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14 de mai de 2013

Dialogo com as Sombras 4ª PARTE - (29) TÉCNICAS E RECURSOS






QUARTA PARTE



29 - TÉCNICAS E RECURSOS

          Dissemos alhures, neste livro, que cada manifestação é dife­rente. Nunca sabemos, ao certo, as intenções do Espírito que se aproxima, que problemas nos traz, quais são suas características, qual a razão de sua presença entre nós. Além do mais, a própria mediunidade não é um instrumento de precisão, como um micros­cópio ou um relógio, que funcione, repetidamente, de maneira pre­visível e controlável. O médium é um ser humano ultra-sensível, de psicologia complexa, incumbido de transmitir o pensamento de um desencarnado, mas está muito longe de ser mero aparelho mecânico de comunicação, como um telefone ou um rádio, muito embora se fale em sintonia e em vibrações, quando a ele nos refe­rimos. Suas faculdades sofrem influências várias, do ambiente, do seu estado de saúde, da sua problemática íntima, da sua fé ou ausência dela, do seu interesse no trabalho, que pode flutuar, da sua capacidade de concentração, da sua confiança nos companheiros que o cercam e, especialmente, no dirigente do grupo e, obvia­mente, dos Espíritos manifestantes. E mesmo estes, que são também seres humanos — não nos esqueçamos disto — variam suas apre­sentações, de uma para outra manifestação, segundo suas próprias disposições.
          Por outro lado, é preciso considerar, também, que há diferen­tes formas de mediunidade: de incorporação, ou psicofônica, de vi­dência, clariaudiência, psicografia, assim como há médiuns que con­servam sua consciência durante a manifestação, e médiuns que passam ao que se convencionou chamar de estado “inconsciente”.
          Devo abrir um parêntese, para reiterar uma antiga opinião: de minha parte, julgo inadequada a expressão “mediunidade incons­ciente”. O Espírito do médium não está em estado de inconsciên­cia, simplesmente porque se afastou do seu corpo físico, para cedê-lo ao manifestante. O máximo que se pode dizer é que a consciência não está presente no corpo físico, ou, melhor ainda, não se mani­festa através do corpo material, temporariamente ocupado ou ma­nipulado por entidade estranha à sua economia. Se o médium mer­gulhasse, em Espírito, no estado de inconsciência, o manifestante assumiria posse total do seu organismo e faria com ele o que bem entendesse. Ao escrever isso, não estou esquecido do fato de que há manifestações violentas, e muito livres, durante as quais os Es­píritos incorporados movimentam o instrumento mediúnico aparen­temente à sua vontade, fazendo-o gritar, dar murros, levantar-se, derrubar móveis, rasgar livros e cadernos, e promover distúrbios semelhantes. A mediunidade sonambúlica assemelha-se ao estado de possessão; mas, basta invocar esta, para sentir o quanto essas duas manifestações diferem uma da outra, O possesso é realmente um médium, pois oferece condições para que outro Espírito se in­corpore nele, mas o médium não é um possesso, no sentido de que o manifestante possa fazer, com ele, tudo quanto entender, a qual­quer momento e sem limite de tempo, ou totalmente sem disci­plina. Num grupo mediúnico em que a supervisão espiritual seja firme e segura, a mediunidade sonambúlica pode e deve funcionar perfeitamente, pois muitos Espíritos necessitam ser ligados a tais médiuns. Eles provocarão distúrbios e agitar-se-ão bastante, se­gundo os recursos e censuras que encontrarem em seus médiuns, mas não nos esqueçamos de que, não apenas os guias espirituais do grupo estarão atentos, para que eles não cometam desatinos, como o próprio médium estará presente e consciente, acompanhan­do atentamente a manifestação, e pode, com certeza, interferir, para que o Espírito manifestante não se exèeda, ainda que lhe permitindo considerável faixa de liberdade.
Em casos extremos os orientadores espirituais do grupo tam­bém adotarão medidas de exceção, para conter as manifestações mais violentas. Já tivemos oportunidade de presenciar alguns des­ses casos, em que o Espírito é virtualmente “manietado”, por laços fluídicos invisíveis aos nossos olhos, mas de realidade indiscutível para ele, porque o imobiliza instantaneamente.

