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29 de jan de 2016

O que fazer pelas crianças?





Aquele, pois, que se fizer humilde e pequeno como este menino, esse será o maior no reino dos céus. Aquele que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim me recebe. (Mateus, 18:4-5.)

O Evangelho está repleto de significados profundos e precisamos compreender seus ensinamentos de acordo com as expressões compatíveis com o nosso entendimento e a realidade em que vivemos.
Os versículos mencionados apontam a criança como um ser humilde, simples, e que agrada ao Senhor. Que possamos adquirir tais virtudes, fonte de todas as demais, com vistas a ampliar nosso progresso espiritual. Da mesma forma, o cristão que se coloca à disposição para amparar os que necessitam, que obedece à lei do amor, que concede proteção ao fraco (como a criança) e o auxilia, oferecendo-lhe o melhor, cumpre a lei do Cristo, envidando esforços sinceros para agir em favor de sua renovação moral.
O nobre Espírito Emmanuel recorre a outra passagem de Jesus, do mesmo evangelista (18:10), para enaltecer a criança, recomendando que não devemos abandoná-la em hipótese alguma:
Não desprezes, pois, a criança, entregando-a aos impulsos da natureza animalizada.
[…]
O prato de refeição é importante no desenvolvimento da criatura, todavia, não podemos esquecer “que nem só de pão vive o homem”.
Lembremo-nos da nutrição espiritual dos meninos, por meio das nossas atitudes e exemplos, avisos e correções, em tempo oportuno, uma vez que desamparar moralmente a criança, nas tarefas de hoje, será condená-la ao menosprezo de si mesma, nos serviços de que se responsabilizará amanhã.1 (Destaques nossos.)
Essas reflexões iniciais, tendo como fundo o chamamento de Jesus, permitem destacar a importância dos valores infantis na existência da criança, que deve ser protegida em todas
as circunstâncias e tratada com respeito e dignidade, não importando sua condição econômica
ou social, conforme a conduta de alguns que desrespeitam nas mais pobres o privilégio de serem exatamente iguais a todas as crianças da Terra. Elas devem crescer como pessoa e cidadão, sem negligenciarmos a consideração que lhes devemos, sabendo que é um ser humano frágil, com dificuldades de se autoproteger e dependente, principalmente dos pais, e outros responsáveis, para desenvolver suas potencialidades, que devem assegurar aos pequeninos o imprescindível encaminhamento intelecto-moral.
Os Direitos da Criança foram instituídos com base na Declaração de Genebra, de 1924, aprovada pelas Nações Unidas, em novembro de 1959, como forma de defendê-las do descaso humano, preservando-as em suas necessidades materiais e espirituais. Entretanto, mesmo conscientes dessa precisão, não é fácil atender a essa nobre causa como gostaríamos, pois as condições de vida material valorizam excessivamente os fatores econômicos e interferem no tratamento dispensado a muitas crianças pobres existentes no mundo e, consequentemente, nos rumos de seu desenvolvimento. O tratamento discriminatório, devido à condição social da pobreza, é um exemplo disso, agravando a situação da criança, sobretudo, em países de grande carência material ou onde predomine a violência em meio às lutas absurdas, travadas entre um mesmo povo.
A foto jornalística,2 do menino sírio de três anos, Aylan Shenu, desencarnado em uma das praias da Grécia (setembro de 2015), tocou-nos sensivelmente. A situação é fruto da catástrofe moderna dos imigrantes que procuram viajar pelo mar em embarcações frágeis, sem nenhuma segurança, fugindo das suas terras de origem, na busca de outras nações que possam recebê-los para recomeço de nova vida, longe das guerras e do terrorismo.
Aylan estava com seus pais e afogou-se junto com a mãe e o irmão maior. A notícia da tragédia, veiculada pela imprensa mundial, causou grande impacto. Muitos refugiados são vítimas da crise, especialmente as crianças. Ajudar a esses Espíritos a regenerar o próprio destino, consoante as dádivas da Justiça divina, promulgadas pela lei de ação e reação, é um dever de todos.
Esses infortúnios resultaram na oportunidade de avaliar objetivamente o que estamos fazendo pela infância, em geral, tendo o Espiritismo como base. Allan Kardec, na excelente análise que faz sobre o “Credo Espírita”, afirma:
Os males da humanidade resultam da imperfeição dos homens: é pelos seus vícios que eles se prejudicam uns aos outros. Enquanto forem viciosos, serão infelizes, porque a luta dos interesses gerará constantes misérias.
Sem dúvida, boas leis contribuem para melhorar o estado social, mas são impotentes para assegurar a ventura da humanidade, porque nada mais fazem do que sufocar as paixões ruins, sem as eliminar. Em segundo lugar, porque são mais repressivas do que moralizadoras […]. Aliás, a bondade das leis guarda relação com a bondade dos homens; enquanto estes forem dominados pelo orgulho e pelo egoísmo, farão leis em benefício de suas ambições pessoais. A lei civil apenas modifica a superfície; somente a lei moral pode penetrar o foro íntimo da consciência e reformá-lo.3
Não é nossa intenção fazer uma análise política e social sobre o momento conturbado que passamos no orbe, mas, infelizmente, as leis da solidariedade humana têm falhado e muitos homens se omitem deixando de fazer alguma coisa, sobretudo pelas crianças. O conceito de civilização ainda necessita de compreensão por parte daqueles que possuem a responsabilidade de liderar nações, sem deixar que sua gente seja atingida pelo extermínio e pela destruição. Em nome do Evangelho, cometem-se absurdos em países que se dizem cristãos!
