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10 de ago de 2012

Estêvão e o Evangelho



Flávio Rey de Carvalho
Em meio às comemorações dos 70 anos da obra Paulo e Estêvão, escrita pelo Espírito Emmanuel por intermédio da psicografia de Francisco Cândido Xavier, muito se tem falado de Saulo e Paulo, porém, pouco sobre Estêvão – o primeiro mártir do Cristianismo –, que ocupa papel relevante na obra em questão.
Tanto é que Emmanuel afirmou:
“Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso”.1 Por conseguinte, o objetivo deste artigo consiste em destacar alguns breves pontos relativos à conduta adotada por Estêvão, quando ainda encarnado, para lidar com o entendimento do Evangelho e a sua explanação.

Conforme nos explicou Allan Kardec, na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo:

Toda a gente admira a moral evangélica; todos lhe proclamam a sublimidade e a necessidade; muitos, porém, assim se pronunciam por fé, confiados no que ouviram dizer, ou firmados em certas máximas que se tornaram proverbiais. Poucos, no entanto, a conhecem a fundo e menos ainda são os que a compreendem e lhe sabem deduzir as consequências.
A razão está, por muito, na dificuldade que apresenta o entendimento do Evangelho que, para o maior número dos seus leitores, é ininteligível.A forma alegórica e o intencional misticismo da linguagem fazem que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como leem as preces, sem as entender, isto é, sem proveito. Passam-lhes despercebidos os preceitos morais, disseminados aqui e ali, intercalados na massa das narrativas. Impossível, então, apanhar-se-lhes o conjunto e tomá-los para objeto de leitura e meditações especiais.2

Na citação, Kardec diagnosticou a dificuldade de assimilação que há entre os conteúdos que constam dos textos evangélicos (nos quais estão os exemplos e as lições morais do Cristo) e a capacidade geral de cognição das pessoas. A tentativa de se inventariar as causas que motivam esse fato escapa à proposta deste artigo que, conforme já dito, busca somente destacar alguns pontos norteadores – com base em algumas frases de Estêvão – que possam nos ajudar na jornada da busca pelo entendimento do Evangelho assim como pela assimilação e pela aplicação prática de seus conteúdos.

Por volta de 35 d.C., Saulo de Tarso, que ocupava destacada posição no Sinédrio e era conhecido como fervoroso defensor da Lei de Moisés, seguiu, juntamente com seu amigo Sadoc, para verificar (no intuito de interditar) as pregações que ocorriam em humilde igreja em Jerusalém onde alguns homens, denominados do “Caminho”,3 supostamente estariam divulgando princípios “desonestos” em detrimento da Lei Mosaica.

Naquele dia, a pregação foi feita por Estêvão – “moço, magro e pálido, em cuja assistência os mais infelizes julgavam encontrar um desdobramento do amor do Cristo”.4 Durante a preleção, conforme descreveu Emmanuel:

Saulo de Tarso [...] verificou a diferença entre a Lei e o Evangelho anunciado por aqueles homens estranhos, que a sua mentalidade não podia compreender.
Analisou, de relance, o perigo que os novos ensinos acarretavam para o judaísmo dominante. Revoltara-se com a prédica ouvida, nada obstante a sua ressonância de misteriosa beleza. Ao seu raciocínio, impunha-se eliminar a confusão que se esboçava, a propósito de Moisés [...].5

Seguem-se então, por iniciativa do doutor da lei, séries de questionamentos e ataques direcionados verbalmente a Estêvão que, com serenidade e inspiração superior, soube contemporizar a situação oferecendo – conforme recomendara Jesus – a outra face.6
Acerca da questão, esclarecemos que não é nosso objetivo descrever os detalhes do debate ocorrido entre ambos, mas destacar três pontos da fala de Estêvão que nos podem ser úteis para o estudo e para a compreensão do Evangelho.

