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12 de jul de 2014

Entre a Caça e o Cuidado

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco



Hoje se deu uma cena em nosso café da manhã, que me levou a tecer essas reflexões e voltar ao blog, de que andei distante alguns meses, por excesso de trabalho.
Estávamos em família, na presença de meus sobrinhos, discutindo a questão do vegetarianismo e do veganismo, com prós, contras, dificuldades de adesão, perspectivas futuras etc. E então, bem nesse momento da conversa, adentrou na sala meu gato branco, Gorki, por quem sou apaixonada, e provocou uma gritaria generalizada e o choro do meu sobrinho pequeno. Triunfal e desafiador, Gorki carregava um filhote de passarinho agonizante. Um passarinho que víamos por aqui nos últimos dias, em cima do muro, alimentado pela mãe. Por alguns minutos, o bichinho se debateu entre os dentes de Gorki e depois morreu.
Grande comoção entre todos. Compaixão, repreensão ao gato, que apenas cumpria seu instinto de caça.
Mas, em cima da mesa, tínhamos peito de peru (que vem também de uma ave)…
Então pensei na distância evolutiva que nos separa do gato e considerei que de fato devemos superar rapidamente esse instinto de caça, que nos assemelha aos felinos, tão belos, mas que ainda vivem sob o jugo do determinismo biológico e não no plano da liberdade, como nós, humanos.
O que se dá é que o ato brutal da morte – e o que é pior, da tortura que envolve a vida inteira dos animais explorados pela indústria alimentícia – está distante dos nossos olhos. Não vemos, como vimos hoje no café da manhã, o bichinho se debatendo para morrer. O produto nos chega ao prato já disfarçado. Depois de ter passado por inúmeros processos, compramo-lo numa embalagem que em nada lembra um matadouro – o que nos impede muitas vezes de tomar consciência do que estamos comendo. Ninguém hoje ali no café da manhã poderia imaginar comer o passarinho agonizando aos nossos olhos. Todos nos vimos possuídos de compaixão e náusea. E no entanto, estávamos comendo um produto que veio da carne de centenas de aves abatidas, que passaram por uma agonia muito mais cruel e prolongada do que a experimentada ali pelo pássaro, caçado por Gorki.
Hoje, graças à internet, às redes sociais, aos vídeos no youtube, às campanhas virtuais, podemos diminuir essa distância que existe entre aquilo que comemos e a origem dessa comida. Matadouros, indústrias alimentícias frequentam aos montes nossas páginas, provocando a indignação de muitos. Assim, vemos que cada vez mais pessoas no mundo tem se comovido com o sofrimento dos animais e tem se engajado em movimentos de abolição da carne na dieta humana. Está crescendo essa consciência a olhos vistos. Mas há outros tantos que zombam, riem e se refugiam em bifes sangrentos, afirmando que a carne se alimenta da carne.
Se um dia foi necessário, mas não absolutamente imprescindível do ponto de vista biológico (porque nosso intestino longo indica que somos naturalmente herbívoros), que nos alimentássemos da matança de animais, hoje sabemos cientificamente que não temos precisão de carne para sobrevivermos fortes e saudáveis. Ao contrário, a carne – sobretudo a vermelha e sobretudo essa carne industrializada cheia de hormônios e antibióticos – é mesmo prejudicial à saúde.
Já estamos a milhares de anos de nossa entrada no reino humano e continuamos exercendo nosso instinto de caça. Mas é verdade que, nesses milhares de anos, aprendemos também a cuidar. E cuidamos (embora muitos ainda torturem, abandonem e até os comam) de gatos, cachorros, passarinhos, cavalos… Nossa atitude em relação aos animais revela bem nosso estado evolutivo. Caçadores brutais aprendendo pouco a pouco a cuidar dos outros seres vivos. Estamos no meio do caminho, mas urge avançar com mais afinco na direção de superar os instintos felinos, para assumirmos nossa posição de humanos cuidadores.
É verdade que o caminho é difícil: o atavismo da carne, o cheiro do sangue ainda atrai a muitos. Há ainda tantos nesse mundo que não se satisfazem apenas com o sague dos animais, mas ainda se embriagam com o sangue humano, nas guerras, nos massacres, nos assassinatos individuais ou em massa.
E o instinto de caça não se manifesta tampouco apenas na matança de animais: quando vemos homens estuprando mulheres ou pedófilos roubando a inocência da infância – todos esses gestos, que povoam fartamente nosso mundo, revelam o quanto de brutalidade existe ainda nos seres humanos.
O que poderia então nos levar a um mundo em que essa selvageria toda passasse a ser um pesadelo do passado? O que fazermos para caminhar firmemente na direção do cuidar, superando a fase da caça?
A resposta como sempre está na educação
A nossa educação é, como sempre costumo dizer, um processo de dessensibilização. As crianças que hoje presenciaram a morte do passarinho ficaram extremamente compadecidas e tocadas. O mais novo ficou mais chocado. O mais velho menos. Esse mais velho, anos atrás, me disse que eu não deveria nunca jogar chicletes nas ruas, porque os passarinhos poderiam se confundir, pensando que fosse algo realmente doce e enroscarem o bico no chiclete, morrendo de fome ou sufocados. Na semana passada, flagrei-o querendo jogar o chiclete no jardim e perguntei: você não me disse que não era para fazer isso? Resposta: “eu não estou ligando muito mais para isso”.
O que faz com que a criança “não ligue mais para as coisas” diante das quais ela costumava se mostrar sensível, indignada, curiosa, perguntadeira, engajada? É justamente esse processo de escolarização que mata a sensibilidade, embota a compaixão, cala a indagação e abafa a investigação.
Claro, de um lado o embotamento provocado pela escola, do outro a excitação dos instintos de caça, agressividade e posse, através de certos filmes, jogos, propagandas na TV… e de outro ainda, o despertar do atavismo milenar que todos trazemos de um passado de violência e dominação… e estão feitos o homem e a mulher (embora mais o homem) insensíveis, competitivos, caçadores, que tratam o outro – ser humano ou animal – como coisa a ser conquistada, destruída, devorada.
Há um lado divino em todos nós que se manifesta na primeira infância – são raras as crianças, que por um ímpeto do passado ou por uma violência sofrida agora, se mostram insensíveis. Esse lado divino, que chora com a morte de um passarinho, tem que ser mantido, estimulado… Esse lado divino não poderia sucumbir, e sucumbe, numa família negligente, apenas preocupada com valores materiais; numa escola seca, competitiva; numa sociedade de consumo em que a própria criança nada vale, porque nos interessa apenas fazer dela um consumidor obeso e desejante…
A criança que mantivesse a sua compaixão pelos animais, a criança que fosse estimulada em sua sensibilidade diante da natureza, a que fosse garantida uma formação sólida, crítica e consciente – essa criança será, sem nenhum sacrifício, vegetariana.
É para isso que esperamos caminhar!


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