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25 de jun de 2013

31 - LINGUAGEM ENÉRGICA



Sem dúvida alguma, a tônica do nosso diálogo com os irmãos desnorteados é a paciência, apoiada na compreensão e na tolerân­cia. Nada de precipitações e ansiedades. Bastam as ansiedades do irmão que nos visita e, se pretendemos minorá-las, temos que con­trapor, às suas aflições, a nossa tranqüilidade. Se o companheiro éagressivo e violento, o esforço deve ser redobrado, da nossa parte, em não nos deixarmos envolver pela sua “faixa”. A voz precisa continuar calma, em tom afável, sem precisar ser melosa; mas éimprescindível que seja sustentada pela mais absoluta sinceridade e por um legitimo sentimento de amor fraterno, sem pieguice.
Isto não exclui, por certo, a necessidade, às vezes, de uma pa­lavra mais enérgica; mas, o momento de dizê-la tem que ser bus­cado com extrema sensibilidade, tato e oportunidade. E, se for necessário dizê-la, é preciso que a voz não se altere a ponto de soar violenta, autoritária ou rude. A energia não está no tom de voz, mas naquilo que dizemos.
Certo Espírito apresentou-se-nos, certa vez, em estado de ter­rível agitação. Caíra em poder de implacável hipnotizador, que o reduzira ao mais extremo desespero. Aproveitando-se da incorporação ao médium e da proteção do grupo, falou aflitivamente de seu problema. Este é o irmão a que já me referi, ao contar que, depois de recolhido pelos trabalhadores espirituais, recaíra em poder de seu perseguidor. Quando me levanto para ajudá-lo, re­clama, em altos brados e com desprezo, que de nada valem meus passes e minhas preces. Deseja morrer, desintegrar-se. Contradi­toriamente, diz, a seguir, que se vingará implacavelmente de seu obsessor, quando conseguir pegá-lo. Está possuído de intenso ódio e de muita revolta. A uma palavra minha, diz que sim, que pediu a Deus, mas que isso de nada adiantou.
Este é o momento em que certa dose de energia torna-se de imperiosa necessidade. Ele foi recolhido, pelo nosso grupo, em es­tado de pânico e aflição indescritíveis, pois desencarnara, muito jovem, em condições dolorosas e trágicas. Foi socorrido e encami­nhado a uma instituição hospitalar do Espaço. A despeito de todo o cuidado, e do carinho de nossos dedicados irmãos, resvala nova­mente no precipício da desarmonia, que o recoloca à mercê de seus perseguidores. Agora, mais desarvorado do que nunca, exige uma solução para o seu caso, deblaterando contra a ineficácia dos nossos métodos de trabalho.
É hora de falar-lhe com mais firmeza, ainda que sem o mais leve traço de arrogância, de ressentimento ou de condenação. Ele precisa, ainda e sempre, de compreensão e de esclarecimento, mas tem que reconhecer, também, que Deus não se acha à nossa dis­posição, para atender a qualquer capricho ou cumprir ordens.
Digo-lhe, pois, que ele não pediu a Deus; ele tentou exigir de Deus um imediato alívio para os seus males, que, afinal de contas, são decorrência de suas próprias faltas contra a lei divina. Não é assim que as coisas funcionam. Por outro lado, também não posso lhe tirar a dor, como num passe de mágica. Ele deve convencer-se de que precisa ser mais humilde, mais paciente. A essa altura, porém, seu hipnotizador, que se achava presente, recomeçou a in­dução, para impedir que ele escapasse novamente do seu poder.
Um deles tentou aliciar a atenção de um dos componentes do grupo — uma jovem senhora — explorando sua repugnância por baratas e ratos. Dizia que a sala estava cheia de baratas “astrais”,
que subiam pelo corpo dela, e de ratos que corriam de um lado para outro. Tomou um pequeno lenço, que se achava sobre a mesa, e largou-o sobre as mãos que ela conservava pousadas sobre os olhos fechados. Ela se manteve firme, e eu também não lhe disse nada, deixando-o “brincar” um pouco. Durante nossa conversa an­terior — confirmada no prosseguimento do diálogo — ele nos dera inequívoca demonstração de capacidade intelectual, poder de ora­tória, habilidade como argumentador, agressividade e arrojo. Era um líder, um “professor” de Doutrina Espírita. A cena com as “baratas” e os “ratos astrais” era, no mínimo, incongruente, e revelava desespero, como quem apela para um recurso extremo, quando falham os outros. Percebera, por certo, que não conseguia convencer-nos pela argumentação. Achei, porém, que não era ainda a oportunidade de falar-lhe, mais a sério, sobre os seus “recursos”.
Na reunião seguinte pareceu-me que o momento propício che­gara. A certo ponto, desviei sua conversação animada, sobre a “doutrina” de Kardec, para o problema das baratas:
— Como é que você — disse-lhe eu —, um homem assim inte­ligente e culto, que se diz líder e mestre, faz uma brincadeira como aquela, de baratinhas e ratinhos astrais?
Ele parece ter sido apanhado de surpresa; pensou, talvez, que, como eu deixara passar a ocasião de falar, na sessão anterior, o episódio ficara esquecido. Algo desconcertado, disse-me, evasiva­mente, como quem se desculpa:
— Foi o que encontrei aqui...
Mas estava evidentemente desbalanceado, e, muitas vezes, um pequeno incidente, como este, fácilita-nos o acesso à verdadeira motivação da sua problemática. Mas, não nos esqueçamos, o mo­mento tem que ser oportuno e, para isso, só podemos contar com a intuição, dado que os Espíritos que nos ajudam não nos trans­formam em meros repetidores de suas palavras; eles nos orientam e assistem, mas deixam a nosso critério a condução do diálogo. Raramente interferem e, quando isto se torna imperioso, fazem-no com extrema discrição, limitando-se a transmitir uma pequena in­formação, para que o próprio doutrinador a desenvolva, com seus recursos.
Em casos excepcionais, sob condições especiais, mentores espi­rituais, presentes, incorporam-se em outros médiuns, para doutrinar o            Espírito manifestado. É comum, nestes casos, falarem com inusitada energia e firmeza, e, no entanto, sem o menor traço de rancor, de impaciência, de agressividade. Um desses companheiros amados, certa vez disse um “Basta!”, com incontestável autoridade, ao Es­pírito que deblaterava com arrogância e impertinência.
O problema da palavra enérgica é, pois, extremamente delicado. Se pronunciada antes da hora, no momento inoportuno, pode acar­retar inconvenientes e perigos incontornáveis, pois que não pode­mos esquecer-nos de que os Espíritos desarvorados empenham-se, com extraordinário vigor e habilidade, em arrastar-nos para a alter­cação e o conflito, clima em que se sentem muito mais à vontade do que o doutrinador. Se este “topar a briga”, estará arriscando-se a sérias e imprevisíveis dificuldades. Não pode, por outro lado, revelar-se temeroso e intimidado. Esse meio-termo, entre destemor e intrepidez, é a marca que distingue um doutrinador razoável de um incapaz, pois os bons mesmo são rarissimos. E aquele que se julga um bom doutrinador está a caminho de sua própria perda, pois começa a ficar vaidoso. Os próprios Espíritos desequilibrados encarregam-se de demonstrar que não há doutrinadores impecáveis. Muitas vezes envolvem, enganam e mistificam. Se o doutrinador julga-se invulnerável e infalível, está perdido: é melhor passar suas atribuições a outro que, embora não tão qualificado intelectual-mente, tenha melhor condição, se conseguir manter-se ao mesmo tempo firme e humilde.
A interferência enérgica é, pois, uma questão de oportunidade; precisa ser decidida à vista da psicologia do próprio Espírito mani­festante, e da maneira sugerida pela intuição do momento. Nunca deve ir à agressividade, à irritação, à cólera, e jamais ao desafio. Qualquer um de nós redobra suas energias, quando desafiado. É hu­mano, é incontestavelmente humano, esse impulso. Quando alguém põe em dúvida um, que seja, dos nossos mais modestos atributos, tratamos logo de provar que, ao contrário, é naquilo que somos bons.
Ademais, seria desastroso recuar, intimidado, depois de uma observação mais enérgica. O Espírito perturbado tiraria disto o melhor partido possível, para os seus fins. Uma das muitas armas que manipulam, com extrema habilidade, é a do ridículo. Se cair­mos na tolice de dizer-lhes algo que não podemos sustentar, ou em que transpareça uma pequena pitada de cinismo, de hipocrisia ou de prepotência, estaremos em apuros muito sérios.
É preciso, pois, estarmos atentos e preparados para interferir com mais energia, certos de que firmeza não é estupidez, nem grosseria, e que o mais profundo amor fraterno pode e deve co­existir no mesmo impulso de exortação franca e corajosa. Preci­samos saber quando dizer que eles estão errados, e por quê. Nada de gritos e murros na mesa.
Esses momentos de firmeza são também necessários quando o Espírito entra no processo que costumo chamar de “crise”, ou seja, quando começa a perceber que está cedendo. Ainda veremos isto mais adiante, neste livro. Baste aqui dizer que a energia, neste caso, tem que ser ainda mais adoçada, encorajadora, e não repressiva.
Em suma, a palavra enérgica é necessária, indispensável, mesmo, em freqüentes ocasiões, porque em muitos casos é fator decisivo no despertamento do irmão aturdido; mas deve ser dosada, com ex­trema sensibilidade, e, o momento certo, escolhido com seguro tato.

DIALOGO COM AS SOMBRAS
HERMÍNIO C. MIRANDA

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