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Allan Kardec - na visão dos amigos





No dia 03 de outubro de 1804 nascia na França um menino de coração doce e inteligência singular. Recebeu de seus pais o nome de Hyppolite-Léon-Denizard Rivail, mas ficou conhecido como Allan Kardec, pseudônimo que adotou em 1857, ao publicar o primeiro livro da Ciência Espírita, que ele apresentava ao mundo sob a denominação de Espiritismo.

No ano de 1865 Kardec publicou um artigo intitulado “o Espiritismo de alto a baixo da escala”, no qual reproduz duas cartas que havia recebido falando dos efeitos positivos causados pelos ensinamentos contidos naquela nova Ciência.
Assim se expressa Kardec no cabeçalho do artigo:
Não dizemos nada de novo aos nossos irmãos em crença, nem aos adversários, dizendo que o Espiritismo invade todas as camadas da Sociedade. As duas cartas aqui citadas têm por objetivo principal pôr em relevo a similitude de sentimentos que a doutrina suscita nos polos extremos da escala social, em indivíduos que não têm nenhum contato, que jamais vimos e que, nada obstante, se encontram no mesmo terreno, sem outro guia a não ser a leitura das obras. Um é um dignitário do império russo, e o outro um simples pastor da Touraine.

Encerrando o artigo, o Mestre diz:

Vê-se que não é preciso um diploma para compreender a doutrina. É que, apesar de seu alto alcance, ela é tão clara e tão lógica que chega sem esforço a todas as inteligências, condição sem a qual nenhuma ideia pode popularizar-se. Ela toca o coração: eis o seu maior segredo, e há um coração no peito do operário, como no do grão-senhor. O grande, como o pequeno, tem suas dores, suas amarguras, suas feridas morais, para as quais pede bálsamo e consolações que, um e outro, encontram na certeza do futuro, porque um e outro são iguais perante a dor e diante da morte, que tanto ferem o rico quanto o pobre. (Revista Espírita, junho de 1865 - O Espiritismo de alto a baixo da escala).

Vejamos alguns depoimentos de pessoas que conheceram o Mestre bem de perto, sobre as impressões que essa grande alma lhes causou:

Alexandre Delanne[1] – amigo de Allan Kardec

"Ninguém saberia, melhor do que eu, reconhecer as raras qualidades de Allan Kardec e render-lhe justiça.
Muitas vezes, em minhas longas viagens, vi o quanto era ele amado, estimado e compreendido por todos os adeptos. Todos desejavam conhece-Io pessoalmente a fim de lhe agradecer por ele lhes ter dado a luz através de suas obras e lhe testemunhar sua gratidão e seu inteiro devotamento. Eles ainda o amam até hoje, como a um verdadeiro pai. Todos lhe proclamam o gênio e o reconhecem como o mais profundo dos filósofos modernos. Contudo, estarão em condições de o apreciar em sua vida privada, isto é, em suas ações?
Poderiam avaliar a bondade de seu coração, seu caráter tão firme quanto justo, a benevolência de que usava em suas relações, a caridade efetiva que inundava sua alma, sua prudência e sua extrema delicadeza? - Não!
Muitas vezes eu tive a honra de ser recebido em sua intimidade. Como testemunhei algumas de suas boas ações, creio não ser descabido fazer algumas citações aqui.
Um amigo meu de Joinville, o Sr. P..., veio ver-me certo dia. Fomos juntos à vila Ségur, a fim de visitar o Mestre. No decorrer da conversa, o Sr. P... narrou a vida de privações por que passava um compatriota seu, já avançado em idade e a quem tudo faltava, inclusive agasalhos para se cobrir no inverno, e obrigado a proteger os pés desnudos em toscos tamancos. Esse homem de bem, entretanto, longe estava de se lastimar e, sobretudo, de pedir auxílio: era um pobre envergonhado.
É que uma brochura espírita lhe caíra sob os olhos, permitindo-lhe haurir na Doutrina a resignação para as suas provas e a esperança de um futuro melhor.
Vi, então, rolar uma lágrima compassiva dos olhos de Allan Kardec e, confiando ao meu amigo algumas moedas de ouro, disse-lhe: "Tomai-as para que possais prover às necessidades materiais mais prementes do vosso protegido. E, já que ele é espírita e suas condições não lhe permitem instruir-se tanto quanto ele desejaria, voltai amanhã. Sereis portador de todas as obras de que eu puder dispor, a fim de as entregar a ele". Allan Kardec cumpriu a promessa e hoje o velhinho bendiz o nome do benfeitor que, não satisfeito em socorrer sua miséria, ainda lhe dava o pão da vida, a riqueza da inteligência e da moral.
Alguns anos atrás, recomendaram-me uma pessoa reduzida à extrema miséria, expropriada violentamente de sua casa e jogada sem recursos no olho da rua, com a mulher e os filhos. Fiz-me intérprete desses infortunados junto ao mestre. No mesmo instante, sem querer conhecê-Ios, sem mesmo inquirir de suas crenças (eles não eram espíritas), Allan Kardec forneceu-me os meios de os tirar da miséria, o que lhes evitou o suicídio, pois já haviam decidido libertar-se do fardo da vida, tornado pesado demais às suas almas desalentadas, caso tivessem que renunciar à assistência dos homens.
Permita que eu narre ainda o seguinte fato, em que a generosidade de Kardec rivaliza com sua delicadeza.
Um espírita, residente num lugarejo situado a vinte léguas de Paris, havia pedido a Allan Kardec que lhe concedesse a honra de uma visita, a fim de que assistisse às manifestações espíritas que com ele se produziam. Sempre solícito, quando se tratava de prestar um obséquio, e atento ao princípio de que o Espiritismo e os espíritas devem assistir os humildes e os pequenos, logo partiu, acompanhado de alguns amigos e da Sra. Allan Kardec, sua estimada companheira.
Não teve por que se arrepender de sua resolução, porquanto as manifestações que testemunhou foram verdadeiramente notáveis. Mas, durante sua curta permanência ali, seu anfitrião foi cruelmente afligido pela perda súbita de uma parte de seus recursos. Consternados, os pobres dissimulavam o seu pesar tanto quanto lhes era possível. Todavia, a notícia do desastre chegou a Allan Kardec e, no momento de partir, tendo-se informado da cifra aproximada do prejuízo, remeteu ao administrador da cidade uma soma mais que suficiente para restabelecer o equilíbrio financeiro da situação do seu hospedeiro. O lavrador só tomou conhecimento da intervenção de seu benfeitor após a partida deste.
Antes de terminar, impossível resistir ao desejo de vos revelar este último fato. Uma tarde, certa pessoa de minhas relações, que passava por cruéis provações, mas que a todos ocultava sua miséria, encontrou na portaria uma carta lacrada, restrita a estas simples palavras: "Da parte dos bons Espíritos", contendo recursos suficientes para ajudá-Ia a sair da crítica situação em que se achava. Do mesmo modo que a bondade do mestre lhe descobrira o infortúnio, meu amigo, guiado por alguns indícios e pela voz do coração, logo reconheceu o seu anônimo benfeitor.
Eu não pararia de falar, se me fosse dado lembrar os milhares de fatos deste gênero, conhecidos tão-somente por aqueles que ele socorreu; porque ele não aliviava apenas a miséria material, mas também levantava, com palavras confortadoras, o moral abatido, e isto sem que sua mão esquerda soubesse o que dava a direita.
Eis o coração desse filósofo, tão desconhecido durante sua vida! A despeito de tudo, quem mais do que ele, tão bom, tão nobre, tão grande em suas palavras quanto em suas ações, foi mais alvo da injúria e da calúnia? E, contudo, não tinha como inimigos senão os que não o conheciam; porque, quando o apreciavam melhor, mesmo sem partilhar suas opiniões filosóficas, eram forçados a render homenagem à sua boa-fé.
Seus críticos, que dele não conheciam senão a bandeira, tentaram indispô-Io contra a opinião pública, sem averiguar que os boatos que produziam não continham o menor fundamento. Mas ele empunhou essa bandeira tão altiva e firmemente que nenhuma mancha foi capaz de atingí-Ia, e a lama com que a queriam encobrir apenas sujou a mão dos panfletários.
Caro Mestre, nobre e grande Espírito, paira, em tua majestade, sobre os que te amam e respeitam! Observa os que te são inteiramente devotados! Continua sobre eles a tua intervenção caridosa e protetora! Transmite às suas almas o fogo sagrado que te anima, a fim de que, profundamente convencidos dos imortais princípios que professaste, possam eles marchar sobre tuas pegadas, imitando tuas virtudes! Faze que reinem entre nós a concórdia, o amor e a paz, a fim de que possamos reunir-nos a ti, quando houver soado para nós a hora da libertação!..."

Sr. E. Muller[2]