*

Mas, voltemos ao fio da exposição.
O grupo deve estar, assim, perfeitamente preparado para inú­meras formas de manifestação. Elas são imprevisíveis e inesperadas. O doutrinador experiente saberá identificar prontamente os primeiros sinais da incorporação, quando o Espírito começa a aco­modar-se à organização mediúnica. É preciso, aqui, lembrar que, freqüentemente, o Espírito manifestante é parcialmente ligado ao médium, horas, e até dias inteiros, antes da sessão. Nestes casos, quando se trata de um Espírito desarmonizado, embora a manifestação não se torne ostensiva, porque isto implicaria admitir me­diunidade totalmente descontrolada, o médium sofre inevitável mal-estar físico, dor de cabeça, pressão sobre a nuca, sobre os plexos, sensação de angústia indefinível e, até mesmo, estado febril, prostração, irritabilidade, agressividade e vários outros sintomas de desarmonização psicossomática. O médium experimentado e res­ponsável deve estar preparado para isso. Não se assuste, não se apavore, não tema e, sobretudo, não deixe de comparecer ao tra­balho, por causa dessas dissonâncias psicofísicas, pois é isso mesmo que desejam os companheiros desequilibrados, ou seja, afastá-lo do trabalho.
Esse envolvimento pode dar-se também com os demais partici­pantes do grupo que, embora não dotados de mediunidade osten­siva, sofrem também terríveis pressões dos irmãos perturbados. Um dos alvos prediletos dessas penosas aproximações é o doutri­nador, tenha ou não mediunidade ostensiva. O cerco em torno dele é permanente, tenaz, implacável, impiedoso, porque acham, os companheiros desencarnados doentes, que o neutralizando, acabam com o grupo, o que, muitas vezes, infelizmente, é verdadeiro.
Esteja ou não esteja o Espírito ligado ao médium antes da ses­são, é certo que o planejamento espiritual já tem as tarefas da noite distribuídas por antecipação, e na seqüência que julgar mais conveniente ao bom andamento dos trabalhos. Geralmente, cada médium tem seu próprio “estilo”, para indicar o início da comu­nicação: colocar as mãos sobre a mesa, respirar com maior profundidade, duas ou três vezes, agitar ligeiramente a cabeça ou o corpo, gemer, levantar os braços, numa sematologia que o doutri­nador, habituado a trabalhar com ele, saberá identificar, a fim de iniciar o tratamento do irmão que se apresenta.
Às vezes, o Espírito começa logo a falar, ou a esbravejar, mas, usualmente, ele precisa de alguns segundos para apossar-se dos controles psíquicos do médium, e não consegue falar senão depois de se ter acomodado bem à organização do seu instrumento, o doutrinador deve aproveitar esses momentos para uma palavra de boas-vindas, saudando-o com atenção, carinho e respeito. Em alguns casos o Espírito somente consegue expressar-se a muito custo, em virtude de seu estado de perturbação, de indignação, ou por estar com deformações perispirituais que o inibem. De outras vezes, usando de ardis, ou preparando ciladas, mantém-se em silêncio, para que o doutrinador se esgote, na tentativa de descobrir suas motivações, a fim de tentar ajudá-lo, com o que ele se diverte bastante.
Em certas ocasiões, vem ele revestido de um manto de man­sidão e tranqüila segurança. Diz palavras doces, assegura-nos suas boas intenções, dá-nos conselhos. Um deles, certa vez, começou serenamente, com um apelo “aos corações bem formados”, numa linguagem de pacificação e entendimento. Digo-lhe que estamos dispostos à pacificação e ao entendimento, desde que ele venha em nome de Deus; mas, por mais que se esforce — coisa estra­nha! — não consegue pronunciar o nome de Deus, como eu lhe pedira. Por fim, explode em irritação e “abre o jogo”, gritando que acabou a farsa. E derrama um arsenal de ameaças e intimi­dações.
Há os que fingem dores que não sentem, ou mutilações que não possuem, como cegueira ou falta da língua. Visam, com esses artifícios, a distrair nossa atenção do ponto focal de sua problemática, ou simplesmente entregam-se ao prazer irresponsável de enganar, mistificar, defraudar, ou então, como alguns me dizem, às vezes, de esgotar o médium incumbido de dar-lhes passes. Riem-se muito dos nossos enganos. Houve um que começou fingindo uma terrível dor de cabeça. Propus-me a ajudá-lo, o que fiz com um passe, e ele começou a rir, divertindo-se com a minha falta de inspiração; mas, por estranho que pareça, começou realmente a sentir uma dor real, o que o deixou bastante impressionado.
Qualquer que seja a abertura da comunicação, o doutrinador deve esperar, com paciência, depois de receber o companheiro com uma saudação sinceramente cortês e respeitosa. Seja quem for que compareça diante de nós, é um Espírito desajustado, que precisa de socorro. Alguns bem mais desarmonizados do que outros, mas todos necessitados — e desejosos — de uma palavra de compreen­são e carinho, por mais que reajam à nossa aproximação. Os pri­meiros momentos de um contacto mediúnico são muito críticos.
Ainda não sabemos a que vem o Espírito, que angústias traz no coração, que intenções, que esperanças e recursos, que possibili­dades e conhecimentos Estará ligado a alguém que estamos ten­tando ajudar? Tem problemas pessoais com algum membro do grupo? Luta por uma causa? Ignora seu estado, ou tem cons­ciência do que se passa com ele? É culto, inteligente, ou se apresenta ainda Inexperiente e incapaz de um diálogo mais sofisticado?
Uma coisa é certa: não devemos subestimá-lo. Pode, de início, revelar clamorosa ignorância, e entrar, depois, na posse de todo o acervo cultural de que dispõe. Dificilmente o Espírito é bastante primário para ser classificado, sumariamente como ignorante. Nossa experiência acumulada é muito mais ampla do que suspei­tamos.
Dentre os muitos casos assim, lembro-me de um, particular-mente grato ao meu coração, porque o companheiro, depois de re­cuperado, passou a colaborar em nossas tarefas, com uma dedica­ção Comovedora.
Ao apresentar-se, tinha dificuldade em expressar-se, usando o vocabulário limitado de uma pessoa de pouquíssima instrução. Aos Poucos, a sua história foi se desenrolando. Fora um homem de cor, e vivera em pobreza extrema, pelas ruas do Rio de Janeiro, cujos bairros do subúrbio conhecia muito bem. Num infeliz aci­dente de trem, perdera uma perna e, mesmo no mundo espiritual, ainda caminhava de muletas. Quando lhe disse que não precisava mais de muletas, podendo caminhar sem elas, ele respondeu que já o experimentara, mas levara um tombo.
Esse querido amigo — que nos deu o nome de Eusébio — esteve aos nossos cuidados por longo tempo. Por detrás de sua pobreza verbal, do seu limitado vocabulário e das suas curiosas expressões populares, sentíamos nele, não obstante, um senso filosó­fico muito profundo da vida e uma das mais lindas e autênticas humildades que já vi. Foi, aliás, o que o salvou e, paradoxalmente, o que contribuiu para que sua recuperação demorasse um pouco mais. Tentarei explicar.
Era evidente, para nós, que chegara ao fim da sua provação maior, e estava em condições de reencetar sua escalada evolutiva. Uma noite, emocionado até às lágrimas, conseguiu dar os primeiros passos sem a “muleta”, o que, para ele, na sua linguagem colorida, “não era barbante podre, não”. Suas observações eram sempre judiciosas, sua humildade uma constante, e sua afeição e gratidão por nós, algo patético, em que expandia o coração amoroso e pleno de generosidade. Nossos orientadores espirituais começaram a uti­lizá-lo em pequenas tarefas auxiliares, com o que ele muito se alegrou. No entanto, a despeito de sua indubitável vivência espiri­tual, continuava a falar-nos na linguagem do Eusébio, simples, popular, sem atavios, mas conseguindo claramente expressar nobres pensamentos e demonstrar bastante segurança.
Certa noite, devido à ausência de grande número de com­panheiros, a sessão alcançou um clima de maior intimidade, o que talvez lhe tenha favorecido a superação de suas inibições inte­riores, para falar-nos de maneira inusitada, revelando o que de há muito entrevíamos nele: conhecimento, experiência, enfim, uma respeitável bagagem espiritual, dosada e sustentada pela sua aflo­rante emotividade. Pelo que depreendemos, tivera um passado de brilho e destaque, aprendera a dura lição da humildade e tinha certo receio de abandonar sua obscura posição espiritual, tão dificilmente conquistada, e recair nos velhos processos da vaidade. Mas, graças a Deus, estava curado o querido companheiro.

