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1 de mai de 2013

Dialogo com as Sombras 3ª PARTE - (25) O PODER




 25 - O PODER

Muitos dramas, cujos vagalhões vêm rebentar em nossas mesas de trabalho mediúnico, têm o seu núcleo principal na terrível paixão pelo poder. Um Espírito disse-me certa vez em que dialogávamos:
— Sempre fui grande!
Em termos humanos, sim, fora grande, desde remotíssimos tempos, desde o antigo Egito até à Europa moderna. Mas, o que é realmente a grandeza?
“O maior dentre vós seja vosso servidor” — disse o Cristo, segundo Mateus, 23:11, “pois o que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado.”
Em Lucas (22:24-27) o texto é ainda mais explícito:
“Entre eles, houve também uma discussão sobre quem pare­cia ser o maior. Ele lhes disse: Os reis das nações governam como senhores absolutos e os que exercem autoridade sobre elas se fazem chamar benfeitores; mas não assim, entre vós, senão que o maior entre vós seja como o menor, e o que manda, igual ao que serve. Porque quem é o maior, o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Pois eu estou entre vós como aquele que serve!”
Portanto, o conceito de grandeza formulado pelo Cristo não foi o de servir às nossas paixões, mas o de servir ao semelhante. Ele mesmo, cuja verdadeira grandeza era impossível de ser ocultada, confirmava-se como simples servidor.
Em outra oportunidade, utilizando-se de sua impecável didá­tica, Jesus confirmou e ampliou o seu pensamento, como a que nos demonstrar, sutilmente, que não tínhamos noção real do conceito de grandeza:
“Em verdade vos digo que não há, entre os nascidos de mulher, maior do que João Batista; contudo, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.”
Vemos, assim, que os parâmetros humanos de aferição da gran­deza são inaceitáveis em termos espirituais. Entre nós, que tudo -avaliamos segundo a insignificância de nossas medidas, tudo o que sobreleva à mediocridade dos nossos horizontes torna-se grande, mesmo que do lado negativo da ética. É um grande criminoso aquele que mata com requintes de crueldade uma pessoa ou duas, mas é um grande guerreiro aquele que mata milhares. É grande o que disputou e conquistou a sangue e fogo posições de mando e governou multidões com pulso de ferro. São grandes os “prínci­pes” da Igreja, que ampliaram os poderes materiais da organização. É grande o escritor que obteve muito sucesso literário, quer sua obra seja construtiva ou desagregadora.
Nessa invertida escala de valores, a criatura evangelizada, se­rena, amorosa, que leva uma existência a serviço do próximo, em renúncias ocultas e no silêncio do anonimato, passa despercebida, ignorada e até desprezada.
Isto nos induz a colocar sob suspeita nossos critérios usuais de avaliação da grandeza, pois eles nos têm levado, ao longo do tempo, a cometer tremendos enganos. Confundimos, freqüente­mente, o exercício do poder com a grandeza. Os sinais exteriores do poder nada dizem sobre o gabarito moral do Espírito que os detém. E muitos de nós, no passado e no presente, temos nos deixado levar pela perigosa ilusão de que somos grandes, somente porque dispomos de autoridade incontestada; mas, quantas vezes, como simples anões espirituais, não temos subido as escadarias do poder? O pior, no entanto, é que o vírus do poder nos contamina, e a infecção instala-se em nós, por séculos e séculos. Espíritos atin­gidos por esse deslumbramento lamentável arrastam consigo, para o mundo espiritual, a paixão invencível do mando, e lá se juntam às organizações trevosas, que se utilizam deles para oprimir e es­palhar a desarmonia por toda parte. Eles se prestam a isso, con­tanto que lhes sejam conferidos os sinais externos do poder, as insígnias, os séquitos, os tronos, bem como o comando de vastas organizações opressoras, pois não aprenderam, ainda, a viver fora desse clima.
A decepção de alguns desses Espíritos é terrível, quando se encontram privados daquilo que constitui o próprio ar que respi­ram. Kardec nos preservou a comunicação de uma rainha indiana de Ouda. (“O Céu e o Inferno”, Segunda Parte, capítulo VIL.)
—  “Vós, que vivestes nos esplendores do luxo, cercada de honras, que pensais hoje de tudo isso?”
— “Que tenho direito.”
—  “A vossa hierarquia terrestre concorreu para que tivésseis outra mais elevada nesse mundo em que ora estais?”
—  “Continuo a ser rainha... Que se enviem escravas, para me servirem!... Mas... não sei... parece-me que pouco se preo­cupam com a minha pessoa, aqui... Contudo, eu... sou sempre a mesma.”
E depois:
—  “Tendes inveja da liberdade de que gozam as européias?”
—  “Que poderia importar-me tal liberdade? Servem-nas, acaso, de joelhos?”
Outra grande dama, ex-rainha da França, em condições melho­res do que a da infeliz rainha indiana, encontrou em elevada posição, no mundo espiritual, alguém que fora obscuro servidor da sua corte e de quem agora ela dependia para ser ajudada.
Muitos são, no entanto, os que se revezam nos postos de mando, aqui e lá, montando e dirigindo terríveis organizações especializa­das no crime espiritual.
Dificilmente comparecem aos trabalhos de doutrinação os ver­dadeiros chefes dessas organizações. Vêm geralmente seus emis­sários mais credenciados, assessores de confiança, seus destacados líderes.
Um deles, que se apresentou como líder religioso, me disse:
— Meu Imperador é Fulano — e disse o nome de alguém que, em tempos idos, comandou exércitos e povos.
Mesmo com os chefes menores, o trato é difícil, e não de­vemos alimentar esperanças de rápidas e radicais conversações. Épreciso compreendê-los, no próprio contexto em que vivem. Como vão deixar o poder? Entregá-lo a quem? E por quê? Como irão viver sem as pompas, as ordens, as expedições, os planejamentos, as verdadeiras campanhas que desencadeiam contra aqueles que con­sideram seus irredutíveis adversários? Como voltar a ser um sim­ples e endívidado Espírito, despojado de suas próprias “defesas”?
Sim, porque sabem muito bem que, enquanto permanecerem ligados àquelas tenebrosas estruturas, estão adiando o momento do encontro consigo mesmos, com suas mazelas, suas consciências, seus remorsos. Enquanto estão ali, permanecem ao abrigo dos olhares amargurados de antigos amores, que o tempo não apagou. Por que trocar a glória, que chega às fronteiras da “divinização”, pelo so­frimento anônimo, pela reencarnação de resgate?
O único jeito, a única saída possível, está em agarrarem-Se te­nazmente ao poder, que exercem com a sensibilidade anestesiada. É por isso, também, que se recusam terminantemente a um diálogo que possa arrastá-los para a faixa da emoção, da brandura, da com­paixão, da sentimentalidade. Enquanto estiverem no exercício do poder estarão ao abrigo da dor maior, de enfrentarem a si mesmos. É mais fácil enfrentar a dor dos outros.

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