Para o reajustamento de todos os valores humanos, o Espírito Emmanuel, na magnífica obra A caminho da luz, afirma que “o Espiritismo, na sua missão de Consolador é o amparo do mundo”,4 pois, conforme palavras do generoso mentor:
[…] só ele [o Espiritismo] pode, na sua feição de Cristianismo Redivivo, salvar as religiões que se apagam entre os choques da força e da ambição, do egoísmo e do domínio, apontando ao homem os seus verdadeiros caminhos. No seu manancial de esclarecimentos, poder-se-á beber a linfa cristalina das verdades consoladoras do Céu, preparando-se as almas para a nova era. São chegados os tempos em que as forças do mal serão compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres, e os seus últimos triunfos são bem o penhor de uma reação temerária e infeliz, apressando a realização dos vaticínios sombrios que pesam sobre o seu império perecível.4
A questão inicial, título do presente artigo, sobre o que fazer pelas crianças, propõe aos tarefeiros, chamados a trabalhar com Jesus, intensificar as tarefas da Evangelização Espírita Infanto juvenil na formação da sociedade do Terceiro Milênio, despertando as consciências para as luzes do Evangelho e do Espiritismo, regozijando-se pela missão abençoada que receberam de evangelizar o mundo, para edificação de uma Terra verdadeiramente cristianizada. O Espírito Adolpho Bezerra de Menezes (1831-1900) opina sabiamente sobre essa pendência:
Considerando-se, naturalmente, a criança como o porvir acenando-nos agora e o jovem como o adulto de amanhã, não podemos, sem graves comprometimentos espirituais, sonegar-lhes a educação, as luzes do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, fazendo brilhar em seus corações as excelências das lições do excelso Mestre com vistas à transformação das sociedades terrestres para uma nova humanidade.
O momento que atravessamos no mundo é difícil e sombrio, enquanto as sociedades terrestres necessitam, mais e mais, dos tocheiros do Evangelho, a fim de que não se percam nos meandros do mal ou resvalem nos penhascos do crime os corações menos experientes e as almas desavisadas. […]
[…] é imprescindível abracemos, com empenho e afinco, a tarefa da evangelização junto às almas infanto juvenis, tão carentes de amor e sabedoria, porém, receptivas e propícias aos novos ensinamentos. […]5
Entretanto, sem a ajuda dos pais, nada poderá ser feito pela evangelização da criança e do jovem. Alguns genitores não compreendem a importância da preparação espiritual de seus filhos que lhes enriquecem a conquista educativa no mundo:
[…] Tal medida tem gerado sofrimento e desespero, luto e mágoa, inconformação e dor. Porque, uma vez perdido o ensejo educativo na idade propícia à sementeira evangélica, os corações se mostram endurecidos, qual terra ressequida, árida, rebelde ao bom plantio, desperdiçando-se valioso período de ajuda e orientação. É então que somente a dor, a duros golpes provacionais, poderá despertar para refazer e construir..5
É também o digníssimo Espírito Bezerra de Menezes que distingue a tarefa da Evangelização Espírita Infanto juvenil como a mais significativa dentre as atividades desenvolvidas pelas instituições espíritas, na sua excelente programação de apoio à obra educativa do homem.
Contudo, alerta-nos para a seguinte questão:
[…] o Espiritismo, distante de sua feição evangélica, perderia sua missão de Consolador, renteando-se com a diversidade das escolas religiosas no mundo, que, embora úteis e oportunas, estiolaram-se no tempo absorvendo posições de terminalidade e dogmatismo.
É forçoso reconhecer que o Espiritismo sem aprimoramento moral, sem evangelização do homem, é como um templo sem luz.
[…] uma Instituição Espírita representa uma equipe de Jesus em ação e, como tal, deverá concretizar seus sublimes programas de iluminação das almas, dedicando-se com todo empenho à evangelização da infância e da mocidade.5
Cuidar das crianças e dos jovens é primordial para transformar o mundo em que vivemos em mundo regenerado, assim como das famílias que os acolhem em suas experiências no corpo de carne, ensinando aos filhos princípios doutrinários, principalmente da reencarnação, comprovando que eles estão na Terra para se aperfeiçoarem, acima de tudo, moralmente.
A tarefa é abençoada e não exige grandes sacrifícios de nossa parte. Não exige o saber do mundo. Todos os pais e evangelizadores podem desempenhá-la com a certeza de que conseguirão êxito, esforçando-se pelo adiantamento moral de seus filhos e evangelizandos.

Clara Lila Gonzalez de Araújo

REFERÊNCIAS:
1 XAVIER, Francisco C. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 157.
2 VEJA, Editora Abril, edição 2.442, ano 48, n. 36, p. 67 a 75, 9 set. 20l5. Reportagem: O Mausoléu da Paz.
3 KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. ed. De bolso. Rio de Janeiro: FEB, 2010. pt. 2, cap. Credo Espírita, it. Preâmbulo.
4 XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 25.
5 DUSI, Miriam Masotti (Coord.). Sublime sementeira: Evangelização Espírita Infanto juvenil. 2. imp. Brasília: FEB, 2012. Entrevista com Bezerra de Menezes (Espírito), por meio do médium Júlio Cezar Grandi Ribeiro – 1982, questões 1, 7 e 4, respectivamente.

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