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3 de mai de 2013

Umbandização da Prática Mediúnica Espírita?






     Não sou contra a Umbanda, muito menos contra os espíritos que nela laboram. Penso que lá, tal como no seio espírita, existem os que são esclarecidos e outros em condição mediana, que dão daquilo que tem, embora ainda bastante limitados em seus conhecimentos e na apreensão da realidade espiritual.

     Durante muito tempo, até os 13 anos de idade, convivi em meio às práticas de Umbanda e de Candomblé. Acompanhava meu pai em suas muitas visitas a diversas casas, em sua busca por respostas a uma série de questionamentos, e vi, com meus próprios olhos, fenômenos e prodígios de arrepiar muita gente.

     Conversei com caboclos e pretos-velhos; ouvi verdades e conselhos que muito me auxiliaram; tomei banhos, provei beberagens, degustei pratos e muito aprendi durante todos aqueles anos de convivência produtiva; convivência, aliás, que em muito me preparou para o trato natural com a mediunidade, na seara espírita.

     Até os dias de hoje, sou acompanhado por um espírito, que se apresenta como um “preto-velho”, cuja simpatia foi conquistada naqueles tempos e que prossegue até os dias de hoje.

     Faço esse preâmbulo ao meu texto com a única finalidade de dizer que não sou contra a Umbanda, o Candomblé ou qualquer outra manifestação religiosa que encerre, no seu culto, práticas mediúnicas. Ao contrário, entendo e reconheço seu valor, acreditando que são formas válidas de crença e que trazem uma filosofia de vida que muito ensina aos seus adeptos.

     Entretanto, a par do meu respeito e da minha admiração pela Umbanda, não posso, também, negar que, a partir dos 13 anos de idade, fiz a opção de abraçar o Espiritismo. Tal opção descortinou, para mim, a compreensão daqueles fenômenos que tão moleque presenciei e de outros tantos que não conhecia.

     Entendi que a prática espírita, ou melhor, a prática mediúnica espírita, é destituída de amuletos, velas, ídolos ou objetos externos de adoração. Sendo, todos eles, recursos para canalizar o pensamento em busca das energias que se quer mobilizar, vamos aprendendo a utilizar a prece e a concentração nesse objetivo, sem o recurso a cultos exteriores.

     Aprendi, também, que banhos e queima de pólvoras, conquanto possam trazer bem estar e surtir um efeito agradável sobre a mente e as emoções, não nos “limpam” de nossas verdadeiras impurezas. Se a “sujeira” está na alma e é de fundo moral, somente a higiene moral, surgida com a “transformação moral e os esforços para domar as más inclinações”, será capaz de libertar e proteger os indivíduos das “más influências”

     Nela, na prática mediúnica espírita, não há gurus ou algo parecido, devendo, cada colaboração, ser considerada como válida e igualmente apta para nos ensinar sobre a verdade. Assim, não temos “pais” nem “mães”, “sacerdotes” ou “sacerdotisas”, “irmãos” ou “irmãs”, mas tão somente colaboradores que abraçam a tarefa mediúnica a fim de auxiliar, à medida que auxiliam a si mesmos.

     Os espíritos que se comunicam, na prática mediúnica espírita, não são deuses ou seres angelicais, demônios ou santos, mas tão somente “homens sem os corpos”, pessoas que deixaram a vida física e, agora na realidade espiritual, retornam para compartilhar suas experiências e ensinamentos. Podem ser cultos ou incultos, sábios ou ignorantes, predominantemente bons ou maus, conforme suas peculiaridades, e devem ser tratados com respeito e bom senso.

     Considerando que espírito, em sua realidade intrínseca, não tem cor, sexo ou idade, pouco importa se são brancos, pretos ou amarelos; homens ou mulheres; velhos ou novos – todos são iguais aos olhos de Deus, devendo ser acolhidos, amados e respeitados em sua singularidade.

     Contudo, assim como, em nossa residência, alguém que nos visite e nela se hospede deverá, nada obstante seus hábitos e costumes, adaptar-se aos costumes, hábitos e regras de quem hospeda, também nós, em nossa prática mediúnica espírita, deveremos prezar pelos princípios e orientações ensinados pelo Espiritismo, esclarecendo a este ou àquele espírito quais são os critérios de colaboração e assistência daquele grupo.