"A tolerância absoluta era a regra de Allan Kardec. Seus ami­gos, seus discípulos pertencem a todas as religiões: israelitas, maometanos, católicos e protestantes de todas as seitas; perten­ciam a todas as classes: ricos, pobres, cientistas, livres-pensadores, artistas, operários etc. Todos puderam vir aqui, graças a esta me­dida que não compromete nenhuma consciência e constituirá um bom exemplo.
Mas ao lado desta tolerância que nos reúne, é preciso citar uma intolerância que admiro? Fá-lo-ei porque, aos olhos de todos, ela deve legitimar esse título de Mestre, que muitos dentre nós lhe atribuímos. Essa intolerância é um dos caracteres mais marcantes de sua nobre existência. Ele tinha horror à preguiça e a ociosidade: e este grande trabalhador morreu de pé, após um labor imenso, que acabou ultrapassando as forças de seus órgãos, mas não as do Espírito e do coração.
Educado na Suíça, naquela escola patriótica em que se res­pira um ar livre e vivificante, ocupava seus lazeres, desde a idade de quatorze anos, a dar cursos aos seus camaradas que sabiam menos que ele.
Vindo a Paris, e sabendo falar e escrever alemão tão bem quanto o francês, traduziu para a Alemanha os livros da França que mais lhe tocaram o coração. Escolheu Fénelon para o tornar conhecido, e essa escolha denota a natureza benévola e elevada do tradutor. Depois, entregou-se à educação. Sua vocação era ins­truir. Seus sucessos foram grandes e as obras que publicou, gramá­tica, Aritmética e outras, tornaram popular o seu verdadeiro nome, o de Rivail.
Não contente de utilizar suas faculdades notáveis numa pro­fissão que lhe assegurava um tranquilo bem-estar, quis que apro­veitassem os seus conhecimentos aqueles que não podiam pagar e foi um dos primeiros a organizar, nesta fase de sua vida, cursos gratuitos, mantidos na rua de Sèvres, nº 35, nos quais ensinava Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia etc...
É que havia tocado em todas as ciências e, tendo-as bem aprofundado sabia transmitir aos outros o que ele conhecia, com talento raro e sempre apreciado.
Para este sábio dedicado, o trabalho parecia o elemento mes­mo da vida. Assim, mais do que ninguém, não podia suportar a ideia da morte como a apresentaram então, tendo por fim um eter­no sofrimento ou uma felicidade egoísta e eterna, mas sem utilida­de, nem para os outros nem para si mesmo.
Era como predestinado, bem o vedes, a espalhar e vulgarizar esta admirável Filosofia que nos faz esperar o trabalho no além-túmulo e o progresso indefinido de nossa individualidade, que se conserva, melhorando-se."

Sr. Levent
"Senhores,
Em nome da Sociedade Espírita de Paris, da qual tenho a honra de ser Vice-Presidente, venho exprimir seu pesar pela perda cruel que acaba de sofrer, na pessoa de seu venerável mestre, Sr. Allan Kardec, falecido subitamente anteontem, quarta-feira, nos escritórios da Revista.
A vós, senhores, que todas as sextas-feiras vos reuníeis na sede da Sociedade, não preciso lembrar essa fisionomia ao mesmo tempo benevolente e austera, esse tato perfeito, essa justeza de apreciação, essa lógica superior e incomparável que nos parecia inspirada.
A vós, que todos os dias da semana partilháveis dos trabalhos do mestre, não retraçarei seus labores contínuos, sua correspondência com as quatro partes do mundo, que lhe enviavam documentos sérios, logo classificados em sua memória e preciosamente recolhidos para serem submetidos ao cadinho de sua alta razão e formar, depois de um trabalho escrupuloso de elaboração, os elementos dessas obras preciosas que todos conheceis.
Ah! Se, como a nós, vos fosse dado ver essa massa de materiais acumulados no gabinete de trabalho desse infatigável pensador; se, conosco, tivésseis penetrado no santuário de suas meditações, veríeis esses manuscritos, uns quase terminados, outros em fase de execução, outros, enfim, apenas esboçados, espalhados aqui e ali, e que parecem dizer: Onde está agora o nosso mestre, sempre tão madrugador no trabalho?
Ah! Mais do que nunca, também exclamaríeis, com tão amargo pesar que seria quase ímpio: Deus precisaria ter chamado o homem que ainda podia fazer tanto bem; a inteligência tão cheia de seiva, o farol, enfim, que nos tirou das trevas e nos fez entrever esse novo mundo mais vasto e admirável do que aquele que imortalizou o gênio de Cristóvão Colombo, esse mundo cuja descrição ele apenas nos começara a fazer, e cujas leis fluídicas e espirituais nós já pressentíamos?
Mas, reanimai-vos, senhores, por este pensamento tantas vezes demonstrado e lembrado pelo nosso Presidente: “Nada é inútil na Natureza; tudo tem sua razão de ser, e o que Deus faz é sempre bem feito.”
Não nos assemelhemos a esses meninos indóceis que, não compreendendo as decisões de seus pais, se permitem criticá-los e por vezes mesmo censurá-los.
Sim, senhores, disto tenho a mais profunda convicção, e vo-la exprimo alto e bom som: a partida do nosso caro e venerável mestre era necessária!
Aliás, seríamos ingratos e egoístas se, não pensando senão no bem que ele nos fazia, esquecêssemos o direito que ele tinha adquirido de ir repousar um pouco na pátria celeste, onde tantos amigos, tantas almas de escol o esperavam e vieram recebê-lo, após uma ausência que, também para eles, parecia bem longa. (...)
Continuaremos, pois, o teu trabalho, caro mestre, sob teu eflúvio benfazejo e inspirador. Recebe aqui a nossa promessa formal, é o melhor sinal de afeição que te podemos dar.
Em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, não te dizemos adeus, mas até logo, até breve!"


[1] Fala extraída do livro O Espiritismo na sua expressão mais simples expressão, e outros opúsculos de Kardec, Ed. FEB.
[2] As falas dos senhores Levent e E. Muller foram extraídas da Revista Espírita de 1869, EDICEL.


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Quem foi o professor Rivail?