*

Esse caso, aqui, veio para ilustrar algumas realidades espiri­tuais que não podemos ignorar, sem lamentável prejuízo para o Espírito manifestante. Exemplifico: suponhamos que, ao recebê-lo, o grupo o tratasse com superior condescendência e o despedisse com uma palavra de desesperança. Onde e quando teria ele outra oportunidade de entendimento e recuperação? E onde, e quando, nós próprios teríamos a alegria de granjear uma afeição e uma dedicação iguais àquela?
Às vezes, também, embora o grupo não realize nenhum traba­lho de Umbanda, surgem Espíritos acostumados a essas práticas. Suas primeiras manifestações seguem, quase sempre, a técnica a que estão acostumados. Aguardemos pacientemente, para saber o que desejam. Nada de expulsá-los sumariamente. Se os compa­nheiros do mundo espiritual permitiram sua manifestação, num grupo estritamente espírita, orientado pelos ensinamentos de Allan Kardec, haverá alguma razão para isso.
Aqui, também, temos uma experiência pessoal.
Ao manifestar-se, ele traçava infalivelmente o seu sinal, sobre a mesa, e começava a doutrinar-nos. No seu terreiro, dizia, também se fazia o bem, e muito mais facilmente. Éramos uns “cartolas” grã-finos, reunidos em apartamento de luxo. Ele estava muito bem lá, e não queria nada conosco. -. etc., etc. Provavelmente, não sabia ainda (ou pelo menos não revelara) por que estava ali, entre nós.
Por muito tempo o diálogo se manteve nesse tom; mês após mês. Só muito mais tarde a história se desvendou. Tivera uma longa e penosíssima experiência, ao correr dos séculos, desde que, em impulsos tresloucados, no século 16, envolvera-se em erros la­mentáveis, no campo político-religioso. Fora, então, um homem de grande magnetismo pessoal, de vigorosa inteligência e de muita cultura filosófico-religiosa.
— Fui um verdadeiro demônio — me disse ele, certa vez, profundamente contristado.
Confessou, também, que, há quatro séculos, perdera-nos de vista — a mim e a outro companheiro do grupo, mas a afeição por nós lá estava, e isso o salvou, graças a Deus. Parece que sua intenção inicial era arrastar esse companheiro — o médium através do qual se manifestava — para os terreiros de Umbanda, o que este re­cusava terminantemente, por divergência doutrinária insuperável.
Não nos contou ele toda a sua terrível saga, mas uma só nar­rativa bastou. Tivera uma existência no Brasil, como escravo negro. Perguntei-lhe onde fora isso e ele me respondeu:
— A gente nem sabia onde estava. Era levado de um lugar para outro, como bicho.
Parece que foi nessa existência que se familiarizou com a uti­lização dos recursos da Natureza, para curar. Manipulava bem esses fluídos naturais e devia trazer, no Espírito, alguma antiga experiên­cia na Medicina, pois sempre nos demonstrou ser conhecedor se­guro das mazelas do corpo humano e dos métodos de minorá-las. Em mim mesmo, por meio de passes, colocou um “remendo” na coluna, que ameaçava quebrar-se por causa de uma rara e incurá­vel moléstia óssea.
Também este integrou-se no nosso grupo, feliz em poder ser­vir-nos, com seus conhecimentos e seu coração, curado de antigas mazelas, que tanto o infelicitaram. Era particularmente ativo e estava sempre presente para restabelecer o tônus vibratório dos médiuns, quando a manifestação era por demais penosa. Incorpora­va-se, logo em seguida, e, enquanto falava tranqüilamente, dava passes no seu médium, que despertava lúcido e livre dos resíduos vibratórios do Espírito desarmonizado que o precedera. O nosso bom e querido Justino, a essa altura, abandonara seus propósitos de con­tinuar a freqüentar os terreiros. Era quem nos dava um passe final, quem fluidificava a nossa água e quem tratava das nossas pequenas mazelas orgânicas, dando-nos conselhos e passes e, vez por outra, a “receita” de um chá caseiro. Manteve sua maneira algo rude de falar, sem floreios e artifícios de linguagem. Talvez buscasse esconder suas emoções, sua gratidão e sua alegria, pelo reencontro com os velhos companheiros, que, segundo ele, haviam se distanciado na sua frente, o que não é verdadeiro.
Certa vez, num impulso rápido de inspiração, identifiquei seu Espírito nas lutas dramáticas da Reforma Protestante, mas respei­tamos seu anonimato e ele nunca mais deixou de trazer-nos a vibração do seu amor fraterno e do seu reconhecimento humilde. Muito devemos a esse querido companheiro, não somente pelo que fez por nós, mas pelas inesquecíveis lições que nos trouxe. Seria difícil distinguir a gratidão dele da nossa, e não é essa mesma a essência imortal do “Amai-vos uns aos outros”?

