritos destinados ao bem, pois as “bem-aventuranças”, proferidas por Jesus no Sermão do Monte, não tinham um caráter “presentista”, mas, conforme interpretou Humberto de Campos, “pareciam dirigidas ao incomensurável futuro humano”.8

Nesse sentido, um Espírito estará destinado ao bem, tornando-se um “bem-aventurado”, quando adquirir certo grau de amadurecimento e responsabilidade frente ao uso de seu livre-arbítrio. Esse processo de conscientização, associado aos princípios regeneradores da Lei de Causa e Efeito, faculta ao Espírito – mediante a experimentação de provas e expiações reencarnatórias – harmonizar-se, paulatinamente, com a Lei de Amor, cuja força rege e equilibra o universo. Sobre o assunto, Emmanuel esclareceu:
Enquanto a criatura não adquire consciência da própria responsabilidade, movimenta-se no mundo à feição de semirracional, amontoando problemas sobre a própria cabeça.

Entretanto, acordando para a necessidade da paz consigo mesma, descobre de imediato a cruz que lhe cabe ao próprio burilamento.Encarnados e carnados, jungidos à Terra, vinculam-se todos ao mesmo impositivo de progresso e resgate.9 (Grifo nosso.) Nessa linha de pensamento, o panorama de felicidade, omumente associado aos “bem-aventurados”, adquire matização e perspectiva, pois, segundo Emmanuel:

Tal como sonhada pelo homem do mundo [...] a felicidade não pode existir, por enquanto, na face do orbe [...].

Contudo, importa observar que é no globo terrestre que a criatura edifica as bases da sua ventura real, pelo trabalho e pelo sacrifício, a caminho das mais sublimes aquisições para o mundo divino de sua consciência.10 (Grifo nosso.)

Por isso, os “bem-aventurados” (assim como as “bem--aventuranças”) são indissociáveis da noção de processo

Flávio Rey de Carvalho

1 DIAS, Haroldo D. (Trad.). O novo testamento.
2.imp. Brasília: FEB, 2013.p. 49.2 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. 2. imp.(Edição Histórica.) Brasília: FEB,2013. Introdução, it. 1, Objetivodesta obra.
3 ____, ____. cap. 5, 7, 8, 9 e 10, respectivamente.
4 BOYLER, Orlando. Pequena enciclopédia bíblica. 8. ed. São Paulo:Vida, 2011. p. 110 (verbete “bem-aventuranças”); FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 287 (verbete “bem-aventurado”); HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. p. 68 (verbete “bem-aventurado”). Em algumas traduções da Bíblia, é empregada a expressão “felizes” em lugar de “bem-aventurados”. Cf. BÍBLIA: Tradução ecumênica (TEB). São Paulo: Loyola, 1994. p. 1.863; BÍ-
BLIA de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2011. p. 1.710-11; BÍBLIA do peregrino. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2011. p. 2.326.
5 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2013. Introdução, it. 1, Objetivo desta obra.
6 ____. O espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2013. Máximas extraídas dos ensinos dos espíritos, it. 39.
7 ____, ____. it. 40.
8 XAVIER, Francisco C. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. O sermão do monte, cap. 11.
9 ____. Palavras de vida eterna. Pelo Espírito Emmanuel. 34. ed. Uberaba (MG): CEC, 2007. Nossa cruz, cap. 74.
10 ____. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. q. 240.
11 ____. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. O sermão do monte, cap. 11.
12 ____. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 5. imp. Brasília: FEB, 2013. Bem-aventuranças, cap. 89.– aberto ao infinito –, no qual cada Espírito delineia a sua trajetória evolutiva mediante a modificação gradual – dinamizada de dentro para fora – dos seus sentimentos, da sua mentalidade e, consequentemente, das
suas atitudes, afinando-os cada vez mais aos princípios da Lei de Amor contidos no Evangelho. Assim, em termos essenciais, os “bem-aventurados” seriam aqueles Espíritos, encarnados ou desencarnados que, adquirindo consciência da própria responsabilidade, “abandonam as ilusões do mundo para se elevarem a Deus”11 – conforme sintetizou Humberto de Campos. Portanto, segundo consideração feita por Emmanuel: Esse ou aquele homem serão bem-aventurados por haverem
edificado o bem [...] por encontrarem alegria na simplicidade e na paz, por saberem guardar no coração longa e divina esperança.12

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