            A pergunta surgiu espontânea naquele pequeno grupo há pouco tempo formado. Ela assustou o visitante, que não imaginava uma informação histórica tão importante fosse ignorada pelo grupo todo, pois que os demais não souberam também responder.
            A ocorrência, contada por uma amiga, chamou-me a atenção. Percebi outro ângulo de abordagem também necessária e sempre oportuna. Vamos, então, a uma abordagem rápida e compacta.
            Muitos já ouviram falar, outros talvez ignorem totalmente, mas a verdade é que a personalidade cujo aniversário é comemorado na primeira semana de outubro ainda é um ilustre desconhecido. Imaginam que ele foi algum místico, líder religioso ou algo parecido. Chegam a pensar que fundou alguma religião e muitas vezes o desprezam completamente, justamente por desconhecê-lo. Na verdade, ele foi respeitado professor em sua época.
    Homem de princípios rígidos, educado em famoso instituto educacional da Suíça, observador atento que buscava razões para fatos e acontecimentos, criterioso pesquisador e comportamento avesso a práticas místicas ou fantasiosas. Ao mesmo tempo, porém, personalidade bondosa que chegou a fundar cursos gratuitos para pessoas carentes. Publicou inúmeros livros em sua área profissional, que foram inclusive adotados pelo governo, e tornou-se respeitável figura da sociedade de sua época.
Casado e sem filhos, aos cinquenta anos foi levado por amigos a observar estranhos fenômenos que se tornavam moda na França. 
Incrédulo a princípio, aplicou os métodos que usava como sério pesquisador e através da observação e da experimentação, concluiu pela existência dos espíritos como agentes dos estranhos fenômenos. Dedicou-se a estudar tais fenômenos, percebendo neles um mundo novo que se abria aos horizontes humanos, com a constatação plena da imortalidade da alma após a morte do corpo e a possibilidade do intercâmbio entre os chamados mortos com os chamados vivos através da mediunidade. Revelações antes já anunciadas por Jesus e ora estudadas com a profundidade que o assunto merece.
De posse de informações e pesquisas, colhidas de manifestações recebidas em diversos lugares do mundo, simultaneamente e por pessoas desconhecidas entre si, além do trabalho pessoal dele próprio nesse campo de pesquisa, publicou a obra O Livro dos Espíritos, obra basilar da Codificação Espírita, que surgiu em Paris, França, no dia 18 de abril de 1857. A partir daí, publicou outras obras que se seguiram, fundou uma revista que funcionava como verdadeiro laboratório de pesquisas, fundou ainda uma sociedade para reunir os interessados em estudar e pesquisar os mesmos assuntos e tornou-se o Codificador (organizador) do Espiritismo, ou seja aquele que organizou os ensinos trazidos pelos espíritos.
Poliglota, homem dotado de muita cultura, e essencialmente um pesquisador, Hippolyte Leon Denizard Rivail nasceu em Lion, na França, no dia 3 de outubro de 1804 (data que ora lembramos) e ao publicar as obras da Codificação Espírita, adotou o pseudônimo de Allan Kardec, como a dizer que aqueles não eram livros de sua autoria, mas fruto dos ensinos dos espíritos, que ele, Rivail, apenas fora o instrumento para organizar e coordenar os assuntos e dar-lhes publicidade. Não foi médium, líder religioso, místico ou qualquer outro título que lhe queiram dar. Apenas um respeitado cidadão francês, de muita cultura e personalidade firme e bondosa, que defrontado com estranhos fenômenos, dedicou-se a pesquisá-los, vencendo inicialmente as barreiras da própria incredulidade, mas sabedor de que ali se encontrava a resposta para as angustias humanas. Esta é a personalidade ímpar de Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo.
Orson Peter Carrara (Matão/SP) é membro da Rede Amigo Espírita
Escritor e orador espírita. Constultor Editorial residente em Matão/SP, Articulista da imprensa espírita, tem colaborado com diversos órgãos da imprensa espírita, entre revistas e jornais do país, além de boletins regionais.  Autor dos livros "Causa e Casa Espírita" "Espíritos - Quem são? O que fazem? Onde estão? Por que nos procuram?", seus textos caracterizam-se pela objetividade e linguagem acessível a qualquer leitor, estando disponibilizados em vários sites de divulgação espírita.



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Da Mediunidade nos Animais (O Livro dos Médiun Capítulo XXII )






234. Os animais podem ser médiuns?

—  Freqüentemente se tem proposto esta questão, e certos fatos pareciam respondê-la afirmativamente. O que, sobretudo, tem dado motivo a aceitá-la, são os notáveis indícios de inteligência de alguns pássaros educados pelo homem, que parecem adivinhar o pensamento e chegam a tirar de um maço de cartas as que correspondem exatamente ao pedido feito. Observamos essas experiências com especial cuidado, e o que mais admiramos foi a arte que se teve de desenvolver para a instrução desses pássaros.