*

Assim, a primeira regra do diálogo, com os nossos irmãos em crise, é esta: paciência e tolerância. Toda conversa, com eles, éum permanente exercício dessas duas virtudes. As primeiras pala­vras são de importância vital; são, às vezes, decisivas, e podem constituir a diferença entre uma oportunidade de pacificação ou a alienação do companheiro por mais um tempo, indeterminado, em que ele continuará a buscar alhures o que não encontrou em nós:
compreensão para os seus problemas e suas angústias. Muita coisa vai depender, no desenrolar do trabalho, da maneira pela qual re­cebemos os nossos irmãos em crise. Nunca é demais lembrar e insistir: eles precisam de nós, justamente porque não conseguem sair sozinhos das suas dificuldades, das suas perplexidades, dos seus sofismas, da sua auto-hipnose. Mas nós, por igual, precisamos deles, porque nos trazem lições, porque nos ajudam na prática da lei suprema da solidariedade que, a seu turno, nos libertará também.
E quantas vezes não são eles aqueles mesmos que causam desequilí­brios em nós próprios, ou obsessões naqueles que nos cercam: pa­rentes, amigos, colegas de serviço, companheiros de jornada, enfim?
Além disso, não podemos despachá-los, mal enunciaram as pri­meiras palavras, quando nem sequer sabemos ainda de suas mo­tivações e de suas dores. Não esperemos, jamais, uma expressão inicial sensata e equilibrada, amorosa e tranqüila, da parte da­queles que se acham desarmonizados. Se assim fosse, não preci­sariam de nós: já teriam encontrado seus próprios caminhos. Es­peremos, isto sim, uma eloqüente manifestação de revolta, rancor, desespero, aflição, desencanto, ou perplexidade, segundo a natu­reza dos problemas que os abrasam. Contemos com mistificações e ardis, com falsidades e subterfúgios, com ódio e agressividade, com ignorância e má-fé; em suma, com a dor do Espírito aturdido pelo impasse que criou dentro de si mesmo. É claro que o pri­meiro impulso de hostilidade, de um Espírito assim, tem de ser contra nós, que o fustigamos, tentando obrigá-lo a mover-se. Ele está parado no tempo e no espaço, preso à sua problemática, em­penhado numa tarefa que julga do maior relevo e importância; e aparece um grupo, como o nosso, para tentar arrancá-lo daquilo que constitui o seu mundo, a sua razão de ser. Não é ele quem nos incomoda e fustiga; somos nós que o agravamos, com a inad­missível tentativa de fazê-lo desistir dos seus propósitos. Como? Então não vemos que ele não faz mais do que cobrar uma dívida, ou trabalhar pelo restabelecimento da Igreja do Cristo, ou funcio­nar como juiz, num processo legitimamente constituído, em que a culpa é tão clara? Que petulância! Que impertinência!
É preciso deixá-los falar, pois, do contrário, não poderemos ajudá-los. É necessário conhecer a sua história, suas motivações e suas razões. E ainda que relutem, demorem e usem de mil e um artifícios, eles acabam revelando a razão de sua presença no grupo. O longo trato com eles nos ensina que têm um hábito peculiar de “pensar alto”. Isto se deve a um mecanismo psicológico irresistí­vel, do qual muitas vezes eles nem tomam conhecimento, e no qual, mesmo os mais hábeis e ardilosos deixam-se envolver. É que o médium lhes capta o pensamento, e não a palavra falada. Se o mé­dium se limitasse a transmitir-lhes a palavra, mesmo assim, eles acabariam por revelar as suas verdadeiras posições, embora pu­dessem sonegar a verdade por maior espaço de tempo; mas é do próprio dispositivo mediúnico converter, em palavras e gestos, aquilo que o Espírito elabora na sua mente. Eles não conseguirão, por muito tempo, ocultar as verdadeiras causas da sua dor e a razão da sua presença, pois é isso, precisamente, que os traz a nós. Essas causas estão de tal forma gravadas nos seus Espíritos, que constituem o centro, o núcleo, em torno do qual gira toda a personalidade e agrupam-se os problemas mais críticos e mais urgentes. Se conseguirmos desfazer aquele núcleo, que funciona como verda­deiro centro de aglutinação, a personalidade reagrupa-se em novos equilíbrios redentores. Insistimos, pois, em afirmar que o médium traduz em palavras o que ele sente no Espírito manifestante: suas emoções, seu temperamento, seus problemas, suas desarmonias, ao mesmo tempo em que lhe reproduz os gestos, e a voz alteia-se ou sussurra, reflete ódio ou desprezo, ironia ou, amargor, perplexidade ou aflição. Se assim não fosse, teríamos que falar com cada Espí­rito na sua própria língua, ou seja, na língua que ele falou por último, na sua mais recente encarnação, e todo médium precisaria ser xenoglóssico.
É certo, pois, que acabarão por revelar a razão de sua presença entre nós, e depois, o núcleo de suas dificuldades maiores, muito embora seja isto o que mais parecem temer.
Num caso desses, o Espírito fez um longo circunlóquio filosó­fico-teológico. Era excelente argumentador e dialético de muitos recursos. Fugia a qualquer referência pessoal, a qualquer palavra que pudesse levar-nos a descobrir suas motivações. Ao cabo do diálogo, que se estendeu por mais de uma sessão, ele não se conteve mais: seu ódio era contra mim. Seguia meus passos desde que “tua maldita mãe te colocou no mundo”, e a dúvida que havia entre nós reportava-se ao tempo da Segunda Cruzada. Pretendia transformar o meu lar num hospício, disse ele, pois eu cometi contra ele um crime do qual jamais me perdoaria. Se pudesse, me destruiria...