     Pouco importa quem seja o espírito! Se foi um padre e deseja rezar uma missa, que o faça em uma Igreja Católica, inspirando um padre, mas não no Centro Espírita! Se foi protestante e almeja pelo seu culto específico, que se dirija a um templo protestante e se reúna aos de pensamento semelhante! Se se trata de um espírito vinculado à Umbanda, pretendendo receitar banhos, limpezas, velas e práticas semelhantes, que se acerque dos Centros de Umbanda, onde encontrarão o ambiente específico para suas habilidades! Se quiserem, porém, colaborar nas Casas Espíritas, deverão se ajustar à proposta e aos critérios nelas adotados, à luz das lições de Kardec, com todas as suas peculiaridades e ensinamentos.

     Voltando a minha experiência pessoal. Quando, na prática mediúnica espírita, identifiquei a presença do preto-velho que se vinculou a mim desde os tempos da Umbanda, fiz-lhe a seguinte proposta: “poderemos trabalhar juntos, desde que o amigo aceite os critérios apresentados pelo Espiritismo”. Como ele aceitou, seguimos, há quase 20 anos, numa parceria mediúnica profícua e de muito aprendizado recíproco.

     Não se trata, volto a dizer, de qualquer tipo de discriminação. Também não emito qualquer juízo de valor, dizendo que este é bom ou aquele é ruim. Tampouco é um ato de intolerância religiosa, ou mesmo de “coro à desunião”. Seremos, sempre, todos unidos no desejo de fazer o Bem, embora por caminhos distintos. Como tudo é uma questão de opção, que cada coisa seja colocada no seu devido lugar e cada um busque a prática e a vivência com que melhor se identifique.

     Nem devemos “espiritizar” a Umbanda, nem devemos “umbandizar” o Espiritismo!


Pedro Camilo (Salvador/BA)

Advogado. Mestre em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia. Professor Auxiliar de Direito Penal e Processual Penal da Universidade do Estado do Bahia. Escritor e expositor espírita. Trabalhador do Núcleo Espírita Telles de Menezes, de Salvador, Bahia.
Escreveu os livros "Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa", "Devassando a mediunidade" e "Mediunidade: para entender e refletir"; organizou o livro "Pelos caminhso da mediunidade serena"; mediunicamente, o Espírito Bento José escreveu, por seu intermédio, "Mente Aberta.



1 comentários:

vitor hugo assis giangarelli disse...

Mto bom o post... Mas creio que, o espiritualismo em si, no sentido literal da palavra, transcende as "barreiras/limitações e dogmatizações" espíritas, umbandistas, candomblecistas, dentre outros. Acredito principalmente que, tanto nos templos e terreiros umbandistas, bem como nos centros espíritas, o que se tem na verdade não são espíritos (No caso dos guias e mentores) com mais ou menos evolução (no tocante às religiões e doutrinas), mas sim médiuns com defeitos e falhas, fissuras essas que permitem aos mesmos médiuns dar vazão à sua vaidade, o que empobrece e enfraquece o trabalho realizado pela entidade espiritual.
Não devemos nos esquecer que, embora, em sua grande parte, muito evoluídos, os nossos amigos espirituais, antes de mais nada, necessitam de um corpo fisico, para que possam desenvolver e potencializar seus trabalhos.
Desta forma, não descarto e tão pouco faço apologia a tese de que existam sim, alguns espíritos mais evoluídos que outros, afinal, este é o verdadeiro e único propósito do universo, a EVOLUÇÃO, não é?! De forma que cada um busca e trabalha seu progresso..
No entanto, volto minha reflexão para os debates e atritos que a muito presencio, principalmente no tocante ao espiritismo e a umbanda. Acredito tenazmente que, não é o fato do Preto velho fumar cachimbo no terreiro enquanto o mentor que se apresenta no centro espírita não ser adepto de tal prática que significa que o mesmo Preto Velho esteja anos luz atrás do supracitado mentor. Não são os instrumentos que as entidades utilizam que demonstram sua evolução, mas sim os seus ensinamentos, a sua irradiação energética, principalmente no fator afetivo para com os próximos, dentre outras peculiaridades. Mister ressaltar que, como dito anteriormente e fazendo uso de um ditado popular, explanemos: "Não existem religiões ou doutrinas ruins, mas infelizmente existem pessoas ruins fazendo uso inadequado de muitas doutrinas, exercendo de forma equivocada e inescrupulosa práticas e atos em religiões".

11 de fev de 2014 12:08:00

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