Não se pode negar que eles possuem uma certa dose de inteligência relativa, mas devemos convir que, na circunstância aludida, sua perspicácia ultrapassaria de muito a do homem, porque ninguém se pode vangloriar de fazer o que eles fazem. Seria mesmo necessário, para certos casos, supor que eles possuem um dom de segunda vista superior ao dos sonâmbulos mais clarividentes. Sabemos, com efeito, que a lucidez é essencialmente variável e está sujeita a freqüentes intermitências, enquanto entre esses pássaros seria permanente e funcionaria, no caso, com uma regularidade e uma precisão que não se encontram em nenhum sonâmbulo. Numa palavra: ela jamais lhes faltaria.(1)

A maioria das experiências que presenciamos assemelham-se às práticas dos prestidigitadores. Não podiam deixar dúvidas quanto aos meios empregados particularmente o das cartas preparadas. A arte da prestidigitação consiste em dissimular os truques empregados sem que o efeito não seria atingido. Mas embora assim reduzido o caso não é menos interessante, pois resta sempre a admirar o talento do instrutor e também a inteligência do aluno, porque a dificuldade a vencer é bem maior do que se o pássaro só tivesse de agir através das suas próprias faculdades.

Conseguir que ele faça coisas que excedem os limites do possível para a inteligência humana é provar, por esse mesmo fato, o emprego de um processo secreto. Aliás, é inegável que os pássaros só atingem esse grau de habilidade após algum tempo de cuidados especiais e perseverantes, que não seria necessário se sua inteligência bastasse para levá-los aos resultados. Não é mais extraordinário ensinar-lhes a tirar cartas do que habituá-los a cantar ou repetir palavras. Aconteceu o mesmo quando a prestidigitação quis imitar a segunda vista: levava-se o sujeito ao extremo, para que a ilusão fosse mais durável. Desde a primeira sessão a que assistimos, nada mais vimos do que uma imitação muito imperfeita do sonambulismo, revelando ignorância das condições mais características dessa faculdade.(2)

235. De qualquer maneira, as experiências acima deixam intacta a questão principal, pois assim como a imitação do sonambulismo não nega a existência da faculdade, a imitação da mediunidade nos pássaros nada prova contra a sua possível existência nesses ou em outros animais. Trata-se pois de saber se os animais são aptos, como os homens, a servir de intermediários aos Espíritos para as suas comunicações inteligentes. Parece mesmo muito lógico supor que um ser vivo, dotado de certo grau de inteligência, seja mais apropriado a esses efeitos do que um corpo inerte, sem vitalidade, como uma mesa, por exemplo. Apesar disso, é o que não se dá.

236. A questão da mediunidade dos animais foi plenamente resolvida na dissertação seguinte, feita por um Espírito cuja profundidade e sagacidade podem ser apreciadas nas citações que já fizemos. Para bem se aprender o valor de sua demonstração é essencial que nos reportemos à sua explicação anterior sobre o papel do médium nas comunicações reproduzidas atrás, no nº 225.

Esta comunicação foi dada em seguida a uma discussão a respeito, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

Abordo hoje a questão da mediunidade dos animais, levantada e sustentada por um dos vossos companheiros mais fervorosos. Pretende ele, em virtude deste axioma: quem pode o mais, pode o menos, que nós podemos mediunizar os pássaros e outros animais, servindo-nos deles nas comunicações com a espécie humana. É o que chamais em Filosofia, e mais particularmente em Lógica, única e simplesmente um sofisma. "Animais, diz ele, a matéria inerte, ou seja, uma mesa, uma cadeira, um piano; com mais razão deveis animar a matéria já animada, principalmente a dos pássaros". Pois bem, dentro das leis normais do Espiritismo, isso não é assim e não pode ser assim.

(1) Esta observação de Kardec sobre a variabilidade da percepção sonambúlica da clarividência está hoje cientificamente comprovada. É mesmo um dos obstáculos à aplicação prática da percepção extra-sensorial em Parapsicologia. Não admitindo que se trata de emancipação da alma, com todas as implicações psicológicas decorrentes desse desprendimento, os parapsicólogos materialistas são levados às hipóteses mais curiosas a respeito. (N. do T.)

(2) O conhecimento dessas características torna ridículas para os experimentadores traquejados, as imitações com que os adversários pretendem provar que os fenômenos não passam de fraudes. Estes possuem elementos que só nas pesquisas regulares vão se revelando, e que não podem ser imitados. (N. do T.)

Primeiro, ponderemos bem as coisas. O que é um médium? É o ser, indivíduo que serve de intermediário aos Espíritos, para que estes possam comunicar-se facilmente com os homens, espíritos encarnados. Por conseguinte, sem médium não há comunicações tangíveis, mentais, escritas, físicas, de qualquer espécie que seja.

Há um princípio que, disso estou seguro, é admitido por todos os espíritas: o de que os semelhantes agem através dos semelhantes e como os seus semelhantes. Ora, quais são os semelhantes dos Espíritos, senão os Espíritos encarnados ou não? Seria preciso repetir isto sem cessar? Pois bem, eu o repetirei ainda: o vosso perispírito e o nosso são tirados do mesmo meio, são de natureza idêntica, são semelhantes, numa palavra. Possuem ambos uma capacidade de assimilação mais ou menos desenvolvida, de imantação mais ou menos vigorosa, que permite a nós Espíritos e encarnados, por-nos muito pronta e facilmente em relação.

