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11 de ago de 2013

Melindrismo


   “Toda a casa dividida contra si mesma não subsistirá”. Jesus.  (Mt., 12:25.)

Uma equipe de Espíritos capitaneada pelo Dr. Bezerra de Menezes foi convocada a prestar socorro de emergência em uma determinada Casa Espírita, não pelas condições oferecidas pelos trabalhadores da Casa, mas pelos méritos da criatura que ia receber o benefício.
Tratava-se de uma senhora, portadora de um carcinoma em insidioso estágio de metástase, já desenganada pelos médicos, vez que falharam todos os recursos da medicina conhecida na Terra.  A desencarnação fora prevista para dentro de  no máximo 1 ou 2 meses, segundo os prognósticos baseados nos exames realizados nos sofisticadíssimos equipamentos de última geração.    Fazia-se urgente, então, o auxílio da medicina espiritual da qual nós, os encarnados, estamos longe de avaliar a dimensão e a potencialidade dos recursos...
 Os integrantes da equipe à exceção do Dr. Bezerra de Menezes, já veterano das lides socorristas, não disfarçavam a surpresa ao se depararem com a indigência espiritual a que estava relegado aquele Centro Espírita.    Notava-se claramente queali abundavam as reuniões mediúnicas e faltavam as reuniões de estudo.   Os trabalhadores eram extremamente personalistas e ciosos de suas respectivas “sapiências e autoridades”.  Por um “dá cá esta palha” implantava-se a cizânia entre eles, dificultando a aproximação dos Espíritos do Senhor.  A maledicência campeava solta, à vontade, sem peias; a vigilância há muito já havia batido em retirada...
 Não sem despender muita energia para assegurar um mínimo de equilíbrio e higiene no ambiente, a tarefa foi concluída, por sinal com tão retumbante sucesso que até hoje mantém abertas de perplexidade as bocas dos facultativos que prognosticaram, sem apelação, a morte da paciente.
 Na viagem de volta aos páramos celestes, um neófito integrante da equipe espiritual, um tanto reticente e tímido aproxima-se do bondoso Mentor e pergunta:
 “Como é possível tanta dissidência e invigilância num agrupamento de pessoas que dizem estar reunidas em nome de Jesus?   É válida tal “prática” de Espiritismo?
 O “Médico dos Pobres”, com certa tristeza na entonação de voz, respondeu paternalmente:
 “Filho, infelizmente, muitas Casas Espíritas não nos oferecem a mínima condição de trabalho em benefício dos sofredores da Terra.   Mas Jesus, sempre atento, em Sua infinita misericórdia oferece-nos os recursos adicionais para vencermos a má-vontade dos encarnados, quando o beneficiário dispõe de méritos que justifiquem a interferência do Mundo Maior.
 Naquela Casa Espírita que acabamos de deixar não existe, na verdade, a prática do Espiritismo, mas sim a prática do melindrismo,onde pululam os Espíritos malfazejos que estão todo o tempo insuflando a acrimônia entre os “soi-disants”[1]  trabalhadores do Cristo, contumazes na invigilância”.
 Recolhendo-se em profundas reflexões o inexperiente neófito entregou-se a sentida oração em favor dos “Espíritas Imperfeitos” que enxameiam nas hostes espiritistas.
 No Mundo Espiritual, em conversa com o Dr. Odilon Fernandes, Ramiro Gama obteve a seguinte explicação[2]:
 “(...) Existem Centros Espíritas que não se preocupam com reuniões de estudo, apesar de promoverem reuniões mediúnicas a semana inteira...   Os diversos grupos de mediunidade, inclusive, chegam a disputar entre si – médiuns contra médiuns, dirigentes contra dirigentes e, pasmem, Espíritos contra Espíritos!...
 E quando as desavenças existem entre os membros de um mesmo grupo mediúnico?   Aí é que a coisa se transforma num “prato cheio” onde os obsessores se locupletam!   A incompatibilidade entre os integrantes de uma mesma equipe de serviço mediúnico acaba por atrair Espíritos que não comungam as mesmas ideias.   Assim como em uma casa espírita ocorrem lamentáveis divisões, com grupos de tarefeiros se isolando uns dos outros, os Espíritos, que nada mais são do que homens fora do corpo, também mutuamente se rebelam, sustentando entre si intermináveis polêmicas doutrinárias...  Evidentemente que tais coisas ocorrem devido à falta de assimilação dos ensinamentos de Jesus agravada pela falta de estudo doutrinário.   Os médiuns ficam tão preocupados em doutrinar os Espíritos, que não se preocupam coma própria evangelização...  Aliás, nessas casas às quais nos referimos há mais mediunismo que mediunidade.   Em suas múltiplas reuniões, a mistificação e o animismo campeiam, livres, induzindo à fascinação a maioria dos seus componentes.   Um templo Espírita bem orientado preocupa-se, primeiro, em estruturar-se doutrinariamente; apenas quando os seus integrantes revelem, da mediunidade, o mínimo de conhecimento necessário é que se deve cogitar da formação de um grupo consagrado às atividades mediúnicas propriamente ditas.
 As maiores perturbações que pude conhecer assolando uma Casa Espírita começaram justamente através da invigilância do que denominamos reunião de desobsessão...  Uma reunião mediúnica  seja ela qual for, pode, quando não bem orientada, ser uma porta escancarada para o desequilíbrio do grupo onde medrarão infrenes as  disputas, os ciúmes, inveja, personalismo, etc...   Se uma atividade mediúnica qualquer estiver perturbando o bom andamento das demais atividades do Centro, é melhor que ela seja extinta e que, em seu lugar, se crie uma reunião de estudos sistematizados da Doutrina ou... nada.   E que ninguém fique de consciência pesada, se semelhante providência tiver de ser tomada...
 Temos que ser apologistas da mediunidade com responsabilidade.   Os Espíritos irresponsáveis, que enxameiam pelos caminhos da Terra, sentem-se extremamente à vontade nos Centros onde as reuniões de mediunidade prevaleçam sobre as reuniões de estudo; já os Espíritos esclarecidos frequentam com maior assiduidade os grupos onde haja uma predominância do estudo que se alie à prática, ou seja, do conhecimento teórico que se vincule à vivência do bem no cotidiano”.
 Jesus foi muito claro ao ensinar:  (Mt., 5:38 a 42.)
 “(...) Não resistais ao mal que vos queiram fazer; se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhe entregueis o manto; se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil”.
 Desenvolvendo este ensinamento de Jesus, o Mestre Lionês aduz[3]:
 “(...) Dizendo que apresentemos a outra face àquele que nos haja batido numa, disse Jesus sob outra forma, que não se deve pagar o mal com o mal; que o homem deve aceitar com humildade tudo o que seja de molde a lhe abater o orgulho; que maior glória lhe advém de ser ofendido do que de ofender, de suportar pacientemente uma injustiça do que de praticar alguma; que mais vale ser enganado do que enganador, arruinado do que arruinar os outros.   É, ao mesmo tempo, a condenação do duelo, que não passa de uma manifestação de orgulho.   Somente a fé na Vida futura e na justiça de Deus, que jamais deixa impune o mal, pode dar ao homem forças para suportar com paciência os golpes que lhe sejam desferidos nos interesses e no amor-próprio.   Daí vem o repetirmos incessantemente:  Lançai para diante o olhar; quanto mais vos elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos magoarão as coisas da Terra”.
 Ao convidar-nos alançar para diante o olhar”, Kardec nos faz reportar à belíssima página de Emmanuel, intitulada[4]:


