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28 de mai de 2010

Vultos ou alucinações?


Quando Deus fala com você, mesmo que em “pessoa”, Ele fala através de sua mente. Se seu chacra frontal, e não seus olhos, capturaram um espírito real, ainda assim este chacra colocou a imagem em sua tela... mental. E se só você o viu, não precisa ser real para o outro, mas nem por isso deixará de ser real para você.
Quando Chico Xavier nos relatava ter visto intimamente um espírito, o que faz este espírito ser real para mim, que não vi, é a credibilidade do médium, a coerência espiritual que ele tem dentro daquilo que creio, e a sintonia espiritual que eu possa perceber ali.
Se um segundo médium também o percebe, ou diz perceber - e eu não - ainda assim o que tenho é a credibilidade ou sugestionabilidade do outro médium. Até porque, se todos vissem e fotografassem, não seriam mais vultos na clarividência, e sim, um caso de materialização.
Nestas visões, para não depender de sensações que nem todos sempre têm, eu diria que o maior fator de realidade é a mensagem que eles trazem. A maior garantia que um médium nos dá é a própria normalidade e coerência com a qual viva - ou não - aqui. Penso que valha o mesmo para nossa visão.
Em geral, as “alucinações” que merecem nome não vem sozinhas, elas acompanham pessoas que não se adequam bem à vida social aqui, muitas vezes como forma de compensação. E tampouco são neutras; elas costumam ter conteudo simbólico analisável, muitas vezes endossando delírios persecutórios (os “do mal”) ou de grandeza (os “do bem”), em enredos que poderiam figurar de um sonho, psicanaliticamente interpretável, da mesma pessoa.
Já os clarividentes reais, especialmente os que trilham o caminho dos comuns (uma vez que excessões são excessões), percebem vultos sem nenhuma alteração visível do juizo, nem maiores fascinações. Não costumam intepretar as supostas visões (simples, naturais) para endossar credos mirabolantes com falhas de discernimento. O certo é simples, e o simples é certo.
Se quer saber técnica e precisamente se uma visão - que em última análise se dá em sua mente - proveio mesmo do astral ou foi criada ali na mente, eu diria que, simplesmente, não dá para afirmar. Como podemos dar cem por cento de certeza, ainda mais na experiência do outro, se em um nível mais profundo, todos os credos, físicas e filosofias questionam até mesmo a realidade deste plano aqui? E quando é conosco, porque às vezes temos, algumas, tanta necessidade de afirmarmos (aos outros) tratar-se de algo “real”? A realidade interna não deveria ser, em última análise, interior?
Alberto Cabral, filósofo e espiritualista, diz - sobre a realidade projetiva - que só pode garantir ao outro que o que viu fora do corpo não seja ilusão na medida em que possa garantir a realidade daqui, que lhe parece tão coerente quanto. Em seu juizo e discernimento, que nos parecem aceitáveis, o percebido é tão ou mais real, coerente e palpável do que essa realidade que percebemos agora e aqui. Claro que alguém que alucina também pensará o mesmo; entretanto, se a realidade do psicótico parece a mesma no consciente e no inconsciente para ele, por outro lado, a estrutura de sua realidade não parece da mesma coerência para nossa referência aqui.
A conclusão deste raciocínio simples é que o juízo de sanidade é o mesmo: se sou louco por perceber aquilo de lá, deveria o ser por perceber isso de cá; se sou confiavelmente coerente, inteligente e centrado aqui, por exemplo, é com este mesmo juízo que estou afirmando minha visão do acolá. O paradoxo disso é que voa mais alto - e de olhos abertos - aquele que tem os pés no chão.
Bons médiuns são pessoas que, na medida do possível, namoram, têm filhos, amigos, vida sexual sadia, trabalho, lugar no mundo, sentido de vida, relações saudáveis, passado coerente, planos adequados para o futuro, saude psíquica, discurso estruturado, bom humor, senso de realidade... Já outros, têm maior número de “visões” quando deprimidos, ou como principal característica sua “especial” (em meio a uma visível mediocridade), ou no meio de discursos de estruturas mirabolantes, ou substituindo com os “mortos” uma visível deficiência nos relacionamentos com os “encarnados”. Uma tentativa de estrutura no “mundo de lá”, proporcional à sua falta de estrutura no de cá.
Não descarto que até esses últimos captem bastante realidades espirituais, talvez até mais do que a média. Entretanto, qualquer comunicação vinda de uma estrutura assim não tem como deixar de se contaminar pelas compensações e desequilíbrios da estrutura mental.
Há outros critérios, como o da obviedade, o do messianismo, o do simbolismo. Uma pessoa centrada, sem maiores alucinações, vê um vulto repentinamente, não raro quando busca o contato espiritual, e se questiona da realidade disso. É coerente.
 Pessoas simples e sem cultura, não raro “incorporam” entidades que se diferenciam pela humildade, e passam recados com uma sabedoria e simplicidade incomum. Grandes mestres, cujo exemplo de vida atravessa milênios, falam de uma sabedoria também atemporal. Faz sentido.
Por outro lado, alguns menos centrados e medianos, ou até mesmo usuários de substâncias, têm “certeza” de verem Saint Germain ou Jesus numa nave (que assim se vê ou se mostra como especial), em geral, associados a simbolismos do credo ou psiquismo pessoal de quem o viu (cruzes, naves especiais, raios violetas, apocalipses, discursos místicos e confusos), como se fossem arautos de um significativo “tempo futuro melhor que esse” (atual do médium). Boa parte deles se dissocia do “mundo”, dos “prazeres”, da matéria, até mesmo do “sexo” ou da “mente”, os quais significaticamente “condenam” (como se fosse possível transcender aquilo que não viveram). Não percebem vultos entre dúvidas: têm “certeza” do contato com os mestres e deuses, os quais se dignam a vir falar (exclusivamente) com eles, (apenas) para passar recados óbvios, do tipo “irmãos, vocês precisam se amar mais”, “vocês são deuses”, ou “aquilo que você deseja acontece”.
 A aceitação dessas afirmações “esotéricas”, em geral ditas em tom místico que parodia outras religiões e textos de auto-ajuda, não é prova de autenticidade, e sim de obviedade pessoal. Há muitos mestres antigos e profetas atuais que já nos deram a mesma mensagem com maior credibilidade, sendo pouco provável que as estrelas se alinhem para que a Virgem Maria em pessoa escolha, como última chance para a humanidade, repetir o já sabido como se fosse novidade, através de alguém cujo exemplo é diverso da normalidade dos homens e que a Mãe Divina precisaria desesperadamente atingir antes do momento final.