Enfim, o que pertence especificamente aos médiuns, à essência mesma de sua individualidade, é uma afinidade especial, e ao mesmo tempo uma força de expansão particular, que anulam neles toda possibilidade de rejeição, estabelecendo entre eles e nós uma espécie de corrente ou de fusão, que facilita as nossas comunicações. É, de resto, essa possibilidade de rejeição, própria da matéria, que se opõe ao desenvolvimento da mediunidade na maioria dos que não são médiuns.(3)

Os homens estão sempre propensos a exagerar tudo. Uns, e não me refiro aqui aos materialistas, recusam uma alma aos animais, enquanto outros querem dar-lhes uma, por assim dizer, semelhante à nossa. Porque pretender assim confundir o perfectível com o imperfectível? Não, não, convencei-vos disso, o fogo que anima os animais, o sopro que o faz agir, movimentar-se e falar na sua linguagem própria, não tem, quanto ao presente, nenhuma aptidão para se mesclar, se unir ou se confundir com o sopro divino, a alma etérea, o Espírito, numa palavra, que anima o ser essencialmente perfectível: o homem, esse Rei da criação. Ora, não é isso que faz a superioridade da espécie humana sobre as outras espécies terrenas, essa condição essencial de perfectibilidade? Pois bem: reconhecei então que não se pode assimilar ao homem, único perfectível em si mesmo e nas suas obras, qualquer indivíduo de outras espécies viventes da Terra.

O cão, cuja inteligência é superior entre os animais e o tornou amigo e comensal do homem, será perfectível por si mesmo e por sua própria iniciativa? Ninguém ousaria sustentar isso, porque o cão não faz progredir o cão, e o mais amestrado entre eles é sempre ensinado pelo seu dono. Desde que o mundo é mundo que a lontra constrói a sua choça sobre as águas, sempre com as mesmas proporções e seguindo um sistema invariável.

Os rouxinóis e as andorinhas jamais construíram seus ninhos de maneira diferente dos seus ancestrais. Um ninho de pardais de antes do dilúvio, como um ninho de pardais de hoje é sempre o mesmo, feito nas mesmas condições e pelo mesmo sistema de entrelaçamento de capins e pauzinhos recolhidos na primavera, na época dos amores. As abelhas e as formigas, em suas pequenas repúblicas organizadas, jamais variaram os seus hábitos de coleta de provisões, a sua maneira de agir, os seus costumes e as suas produções. Por fim, a aranha tece sempre a sua teia da mesma maneira.

De outro lado, se procurardes as cabanas de ramagens e as tendas das primeiras idades da Terra, encontrareis em seu lugar os castelos e os palácios da civilização moderna. Às vestes de pele-selvagens sucederam os tecidos de ouro e seda. Enfim, a cada passo encontrareis a prova da marcha incessante da Humanidade em seu progresso.

Desse progresso constante, invencível, irrecusável da espécie humana, e do estacionamento indefinido das outras espécies animadas, concluireis comigo que se existem princípios comuns a tudo o que vive e se move na Terra: o sopro e a matéria, não é menos verdade que somente vós, Espíritos encarnados, estais submetidos a essa inevitável lei do progresso que vos impele fatalmente para a frente e sempre para a frente.

Deus pôs os animais ao vosso lado como auxiliares para vos alimentarem, para vos vestirem e vos ajudarem. Deu-lhes um pequeno grau de inteligência porque, para vos auxiliar, precisam compreender, e condicionou essa inteligência aos serviços que devem prestar. Mas, na sua sabedoria não quis que fossem submetidos à mesma lei do progresso. Tais como foram criados, assim ficaram e ficarão até a extinção de suas espécies.(4)

(3) Trata-se do fluido vital específico dos organismos humanos. Correspondente a uma constituição física superior no plano evolutivo. E evidente que os animais não dispõem desse grau do fluido vital humano, de maneira que a resistência da matéria é neles maior, não permitindo a fusão fluídica necessária às comunicações. (N. do T.)

(4) Todo este período deve ser compreendido em função do assunto, não se tirando ilações contrárias aos princípios fundamentais da Doutrina, o que seria absurdo. O Espiritismo ensina que tudo evolui no Universo, desde a matéria bruta até os Espíritos superiores. Os animais também evoluem, mas sua evolução é forçada e lenta, produzida por influências exteriores, enquanto a humana é determinada de dentro, pela consciência do Espírito já esclarecido do homem. O Espírito comunicante serviu-se das condições de aparente estabilidade da vida terrena para ilustrar o seu ensino. Trata-se apenas de um recurso didático aliás bem aplicado, e que deve ser entendido como tal. (N. do T.)