A V A N C E M O S !...
 Na estrada cristã, somos defrontados sempre por grande número de companheiros que se aquietaram à sombra da improdutividade, declarando-se acidentados por desastres espirituais:  É o trabalhador que se viu dilacerado pela incompreensão de um amigo; é um missionário que se imobilizou à face da calúnia; é alguém que lastima a deserção de um consócio da boa luta; é o operário que clama indefinidamente contra a fuga da companheira que lhe não percebeu a dedicação afetiva; é o idealista que espera uma fortuna material para dar início às realizações que lhe competem; é a mulher que se enrola no cipoal da queixa contra os familiares incompreensivos; é o colaborador que se escandaliza com os defeitos do próximo, congelando as possibilidades de servir; é alguém que deplora um erro cometido, menosprezando as bênçãos do tempo em remorso destrutivo...
 O passado, porém, se guarda a virtude das experiências, nem sempre é o melhor condutor da Vida para o futuro.   É imprescindível exumar o coração de todos os envoltórios entorpecentes que, por vezes, nos amortalham a Alma.
 Paulo de Tarso, que conhecera terríveis aspectos do combate humano, na intimidade do próprio coração, e que subiu às culminâncias do apostolado com o Cristo, nos oferece roteiro seguro ao aprimoramento escrevendo fraternal carta à comunidade de Filipos:  “(...) Irmãos, quanto a mim, não julgo que haja alcançado a perfeição, mas uma coisa faço, e é que esquecendo-me das coisas que atrás ficam, avanço para as que se encontram diante de mim.
 Esqueçamos todas as expressões inferiores do dia de ontem e avancemos para os dias iluminados que nos esperam.”
 Centralizemos nossas energias em Jesus e caminhemos para diante.
 Ninguém progride sem renovar-se”.  





Rogério Coelho (Muriaé/MG)

reside na cidade mineira de Muriaé, situada na Zona da Mata de Minas Gerais. Jornalista por formação, Rogério Coelho já exerceu diversas funções dentro de casas espíritas, desde secretário até diretor do departamento. Atualmente, preside a Sociedade Muriaeense de Estudos Espíritas e prossegue incansável na divulgação do Espiritismo na tribuna e por meio de jornais e vários periódicos espíritas nacionais e estrangeiros, incluindo-se aí “O Clarim”, a “Revista Internacional do Espiritismo”, ambos de Matão-SP, “O Reformador”, da FEB; “Presença Espírita” da Mansão do Caminho, de Salvador; entre outros.
Autor do livro Visão Espírita do Evangelho.

http://www.redeamigoespirita.com.br


 

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