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20 de set de 2013

Vida familiar e profissional de Bezerra de Menezes


 

Luciano Klein relata alguns dados da pesquisa que desenvolve sobre Bezerra de Menezes há 15 anos. O entrevistado é presidente da Federação Espírita do Estado do Ceará, autor de livros espíritas, pós-graduado e docente na área da História.

Reformador: Há alguma nova informação sobre a família de Bezerra?


Klein: À medida que aprofundamos nossas pesquisas sobre a vida do Dr. Bezerra de Menezes, conseguimos descobrir novas informações, por exemplo, a relação de um número cada vez maior de filhos. Do primeiro casamento com Maria Cândida de Lacerda Prego, o casal teve apenas dois garotinhos,Adolfo e Antônio, pois Maria desencarnou, prematuramente, vitimada por uma febre tifoide, em 1863, aos 19 anos. 
Ao consorciar-se com Cândida Augusta, em 1865, irmã materna da primeira esposa, o casal veio a ter mais treze filhos, nove mulheres e quatro homens. Portanto, foi pai de quinze filhos, uma prole considerável como todo nordestino de seu tempo. Como pai de família, era de uma dedicação plena para com os filhos, dando-lhes, em seu tempo, a melhor educação, matriculando-os nos melhores educandários da Corte. Esse zelo e amor pelos seus era, de igual forma, extensivo a outros agregados que passaram a viver sob sua tutela. Exemplo disso foi João Batista de Maia Lacerda, diretor da Federação Espírita Brasileira no início do século passado.Maia Lacerda, natural de Minas Gerais, era sobrinho de Bezerra e, com o consentimento de sua genitora, foi, ainda criança, adotado pelo tio, seguindo-lhe os passos nas atividades espíritas, convertendo-se no seu braço direito.

Reformador: Há alguma curiosidade sobre o dia-a-dia da família?


Klein: Um fato curioso que podemos compartilhar é que o casal Bezerra e Cândida Augusta, na década de 1880, costumava levar os filhos aos estúdios da época, a fim de tirar fotografias. Alguns retratos eram reproduzidos em quantidade e enviados aos seus familiares residentes na Bahia, Rio Grande do Norte, Pará e Ceará. Através de contatos com descendentes de Bezerra no Rio de Janeiro e em Fortaleza, obtivemos algumas preciosas imagens. Conseguimos, entre outras, fotografias de quatro de suas filhas. O interessante é que as meninas posavam para o fotógrafo, individualmente, porém, mesmo aparentando tamanhos diferentes, utilizavam o mesmo vestido.
Reformador: Bezerra passou poralguma prova difícil no ambiente familiar?

Klein: Não obstante as alegrias que desfrutou na companhia dos filhos e da numerosa família, ele passou por provas acerbas. Dos quinze filhos, acompanhou a desencarnação de oito deles. Seu sofrimento foi mais intenso talvez porque, sendo médico, viu-se impotente diante das enfermidades que os vitimaram. Quase todos desencarnaram em decorrência de tuberculose e febre tifoide, doenças fatais naquela época. A década de 1880 foi, provavelmente, a de maior sofrimento para ele. Mesmo tendo abraçado as ideias espíritas e ter, em agosto de 1886, feito seu célebre discurso de adesão ao Espiritismo no salão da Guarda Velha, viu partir muitos dos seus mais caros afetos.
  
Em 1880, sua sobrinha Ursulina, que muito amava. Em 1881, o sogro e amigo, Mariano José Machado. No ano seguinte, D. Fabiana,a mãe querida, falece em Fortaleza. Em 1887 - dois terríveis golpes –, o filho Antônio, o estudante de Medicina sobre quem Bezerra entretece comentários no seu livro A loucura sob novo prisma, com apenas 25 anos, e Maria, de 22 anos, a primogênita do segundo casamento. Em 1888, seu irmão mais velho, Manoel Soares, esteio moral dos Bezerra de Menezes no Ceará. E, ainda em 1889, uma filhinha, Cristiana, de apenas nove aninhos. Apesar dessas duras provas, ele as enfrentou com resignação e serenidade, robustecendo cada vez mais a sua fé...


Reformador:
 Como ele desenvolveu a atividade médica?