Costuma-se dizer: os Espíritos mediunizam e fazem mover a matéria inerte, as cadeiras, as mesas, os pianos. Fazem mover, sim, mas mediunizam, não! Porque, ainda uma vez: sem médium, nenhum desses fenômenos se produz. Que há de extraordinário em fazermos que se mova, com a ajuda de um ou de muitos médiuns, a matéria inerte, passiva, que justamente em razão de sua passividade, de sua inércia, está em condições de receber os movimentos e os impulsos que lhe desejamos dar?

Para isso necessitamos de médiuns, é claro, mas não é necessário que o médium esteja presente ou consciente, porque podemos agir com os elementos que ele nos fornece, sem que ele o saiba e longe dele, sobretudo nos fenômenos de tangibilidade e de transportes. Nosso envoltório fluídico, mais imponderável e mais sutil que o mais sutil e imponderável de vossos gases, unindo-se, casando-se, combinando-se com o envoltório fluídico mais animalizado do médium, e cuja propriedade de expansão e de penetrabilidade escapa aos vossos sentidos grosseiros e é quase inexplicável para vós, permite-nos movimentar os móveis e até mesmo quebrá-los em aposentos vazios.

Certamente que os Espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis para os animais, e muitas vezes acontece que o pavor súbito os toma, e que vos parece sem motivo, é causado pela visão de um ou de muitos desses Espíritos, mal intencionados em relação aos indivíduos presentes ou aos seus donos. Muito freqüentemente se vêem cavalos que se recusam a avançar ou recuar, ou que se empinam diante de um obstáculo imaginário. Pois bem! Podeis estar certos de que o obstáculo imaginário é quase sempre um Espírito ou um grupo de Espíritos que se comprazem em detê-los. Lembrai-vos da mula de Balaão, que, vendo um anjo pela frente e temendo sua espada flamejante, não queria avançar adiante. É que antes de se manifestar visivelmente a Balaão, o anjo quis torna-se visível apenas para o animal. Mas, quero repeti-lo: não mediunizamos diretamente nem os animais nem a matéria inerte. Precisamos sempre do concurso consciente ou inconsciente de um médium humano, porque necessitamos da união dos fluidos similares, que não encontramos nos animais nem na matéria bruta.

O Sr. T., dizem, magnetizou o seu cão. A que resultado chegou? Matou-o. Porque esse infeliz animal morreu depois de haver caído numa espécie de atonia, de langor, conseqüência de sua magnetização. Com efeito, infiltrando-lhe um fluido haurido numa essência superior à essência especial da sua natureza, ele o esmagou, agindo sobre ele, embora mais lentamente, à semelhança do raio. Assim, não havendo nenhuma possibilidade de assimilação entre o nosso perispírito e o envoltório fluídico dos animais propriamente ditos, nós os esmagaríamos imediatamente ao mediunizá-Ios.(5)

Isso estabelecido, reconheço perfeitamente a existência de aptidões diversas entre os animais; que certos sentimentos, certas paixões idênticas a paixões e sentimentos humanos se desenvolvem neles; que são sensíveis e reconhecidos, vingativos e rancorosos, segundo o tratamento bom ou mau que lhes dispensarmos. É que Deus, nada fazendo incompleto, deu aos animais, companheiros e servidores do homem, as qualidades de sociabilidade que faltam inteiramente nos animais selvagens que habitam as solidões. Mas daí a poderem servir de intermediários para a transmissão do pensamento dos Espíritos vai um abismo: a diferença das naturezas.(6)

Sabeis que tiramos do cérebro do médium os elementos necessários para dar ao nosso pensamento a forma sensível e apreensível para vós. É com o auxílio dos seus próprios materiais que o médium traduz o nosso pensamento em linguagem vulgar. Pois bem: que elementos encontraríamos no cérebro de um animal? Haveria ali palavras, letras, alguns sinais semelhantes aos que encontramos no homem, mesmo o mais ignorante? Não obstante, direis, os animais compreendem o pensamento do homem, chegam mesmo a adivinhá-lo. Sim, os animais amestrados compreendem certos pensamentos, mas acaso já os vistes reproduzi-los? Não. Concluí, pois, que os animais não podem servir-nos de intérpretes.(7)

Para resumir: os fenômenos mediúnicos não podem produzir-se sem o concurso consciente ou inconsciente dos médiuns, e é somente entre os encarnados, Espíritos como nós, que encontramos os que podem servir-nos de médiuns. Quanto a ensinar cães, pássaros e outros animais, para fazerem estes ou aqueles serviços, é problema vosso e não nosso - ERASTO.

Nota - Na Revista Espírita de setembro de 1861 encontra-se a explicação minuciosa de um processo empregado pelos amestradores de pássaros-sábios, para fazê-los tirar de um maço as cartas que quiserem. (N. de Kardec).

(5) Esta afirmação parece absurda, diante das teorias atuais do Hipnotismo que negam inteiramente a existência do fluido magnético. Mas as pesquisas parapsicológicas demonstraram a ação da mente sobre a matéria e comprovaram a influência do pensamento sobre vegetais e animais. Por outro lado, a hipótese fluídica, como também a do éter já não pode mais ser considerada cientificamente herética, diante do avanço das pesquisas físicas no campo nuclear. Também neste ponto, portanto, as Ciências atuais estão confirmando rapidamente os princípios espíritas. (N. do T.)