Em suma, deixa cair os véus com os quais tentou, de início, cobrir as razões de sua presença entre nós. Veio para isso mesmo, mas relutou o quanto lhe foi possível, pois sabia muito bem que, chegados ao cerne do problema, estaríamos em melhor posição para o ajudar a resolvê-lo. No fundo, ele estava mesmo era cansado de sofrer porque a vingança e a perseguição tanto sacrificam o perseguido, quanto o perseguidor.
Em outro caso» depois de muito debatermos as questões susci­tadas entre nós, ele deixou escapar o fragmento de uma palavra reveladora.
A certa altura do diálogo, lembro a ele a inesquecível palavra de Gamaliel, perante o Sinédrio:
— Não aconteça que vos encontreis lutando contra Deus!
Percebi que a citação o atingiu mais profundamente do que ele talvez desejasse. Resmungou que nada tinha com Gamaliel, mas evidentemente estava envolvido no doloroso “processo da cruz”, e disse:
— Eu era um sol...
Estacou subitamente e comentou consigo mesmo:
— Veja o que eu ia dizendo. Sempre fui um soldado...
Na verdade, desde a sua primeira manifestação, uma ou duas semanas antes, ouvia sem cessar um alarido de vozes que berravam coisas confusas e um tilintar de armas que ele se recusava a iden­tificar. Participara, pois, como soldado romano, ou do próprio Templo, da penosa missão de aprisionar o Cristo, ou de condu­zi-lo, ao longo da sua inesquecível via crucis. Era esse o problema que ele mais temia revelar, mas que precisava enfrentar, para libertar-se.
Este caso encerra outra lição importante. Chamemo-la a lição do arrependimento construtivo, ao qual há referências alhures, neste mesmo livro.
Para não transformar o tema numa composição literária, bas­te-nos lembrar que há dois tipos de arrependimento: o positivo e o negativo. O primeiro, ajuda-nos a reconstruir logo o que destruímos, a refazer o que não podemos mais desfazer; o segundo, mantém-nos paralisados à beira do caminho, enquanto nossos companheiros e nossos amores seguem à frente. Estacionamos precisamente porque nos falta coragem para enfrentar o olhar severo da própria cons­ciência. É verdade, estamos envergonhados, temerosos e angustia­dos, mas por que demorar-nos no arrependimento, cruzarmos os braços e esconder-nos, como um caramujo, dentro da carapaça das ilusões? O arrependimento somente se dissolve no trabalho construtivo. Incontáveis multidões, no entanto, tentam fugir de si mesmas, ignorando seus próprios fantasmas interiores. A culpa existe em nós; impossível negá-lo, pois o erro já está cometido mesmo. O que temos de fazer, agora, não é fingir que ela não existe, porque é justamente esse fingimento, essa fuga, que nos mantém presos, detidos, marcando passo, vendo a multidão passar por nós, em busca da paz.
Esse mecanismo tem que ser bem compreendido por aquele que se propõe ajudar Espíritos endívidados. É claro que também somos endívidados, talvez tanto quanto eles, ou até mais. Precisamos, no entanto, mostrar-lhes que estamos fazendo alguma coisa, lutando, enfrentando os nossos espectros interiores, as censuras da consciência, as cutiladas do remorso, conscientes de que o nosso erro está presente em nós, e não podemos voltar sobre nossos passos, para desfazê-lo. Podemos, no entanto, e devemos, e temos que reconhecer, a força da sua presença em nós. Sem essa aber­tura corajosa, não dá sequer para começar. E, como diz o pro­vérbio chinês: a caminhada de 100 quilômetros começa com o pri­meiro passo.
O doutrinador precisa estar muito atento a esses sinais reve­ladores. Tentar identificá-los é sua tarefa, mas que o faça com muito tato, paciência e compreensão. Ninguém gosta de revelar suas fraquezas, seus erros, seus crimes, suas mazelas e imperfei­ções. Nada de coações, de pressões, de imposições. Espere com paciência, busque com tranqüila perseverança, que a verdade virá. Lembre-se de que ela se encontra ali mesmo, na memória daquele irmão que sofre. Ele a dirá, se é que chegou a sua hora de mudar de rumo. Basta um pouco de ajuda, habilidade, tato e pa­ciência. É preciso, também, que tenhamos a faculdade da empatia, ou seja, apreciação emocional dos sentimentos alheios. Veja bem: apreciação emocional. É necessário que as nossas emoções estejam envolvidas. Se apenas assistimos às agonias de um Espírito que se debate nas suas angústias, não temos empatia; somos meros espec­tadores. É preciso aprender a vibrar com ele, sofrer com ele, com­preender sua relutância em abrir-se, aceitar seu temor em desco­brir suas feridas, mas, a despeito de tudo isso, ajudá-lo a des­cobri-las...
Estejamos certos, porém, de que a resistência será grande, a luta interior que presenciaremos será dolorosa, difícil, e muitas vezes o Espírito recuará novamente, temeroso, acovardado, sentindo-se ainda despreparado.
Neste caso, ouvimos sempre uma destas frases:
— Ainda não estou preparado... Espere um pouco mais... De outra vez... Deixe-me. Dê-me mais tempo. Preciso pensar...
Junto de um companheiro particularmente agoniado, presen­ciamos a dura batalha entre os lampejos da esperança de paz e os apelos de seu insaciado desejo de vingança: iria, agora, abandonar tudo aquilo, que era a motivação de sua vida, e o tinha sido por séculos e séculos? Entregar-se à dor? Abandonar a sua vítima? E a sua vingança? E, no entanto, ninguém melhor do que ele sentia a inadiável necessidade de uma atitude de renúncia, embora sabendo que apenas trocava uma dor por outra.
O doutrinador não o forçou. Limitou-se a dizer, com o coração aberto à compreensão e ao afeto:
— A decisão é sua. Claro que você pode continuar a fazer isso. Deus, que amparou aquele a quem você persegue por tanto tempo, há de continuar amparando-o. Mas, e você? É isto que lhe con­vém? É isto mesmo que você quer?