Klein: Ao conhecermos um pouco mais de seus trabalhos na área da saúde, surpreendemo-nos com sua grande projeção e fama, não somente em relação aos pobres que assistiria desprendidamente e por amor, ao longo da vida, mas, sobretudo, pela popularidade que seu nome passou a ter mercê do seu talento como esculápio e de sua competência como cirurgião. Logo após concluir a Faculdade de Medicina, seu nome já se evidenciava como discípulo do Dr.Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, considerado a figura exponencial da cirurgia no Brasil. Manoel Feliciano fora seu professor, admirador e testemunha de seu casamento com Maria Cândida, em 1858. Ainda nessa década, Bezerra de Menezes, além de trabalhar como médico militar, já era membro da Academia Imperial de Medicina e redator de sua revista. Bezerra teve, também, atuação importante como sócio e presidente da Sociedade Físico-
Química, mais tarde Instituto Médico Brasileiro.
A Sociedade Físico-Química, fundada em 1853 por jovens estudantes de Medicina e instalada em 1854, tinha por finalidade promover o estudo da Física e da Química, ciências importantes, à época, para uma boa formação médica. Desde outubro de 1857, seus trabalhos passaram a ser publicados na Revista da Sociedade Físico-Química. Bezerra foi presidente da Sociedade no biênio 1857-1858 e também um dos membros da comissão de redação de sua revista.
A Sociedade Físico-Química realizou regularmente seus trabalhos até maio de 1858. Durante a gestão de Bezerra, os seus associados, pretendendo aumentar o campo das indagações, resolveram ampliar as finalidades desta Sociedade para abranger o estudo de todas as ciências que faziam parte do conhecimento médico. Dessa forma, em sessão do dia 6 de maio de 1858, a Sociedade foi reorganizada, mudando a denominação para “Instituto Médico Brasileiro”. Bezerra foi escolhido para seu presidente, permanecendo à frente do Instituto Médico Brasileiro até meados da década seguinte, quando a Associaçãodeixou de existir.

Reformador: E sobre a atuação em hospitais?


Klein: No final da década de 1850 e no decênio seguinte, Bezerra de Menezes trabalhou nos principais hospitais e casas de saúde do Rio de Janeiro. De fato, fundou com um colega a Casa de Saúde Godinho & Bezerra, situada no Morro da Saúde e instalada em 1861. Bezerra havia deixado seu emprego no Hospital Militar a fim de seguir a carreira política sem, no entanto, descurar se de suas atividades médicas.
Foi, então, convidado pelo jovem e abastado médico Pedro Ferreira de Almeida Godinho, proprietário desse estabelecimento, para constituir uma sociedade. Godinho fora companheiro de Bezerra na faculdade, tendo concluído seu curso em 1859, três anos após o colega cearense. Bezerra não possuía recursos financeiros que lhe possibilitassem participar dessa sociedade. Foram, decerto, a amizade e a admiração pela sua proficiência médica que motivaram o Dr. Godinho a convidá-lo para seu parceiro nessa empreitada. A sociedade duraria até meados desse mesmo decênio em face da intensificação das atividades de Bezerra na política. A amizade desses dois grandes amigos permaneceria, na Terra, até a desencarnação de Bezerra, em 1900.

Reformador: Fale-nos um pouco mais sobre essa casa de saúde, pois nos parece ser algo inédito nos fatos da vida de Bezerra. 

 
Klein:
 Pesquisando sobre essa clínica, encontramos algumas informações como as que o leitor pode observar em propaganda divulgada, naquele tempo, e que ilustra esta entrevista. Na relação de médicos, constavam os nomes dos mais conceituados da época, inclusive o de seu velho mestre Manoel Feliciano. A Casa de Saúde Godinho & Bezerra localizava-se na Rua da Saúde, em bela chácara onde existia vistoso palacete que pertencera ao rico proprietário de um trapiche do bairro, o fidalgo do Paço, Cândido Rodrigues Ferreira.
Esse prédio fora construído nas fraldas do Morro da Saúde, em terreno elevado e plano, protegido por sólidas muralhas de pedra. Na época, o proprietário da mansão já havia desencarnado e o arrendamento da chácara, localizada na Rua da Saúde, 161, à firma “Godinho & Bezerra” foi feito pela viúva Ferreira com autorização de obras no prédio necessárias à sua utilização como casa de saúde. Curiosamente, pesquisando no Almanak Laemmert os endereços onde Bezerra de Menezes atendia, verificamos em sua edição de 1864, que Bezerra residia na Rua da Saúde, 158. Ele morava numa casa contígua pertencente à própria instituição.Naquele tempo, era bastante comum alguns médicos optarem por morar no hospital onde exerciam suas funções, em razão da excessiva carga de trabalho.