Em relação ao entendimento do Evangelho, durante a sua explanação, Estêvão revelou:
[...] Se não vos falei como desejáveis, falei como o Evangelho nos aconselha, arguindo a mim próprio na íntima condenação de meus grandes defeitos. [...]7
Para melhor compreendermos a citação, recorremos ao livro Luz imperecível – organizado por Honório Onofre de Abreu –, que nos elucida:
Incorporando-nos às figuras do próprio texto, habilitamo-nos a detectar em nós próprios, padrões ou atitudes, de ordem positiva ou negativa que lhes eram
peculiares [àquela época], a nos sugerirem [hoje] implementação de recursos ou mudanças de base, nas profundezas da alma.
A partir daí o texto vivifica. Pela autoanálise e na aplicação do “conhece-te a ti mesmo” levantamos caracteres peculiares àqueles personagens e que podem ou não estar presentes em nossa intimidade, tais sejam: hipocrisia, extremismo fanatizante, conhecimento não acionado, cegueira, paralisia ou surdez espirituais, ou quem sabe, nossa posição cadaverizada na indiferença ou na cristalização ante a dinamização da vida.(Grifo nosso.) Outro ponto relevante a ser ressaltado, refere-se ao reconhecimento e ao respeito às nossas limitações circunstanciais e contingenciais de cunho cognitivo. Segundo Estêvão:

– No tocante ao Evangelho [...], já vos ofereci os elementos de que podia dispor, esclarecendo o que tenho ao meu alcance [...].9
Conforme explicou Emmanuel, as lições do Evangelho são como as “pérolas” que vamos colecionando individualmente, ao longo de nossa marcha evolutiva espiritual, até formar um colar. A montagem desse colar advém, incondicionalmente, do aprendizado, da assimilação e da aplicação das lições morais, legadas a nós por Jesus.Assim, não podemos ter tudo de uma só vez, visto que “cada conceito do Cristo ou de seus colaboradores diretos adapta-se a determinada situação do Espírito, nas estradas da vida”.10 E argumenta o autor espiritual:

[...] o Evangelho, em sua expressão total, é um vasto caminho ascensional, cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem conhecimento e aplicação de todos os detalhes.
[...] A mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada, sentida e vivida. [...]11

Por último, Estêvão mencionou que, quando se trata do Evangelho:

[...] Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço. [...]9

É incongruente cogitar o contrário, visto que o objetivo máximo do Evangelho é o de promover a harmonização dos Espíritos – por intermédio do incentivo à cooperação e à fraternidade, em contraposição ao orgulho e ao egoísmo – à Lei Divina de Amor, força que rege e harmoniza todo o Universo.
Conforme explicou Emmanuel, é “indispensável abrir o coração à bondade, o cérebro à compreensão, a existência ao trabalho, o passo ao bem, o verbo à fraternidade...”12
Com tais diretrizes pinçadas do debate entre Saulo e Estêvão, o simples folhear superficial e automatizado das páginas evangélicas, sem reflexão e sem busca pelo entendimento, feito por mero “desencargo de consciência” e por simples “dever”– conforme consta na citação de Kardec no início do artigo – consiste em nada mais do que atividade inócua para a promoção do melhoramento do Espírito imortal. É chegado o momento de permitirmos que o Evangelho paulatinamente penetre em nosso âmago, isto é, conhecendo-o, meditando-o, sentindo-o e, finalmente, vivendo-o. Para isso, quando formos estudar a Boa Nova,procuremos seguir as recomendações de Estêvão, que foi o orientador espiritual de Paulo de Tarso na sua missão de divulgação do Cristianismo: 
1) arguir a si próprio, estabelecendo uma relação de empatia com o conteúdo do texto; 
2) entender o conteúdo do texto com moderação, respeitando seus limites cognitivos de modo a evitar cogitações e palpitesinfundados; 
3) evitar discussões e discórdias, permitindo que o Evangelho cumpra o seu papel, isto é, promover a harmonização dos Espíritos à Lei Divina de Amor.


Referências:
1XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Breve notícia, p. 9.
2KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 130. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Introdução, p. 24.
3Segundo Emmanuel, trata-se de “primitiva designação do Cristianismo”. Cf. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 3, nota de rodapé 1, p. 61.
4XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 92-93.
5______. ______. p. 97.
6“Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo para não se opor ao malvado. Pelo contrário, ao que te bater na face direita, vira- lhe também a outra.” In: DIAS, Haroldo D. (Tradutor.) O novo testamento. Brasília: Edicei, 2010. Mateus, 5:38-39.
7XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 100.
8ABREU, Honório Onofre de (Org.). Luz imperecível: estudo interpretativo do Evangelho à luz da Doutrina Espírita. 6. ed. Belo Horizonte: UEM, 2009. Apresentação, p. 23.
9XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 101.
10______. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Interpretação dos Textos Sagrados, p. 14.
11______. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. esp. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 2, cap. 3, p. 328.
12XAVIER, Francisco C. Bênção de paz. 15. ed. São Bernardo do Campo: GEEM, 2010. Cap. 35, p. 102.

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