*

Estamos, talvez, nos antecipando. Falávamos do primeiro con­tacto com o Espírito manifestante. Creio que foi possível deixar bem claro o quanto é importante essa primeira aproximação. Nela se definem muitas coisas sutis, que podem decidir o caso, de uma forma ou de outra, libertando o Espírito, ou confirmando-o na sua dor, por mais alguns anos, ou séculos.
Repitamos: o diálogo com os nossos irmãos desarvorados é um exercício de tolerância e paciência. E acrescentamos: muito amor.
À medida que ele se desenrola, estejamos atentos, mantenha­mo-nos compreensivos e discretos. É uma tentativa de entendi­mento, não uma discussão, uma contenda, uma disputa. O que interessa, neste momento, não é “ganhar a briga”, mas estudar com empatia (novamente a palavra mágica) o drama que aflige o compa­nheiro. Não importa que ele leve a melhor no debate, que nos agrida, ameace e procure intimidar-nos. Freqüentemente ocorre ser ele muito mais treinado, em pelejas dessa categoria, do que o dou­trinador. Foi tribuno, orador, escritor, pensador, teólogo; enfrentou grandes debatedores, argumentou em causas importantes, adquiriu cultura e aprendeu a manejar a palavra, como poucos. Leva nítida vantagem sobre o doutrinador que, por mais bem preparado que seja, está contido pelos dispositivos da encarnação e, na maioria das vezes, ignorante de fatos importantes, que o Espírito conhece e manipula com inteligência e acuidade. Seria, pois, ingênua e pe­rigosa imprudência tentar superá-lo numa discussão. Não se es­queça, por outro lado, de que não pode deixar o Espírito falando sozinho, a não ser em condições muito especiais, que a intuição do doutrinador deverá indicar, O Espírito precisa ser atendido com interesse, muito mais que com simples urbanidade. Não apenas se encontra na condição de visita, por assim dizer, pois veio até a nossa casa, como ele ficará ainda mais irritado, e difícil, se o recebemos com fria e polida cortesia, ou, pior ainda, quando nos deixamos envolver pela sua agressividade e respondemos com idên­tica hostilidade, que o aliena cada vez mais.
Estejamos certos de encontrar sempre, da parte deles, o de­sejo de nos arrastar à discussão azeda e violenta. É o clima que convém aos seus propósitos. Na sua dolorosa e compreensível in­consciência, usarão de todos os recursos ao seu alcance para atingir esse fim. Quantas vezes tenho ouvido agressões iniciais, e reiteradas, como estas:
— Fale como homem! Não suporto essa voz melíflua! Será que você não tem sangue nas veias? Não seja covarde! Está com medo?
Calma, paciência, tolerância. Não altere a voz, não se deixe irritar, não reaja da maneira que ele espera, pois assim não con­seguirá ajudá-lo. Resista, mas resista mesmo, ao impulso de “responder-lhe à altura”, mesmo que tenha o argumento que parece decisivo. Se o tem mesmo, tanto melhor. Use-o com a mesma voz tranqüila e serena. É muito difícil um diálogo áspero entre duas pessoas, quando somente uma grita, O gritador acaba por perce­ber que está fazendo papel ridículo e usando violência desneces­sária, que cai num vazio, que o aturde e o traz à razão.
De vez em quando, se ele insistir em falar em altos brados, faça-o compreender, em voz baixa e tranqüila, que não é preciso gritar. Que a gente somente grita quando não tem razão. Ele aca­bará por convencer-se da justeza dessa observação. Se o doutri­nador cai na tolice de gritar-lhe de volta, o clima torna-se insus­tentável e a situação difícil de ser contornada. Procure dirigir a conversação para o terreno pessoal, certo de que o Espírito está negaceando, precisamente para evitar cair nesse campo, que sabe ser o mais “perigoso”, por ser o único revelador do núcleo inte
rior de sua problemática. Mas, não o force. Espere o momento oportuno. Aguarde pacientemente. Siga-o na conversa, sem aumen­tar sua irritação, sem atritar-se com ele. Não é importante supe­rá-lo na troca de idéias. Você não está ali para provar que é mais inteligente do que ele, nem mais culto, ou eticamente melhor do que ele: você está ali para ajudá-lo, compreendê-lo e servi-lo. Não há razão alguma para pensar que você é um Espírito redi­mido, e ele um réprobro enredado nos seus crimes. As leis morais, o Evangelho do Cristo e a prática espírita nos repetem, de mil formas, a mesma lição: a de que são os próprios pecadores que se ajudam mutuamente: o coxo servindo ao cego, o cego ao mudo e, sobre todos nós, a infinita misericórdia de Deus, a sabedoria ilimitada do Cristo e a assistência incansável de nossos irmãos mais experimentados, que se alongaram mais profundamente no caminho da luz.