Reformador: Bezerra deixou de clinicar quando exerceu seus mandatos políticos?

Klein: Em hipótese alguma, seu acendrado amor pela Medicina não o permitiu. Bezerra teve sempre uma capacidade extraordinária para realizar múltiplas atividades. Serviu a ilustríssima Câmara Municipal do Rio de Janeiro durante duas décadas, quase ininterruptamente, em mandatos algumas vezes concomitantes aos de deputado geral, que, naquele contexto, eram permitidos pela Constituição vigente. Portanto, conseguiu conciliar suas atividades na vereança, na Câmara dos Deputados e na Medicina. Em 1864, por exemplo, além de suas atividades como vereador e na Casa de Saúde, ele ainda atendia num consultório localizado no primeiro andar da Rua São Bento, 48, onde trabalhava das 9 às 14 horas.

Reformador: 
Sobre os trabalhos na célebre Farmácia Cordeiro, encontrou algo de novo em suas buscas?

Klein: Na Farmácia Cordeiro, originalmente conhecida como Farmácia e Laboratório “A. Cordeiro & Companhia”, Bezerra de Menezes pôde exercer o seu ofício de médico nos últimos quatro anos de sua vida física. Ali, dedicou-se, totalmente, às inumeráveis criaturas sofridas que o procuravam no afã de obterem o lenitivo e o bálsamo reconfortante às suas dores. Naquele lugar, ele foi, em plenitude, um verdadeiro Apóstolo e Médico de Almas. A farmácia era propriedade de Antônio Guilherme Cordeiro e de seu pai José Guilherme Cordeiro, grandes amigos de Bezerra. Integrava, também, a Sociedade da firma o Dr. Fernando Ferreira da Costa que clinicava ao lado do colega cearense.

Porém, a novidade é que descobrimos, nessas buscas, algo que nos surpreendeu sobremaneira: o prédio no qual durante muito tempo, ao longo do século passado e início deste, funcionou a Farmácia Cordeiro, na Rua da Constituição, não era o exato local onde Bezerra, pelo menos fisicamente, realizou o atendimento de sua numerosa clientela. Pesquisando em diversos periódicos, confirmamos ter a farmácia se estabelecido, inicialmente, na Rua Vinte e Quatro de Maio, 116, na Estação Sampaio. Posteriormente, transferiu-se para a Praça Tiradentes, onde permaneceu pouco tempo, passando depois, em 1908, para a sua sede definitiva na Rua da Constituição, 35, depois 45. Com esses novos dados, confirmamos, portanto, que o Dr. Bezerra atendeu seus pacientes no prédio situado na Rua Vinte e Quatro de Maio, pois desencarnou no final do século XIX. Ademais, a drogaria situava-se a poucos metros de sua residência. Nesse período, Bezerra de Menezes, envelhecido prematuramente em decorrência de suas provas acerbas e das noites perdidas em vigílias fecundas, morava na Rua Vinte e Quatro de Maio, 93.
A proximidade da farmácia de sua casa pode explicar, ainda, o fato de ter ele, por vezes, conforme asseveram algumas biografias, clinicado em horários que adentravam pela noite. Em 1900, quando Bezerra desencarnou, a farmácia atendia seus fregueses em dois endereços, um na Rua Vinte e Quatro de Maio e o outro, no primeiro andar da Rua Primeiro de Março, 32, numa área mais comercial. Para fundamentar essas informações, ilustra esta entrevista uma excelente propaganda do Laboratório e Farmácia Homeopáticade A. Cordeiro & Cia, pinçada do Almanak Laemmert de 1900.

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