Dois por cento de autenticidade
 Penso, por fim, que certamente há muita mediunidade em boa parte da dita esquizofrenia; mas, talvez na mesma proporção, há muita esquizofrenia em grande parde do que é aceito como mediúnico. Ken Wilber, com base em muita pesquisa, prática e teoria, afirma que no máximo cerca de 2% dos fenômenos alegados são autênticos. Há quem veja ceticismo nisso, mas ele mesmo é dado a paranormalidades e meditações, e não disse não crer, ao contrário: revela ter constatado fenômenos reais, e muitos; mas não a maioria dos que se dizem ser, bem intencionados ou não.
Este debate todo é interessante, mas se reparar bem na incerteza que repousa em nossa condição, entendo que o mais sensato ainda seria viver bem aqui, considerar mais o conteúdo das comunicações do que sua natureza, e empenhar sinceros esforços no intuito de nos conhecermos melhor. Note que, ainda que discordem na teologia, na prática vários caminhos distintos apontam para o mesmo, da resignificação psicanalítica à reforma íntima espírita, das práticas yogues de purificação ao dharma no aqui-agora budista.
 Tenha visto você um espírito ou uma alucinação, as percepções - e projeções - só poderão ser tão lúcidas e reais quanto a “realidade lúcida” que seja vivida aqui.

Escrito por Lázaro Freire

Artigo publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição 57
http://www.rcespiritismo.com.br/

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