*

É certo, ainda, que, durante esse diálogo difícil — em que, tantas vezes, o doutrinador tem de aceitar o papel de um pobre, infeliz débil mental, covarde, hipócrita, medroso —, haverá mistificações, propostas, bravatas, ameaças, ironias, tentativas de inti­midação. Mantenhamos o equilíbrio, atentos, porém, ao fato de que humildade não quer dizer submissão e aceitação sem exame de tudo quanto nos diz o Espírito manifestante, pois ele se encontra diante de nós exatamente para que tentemos convencê-lo de seus enganos, fantasias e deformações filosóficas, teológicas e psicológicas. É a sensibilidade do doutrinador que vai indicar em que ponto e em que momento interferir.
Enquanto esse momento não chega — e geralmente ele não ocorre, mesmo, na fase inicial do diálogo — esperemos com pa­ciência, atentos às informações que o Espírito nos fornece, dado que é com elas que vamos montando o quadro que nos mostrará o perfil psicológico do comunicante. Atenção com os pormenores que pareçam irrelevantes: uma referência passageira, o tom de voz, uma lembrança fugaz, uma observação aparentemente sem im­portância. Tudo serve para compor o quadro. Lembremo-nos de que o perfil que procuramos é importante, é essencial ao entendi­mento da personalidade daquele irmão. Embora dificilmente admi­ta, ele precisa da nossa ajuda. Se o mencionarmos, porém, ele replicará com toda a veemência, que de forma alguma precisa de nós. Está muito bem como está. Não poucos serão os que, ao con­trário, nos farão propostas e nos dirão as mais estranhas bravatas.
Falam-nos do enorme poder de que dispõem — e muitas vezes isso é estritamente verdadeiro — e das “providências enérgicas” que tomarão contra nós.
Um deles me anunciou que iria “botar fogo” no grupo. E me perguntou:
— Como é que você quer morrer? Você fecha o grupo espon­taneamente, ou nós teremos que fazê-lo?
Outro me Informou que tinha “ordens do chefe” para remo­ver-me do seu caminho, se possível, sem me ferir, mas se isso fosse impraticável, então, era para arrebentar tudo a dinamite, por­que a pedra tinha que ser afastada, para que eles passassem.
Um terceiro, cujo aspecto truculento e olhar terrível o médium descreveu antes que se incorporasse, também pronunciou sua amea­ça, apoiada numa bravata: estava disposto a afastar-me de qual­quer maneira, se possível por bem, pois não desejava causar-me dano pessoal, a não ser que a isto fosse obrigado. Confessa, mesmo, que tem por mim certa afeição e — coisa estranha, meu Deus! —sinto por ele, também, uma inexplicável ternura que, não sei de onde nem de quando, vem das telas infinitas desse continuo espa­ço-tempo em que vivemos. Fala-me da sua glória, na qual insiste. Sonha grande, mas não hesita diante da violência, para realizar os seus sonhos de domínio. Já no passado cometeu, várias vezes, esse engano, embora projetando-se, na História, como um temível con­quistador. A essa altura, já estamos conversando, como dois velhos amigos que se reencontraram, e não como um agressivo guerreiro, surgido dos registros históricos, com um mero doutrinador espí­rita, do século XX. Ao falar das suas grandezas, me diz, de ma­neira dúbia:
— Você preferiu outros caminhos...
— Sim, é verdade — digo-lhe eu —, preferi a obscuridade.
É isso, precisamente, que ele não entende. Como pode alguém desejar viver na obscuridade, se pode, pelo menos, tentar a glória?
Nem sempre, porém, essas bravatas e ameaças terminam assim, amistosamente, num reencontro de dois seres que seguiram rotas diferentes, mas continuam a estimar-se e respeitar-se.
Usualmente, o rancor está firme atrás delas, e pelo menos algumas das ameaças concretizam-se mesmo, sob variadas formas: pequenos incidentes na vida diária, mal-entendidos entre familiares, doenças inespera­das, aflições maiores.
O problema das ameaças merece alguma digressão mais ampla, porque ele tem implicações muito sérias no trabalho de doutrinação.
Em primeiro lugar, como nos disse um Espírito amigo, certa vez, não podemos colher rosas, sem jamais nos ferirmos nos espi­nhos. Quanta verdade nesta imagem! Por mais estranho que nos pareça, a uma observação superficial, os Espíritos mais terrivel­mente perturbados e desarmonizados guardam em si incrível poten­cial para as realizações futuras — aptidões, experiências e quali­ficações inesperadas, preciosas, e, por mais fantástico que nos pa­reça, uma enorme capacidade de amar.
Um deles, muito difícil, agressivo, poderoso, quase inabordá­vel, não pôde conter sua gratidão, depois de desperto: beijou, com emoção e respeito, a mão de seu aturdido doutrinador, o mesmo que, ainda há poucas semanas, ele daria tudo para destruir.
No trabalho mediúnico de desobsessão, temos, pois, que contar com contratempos, ferimentos e angústias, especialmente se deixar­mos cair as nossas guardas. Isto é válido para todo o grupo, e não apenas para o médium, ou para o doutrinador. O cerco aperta-se, ainda que estejamos guardados na prece e na vigilância.
— “Vigiai e orai” — disse o Cristo, segundo Marcos — “para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Marcos, 14:38.)
O Espírito deseja a libertação, teme novas quedas, sonha com a paz, sofre a ausência de afetos muito profundos e, de certa forma, está pronto para a vida em plano melhor e mais purificado, ou, pelo menos, não tão difícil e grosseiro como este mundo de provas em que vivemos; mas, no fundo, mergulhado no corpo físico, que o sufoca, sua vontade debilita-se e a fraqueza da carne vence as melhores intenções. Os seres desencarnados inferiores que nos vigiam, nos espionam e nos assediam, sabem disso, tão bem ou melhor do que nós, e, enquanto puderem, hão de reter-nos na reta­guarda, pelo menos, como disse um amigo espiritual muito querido, para engrossar as fileiras dos que estão parados.
Mesmo com toda a vigilância, e em prece, continuamos vulne­ráveis. E “eles” sabem disso: quando o esquecemos, eles nos lem­bram:
— Você pensa que é invulnerável?
Quem poderá responder que é? E as nossas mazelas, os erros ainda não resgatados, as culpas ainda não cobradas, as infâmias ainda não desfeitas? Contudo, temos que prosseguir o trabalho de res­gate, a despeito dos espinhos das rosas, das ameaças e, logicamente, de um ou outro desengano maior. É preciso estarmos, no entanto, bem certos de que, em nenhuma hipótese, sofreremos senão na­quilo em que ofendemos a Lei, e jamais em decorrência do tra­balho de desobsessão, em si mesmo. Seria profundamente injusta a Lei, se assim não fosse. Então, vamos ser punidos porque estamos procurando, exatamente, praticar a Lei universal do amor fraterno e da solidariedade que nos recomenda o Cristo?
Não aceitaremos a intimidação, mas não a devolveremos com uma palavra ou um gesto de desafio que de provocação. É neces­sário não intimidar-se diante da bravata, mas sem cometer o en­gano de ridicularizá-la. Há uma diferença considerável em ser íntimorato e ser temerário. Nossa bagagem de erros ainda a resgatar não nos permite usar o manto da invulnerabilidade, mas não deve deter os nossos passos na ajuda ao irmão que sofre. Mesmo que ele nos fira, com a peçonha de seu rancor inconsciente, quando lhe estendermos a mão, para ajudá-lo a levantar-se, ele nos será muito grato se o conseguirmos e, no fundo, bem no fundo de si mesmo, ele, mais do que ninguém, deseja e espera que nós consigamos salvá-lo, pois que, por si mesmo, com seus próprios recursos, ele não o conseguiu ainda. E, afinal de contas, se os espinhos nos ferirem, aqui e ali, também estaremos nos libertando das nossas próprias culpas.
A regra, portanto, é esta: não ridicularizar a bravata, nem desafiar a ameaça; não responder à ironia com a mofa; não se intimidar, mas não ser imprudente.
Regra semelhante poderia ser sugerida para responder à pro­posta, e esta precisa, igualmente, de algumas considerações à parte.
Um grupo bem orientado e bem guardado pelos amigos espi­rituais invisíveis começará, pouco a pouco, a obter resultados que surpreenderão não apenas aos próprios componentes encarnados, como também aos desequilibrados Espíritos manifestantes. Estes não compreendem como pode um pequeno grupo, aparentemente tão frágil, tão reduzido, resistir à investida de tremendas e pode­rosas organizações espirituais, votadas, há um tempo enorme, à prática do mal. Inúmeros outros seres e grupos que tentaram, no passado, impedir seus passos, deram-se mal, e foram afastados sumariamente. De modo que, passado o rompante das primeiras agressões, os companheiros desvairados proporão barganhas e tré­guas, ou pequenas concessões. A imaginação é fértil e a experiên­cia deles é longa, no trato de situações como essa, a da resistência inesperada. A proposta pode ser um simples negócio. Estão acos­tumados a tais ajustes e transações. Acham que tudo tem seu preço e dispõem-se sempre a pagar o preço combinado por aquilo que lhes interessa. Se podem comprar nossa desistência, por exem­plo, não hesitarão em propor uma barganha:
— Está bem. O que você deseja para parar com isso?
“Parar com isso” é deixá-los fazer o que entendem, encerrar as atividades do grupo ou dedicar-se a outros afazeres mais inócuos e menos prejudiciais aos seus interesses. Concordarão, por exem­plo, em deixar de atormentar alguém, a que particularmente este­jamos dedicados, ou em liberar outros, que mantêm prisioneiros no mundo espiritual. Ou então nos oferecem coisas mais terra-a-terra, como dinheiro, posição, prazeres.
De outras vezes a proposição é mais sutil. Começam com elo­gios, exaltando nossas fabulosas “virtudes”:
— Você não sabe a força que tem! Poderia arrastar multidões, dominar mentes...
A um desses respondi que não sabia, ainda, como dominar a minha... E ele, imperturbável:
— Sabe, sim. Você sabe... Por que não fazemos um acordo?
Outro convidou-me para “pregar”, na sua instituição. Já referi aqui, também, àquele que me propunha desfazer um “trabalho”, feito contra mim, ao que tudo indicava, por ele mesmo... Há os que propõem desembaraçar-nos de pessoas que supostamente nos estariam atrapalhando, bem como, aqueles que nos acenam com “belíssimas” posições, nas suas organizações.
Como dizia há pouco, a imaginação deles é fértil e a habili­dade ilimitada, e muitos são os que se deixam fascinar por esse cântico funesto. Um deles me disse, certa vez, que eu ficaria estarrecido, se soubesse daqueles que haviam concordado com arranjos semelhantes. De um Espírito encarnado, que nosso grupo estava particularmente interessado em socorrer, nos foi dito que desis­tíssemos, porque ele não voltaria: já havia “cruzado a ponte”, para o lado de lá... Tinha tudo quanto queria, estava muito feliz, O negócio, evidentemente, fora bom para ambos os lados, o que, na prática comercial, indica uma boa transação concluída de maneira auspiciosa.
Duas observações básicas é preciso ainda fazer, sobre tais pro­postas e acomodações: a primeira, é mais do que óbvia, ou seja, as concessões que nos oferecem têm elevado preço, por mais ino­centes que se apresentem, à primeira vista. Além do mais, nada impede que desfaçam o trato, a qualquer tempo, quando não mais interessar-lhes o nosso concurso ou caducar a razão pela qual se valeram da nossa ingenuidade infantil. A cobrança virá, então, sobre aquele que concordou com o trato e que, de suposto aliado, passa a vítima inerme de sua própria tolice. A segunda obser­vação é a de que, quando os nossos irmãos atormentados propõem semelhantes transações, com a finalidade de nos levarem a aban­donar o trabalho, deixar de ajudar alguém, ou fazer, enfim, qual­quer concessão, é porque estão começando a sentir-se algo perple­xos, ante a resistência inesperada à sua vontade. Eles não estão habituados a fazer acordos para obter o que podem conseguir pela imposição e pela intimidação, ou pelo terror. Tenhamos, porém, o bom senso de não procurar tirar partido da situação, imatura e precipitadamente. A prudência continua a ser a melhor conse­lheira. Além disso, não podemos permitir-nos utilizar, jamais, mé­todos semelhantes aos seus. Eles compreenderão nossos escrúpulos e nosso jogo aberto e acabarão respeitando-nos por isso, estejam ou não convencidos ante a nossa argumentação. Se a uma proposta, por mais infantil que seja, da parte deles, tentarmos “virar a mesa”, estaremos sintonizando-nos com o mesmo diapasão ético com que eles nos experimentam e, com isso, irá por terra a precária ascendência moral que porventura tenhamos alcançado sobre eles. Não podemos, jamais, esquecer-nos de que são pobres irmãos desorien­tados, desesperados, dispostos a tudo, mas que necessitam de nós. Buscam aflitivamente alguém que não possam corromper com suas propostas, alguém que prove ser pelo menos um pouco melhor do que a média humana, com a qual estão acostumados a lidar. Não alimentemos a ilusão de demonstrar-lhes que, diante de nós, são simples vermes infestados de culpas, votados à maldade intrín­seca, e nós, seres redimidos, que condescendemos em estender-lhes a mão salvadora que, depois, iremos desinfetar. Absolutamente. É bem possível que sejam mais atilados psicólogos do que nós, mais experimentados do que nós, nessas duvidosas transações. Encaram suas tarefas deploráveis como complexas partidas de xadrez, nas quais têm, às vezes, que sacrificar uma dama, ou um bispo valioso, para dar o xeque ao rei. São metódicos, dispõem de amplos e mi­nuciosos planejamentos. Não os subestimemos jamais, que as con­seqüências serão funestas para nós. Escarnecer de suas propostas, porque sentimos que estão fracos e algo perplexos, pode ser desas­troso, e, além do mais, é desumano. São irmãos doentes, que pre­cisam de ajuda e compreensão, e não de que os confirmemos nas suas práticas, retrucando aos seus processos ardilosos com ardis de idêntico teor.
Em situações como esta, costumo ter uma resposta padroni­zada. Não recuso a proposta, e nem a aceito. Confesso-me simples­mente incapaz de decidir, o que é estritamente verdadeiro. Usual­mente, digo qualquer coisa assim:
— Não tenho autoridade para tratar com você. Procure um dos nossos companheiros espirituais, aí no mundo de vocês. O que ele resolver, está bem para mim.
Às vezes eles insistem, pois sabem muito bem o que significa a minha resposta. O tom pode ser este, como tenho observado:
— Está bem, mas você pode resolver a parte que lhe toca. Eles não poderão fazer nada, se não tiverem o grupo, e se você acabar com o grupo, estará tudo resolvido e não mais o incomodaremos. Caso contrário... você sabe...
A posição do doutrinador tem que continuar firme, paciente, tranqüila, e até mesmo respeitosa, pois a dor alheia jamais poderá constituir espetáculo de diversão, a não ser para aqueles que também estejam em desequilíbrio. É preciso respeitá-la. A criatura que está diante de nós, incorporada ao médium, encontra-se desati­nada, necessitada de compreensão e de amparo. Merece nosso res­peito. Seria profundamente desumano negacear com ela, tentando ludibriá-la com os mesmos recursos com que, no seu desespero, tentou enganar-nos. Que ela tente, isso é compreensível; mas que nós, também, experimentemos a mesma arma, é inadmissível. Se não podemos provar-lhes que somos melhores do que eles — e não podemos mesmo, pela simples razão de que não o somos, pelo menos na extensão que a nossa vaidade poderia sugerir — que, pelo menos, evidenciemos que nossos métodos são melhores.
Um pobre irmão desses, extremamente desarvorado, atormen­tou-nos, por algum tempo, com ameaças terríveis; assediou-nos, se­mana após semana; deu murros na mesa, gritou e fez tudo quanto lhe foi possível para destroçar-nos ou quebrar o nosso moral. Acre­ditava na legitimidade incontestável da sua causa. Era profun­damente honesto consigo mesmo e, portanto, todos aqueles que se lhe opunham tinham que ser removidos de qualquer maneira: pela intimidação ou pela lisonja, pela dor ou pela sedução; não impor­tam os métodos, desde que os fins sejam alcançados. Tinha, porém, um grande e generoso coração, totalmente dedicado à sua ingrata causa. Não lutava especificamente contra nós, mas pelas suas idéias, e achava, como tantos outros, que combatia o bom com­bate de que nos falava Paulo. Um dia, convenceu-se de seu engano, com a graça de Deus. Desceu do seu pedestal de poder e arrogân­cia — fora também um grande e, sem dúvida, um pobre transviado, no passado —, viu-se em toda a extensão de seus enganos. Nesse ínterim, um de nossos médiuns teve com ele um encontro, no mundo espiritual, em desdobramento. Estava recolhido a uma instituição socorrista, e arrasado de remorso, pelas atitudes agressivas e des­propositadas ante o seu doutrinador e o próprio grupo, que tanto se esforçava por salvá-lo. Voltou, depois, para dizer-nos desses nobres sentimentos, redespertados em seu coração. Essa história tem ainda um post scriptum. Ele visitou-nos novamente, tempos depois, para despedir-se, muito contrito e infinitamente grato aos pequenos trabalhadores que o ajudaram: preparava-se para reen­carnar, e vinha pedir nossas preces, pois estava mais certo do que nunca do nosso amor fraternal.

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