(6) Novamente deparamos com uma figura didática, pois é evidente que o Espírito, por seus conhecimentos já demonstrados, sabe que a domesticação dos animais decorre do processo evolutivo das espécies. Mas convém lembrar que a evolução se processa sob o impulso e segundo as leis de Deus, o que permitiu a imagem ilustrativa. (N. do T .)


(7) Os episódios curiosos de animais-matemáticos, como os dos cavalos de Elberfeld, que tanta celeuma têm provocado, podem hoje ser explicados, embora ainda de maneira hipotética, pelo mecanismo da percepção mais aguçada de certas espécies animais, e até mesmo pela influência da mente humana sobre os sentidos animais. As pesquisas parapsicológicas abriram novas perspectivas nesse sentido, embora a Parapsicologia Animal esteja ainda numa fase de desenvolvimento incipiente. As experiências de Fabry, entomólogo da Universidade de Leningrado e parapsicólogo da equipe do famoso prof. Vassiliev, demonstraram a existência de percepção extra-sensorial nos animais. Assim, as hipóteses de fraude mecânica e de inteligência especial desses animais vão sendo igualmente afastadas pela pesquisa científica, dando razão ao Espírito Erasto. (N. do T.)

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Três Conclusões




O tempo concedido ao Espírito para uma reencarnação, por mais longo, é sempre curto, comparado ao serviço que somos chamados a realizar.
    Meditemos no gasto excessivo de forças em que nos empenhamos levianamente no trato com assuntos da repartição de outrem.
    Quantos milhares de minutos e de frases esbanjamos por década, sem a mínima utilidade, ventilando temas e questões que não nos dizem respeito?
    Para conjurar essa perda inútil, reflitamos em três conclusões de interesse fundamental.
    O que os outros pensam - Aquilo que os outros pensam é ideia deles. Não podemos usufruir-lhes a cabeça para imprimir-lhes as interpretações que são capazes diante da vida.
    Um indígena e um físico contemplam a luz, mantendo conceitos absolutamente antagônicos entre si.
    Acontece o mesmo na vida moral. Precisamos nutrir o cérebro de pensamentos limpos, mas não estar em nosso poder exigir que os semelhantes pensem como nós.
O que os outros falam -  A palavra dos amigos e adversários, dos conhecidos e desconhecidos, é criação verbal que lhes pertence.
    Expressam-se como podem e comentam as ocorrências do dia a dia com os sentimentos dignos ou menos dignos de que são portadores.
    Efetivamente, é dever nosso cultivar a conversação criteriosa; contudo, não dispomos de meios para interferir na manifestação pessoal dos entes que nos cercam, por mais caros nos sejam.
    O que os outros fazem -  A atividade dos nossos irmãos é fruto de escolha e resolução que lhes cabe.
    Sabemos que a Sabedoria Divina não nos criou para cópias uns dos outros. Cada consciência é domínio à parte.
    As criaturas que nos rodeiam decerto que agem com excelentes intenções, nessa ou naquela esfera de trabalho, e, se ainda não conseguem compreender o mérito da sinceridade e do serviço ao próximo, isso é problema que lhes compete e não a nós.
    Fácil deduzir que não podemos fugir da ação nobilitante, a benefício de nós mesmos, mas não nos compete impor nas decisões alheias, que o próprio Criador deixa livres; ou seja, o Criador respeita o livre arbítrio de cada qual...   
À vista disso, cooperemos com os outros e recebamos dos outros o auxílio de que carecemos, acatando a todos, mas sem perder tempo com o que possam pensar, falar e fazer.
Em suma, respeito para os outros e obrigação para nós.
(Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira  por Emmanuel e André Luiz. In: Estude e Viva)


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EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS







Os sentimentos, intimamente ligados à moral, estão entre as áreas psíquicas que podem e devem sofrer aperfeiçoamento, fazendo aflorar as virtudes morais.
Aperfeiçoar os sentimentos é educá-los. É vencer os instintos, em proveito dos sentimentos. E a educação dos sentimentos tem como objetivo chegar ao caminho das virtudes.

Por que o Perdão?
Como espíritos imperfeitos que somos, todos nós erramos. É necessário, pois, perdoar sempre e a todos: familiares, amigos, colegas, conhecidos e inimigos; perdoar, inclusive, a nós mesmos, evitando culpas, mágoas e desequilíbrios. Perdoar sem restrições, sinceramente, olhando com bondade e benevolência as imperfeições de nossos irmãos, eis o verdadeiro sentido dessa virtude.

Por que a Caridade?
Definida como "benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas” a caridade é um valor moral imprescindível para a conquista da felicidade. Benevolência significa boa vontade, bondade e complacência para com todos; a indulgência manifesta-se através da tolerância e clemência para com os erros alheios; e o perdão é uma forma de libertação, onde o maior beneficiado é o que perdoa, esquecendo a ofensa.

Por que a Humildade? A humildade, conforme assevera Emmanuel, é a fonte de todas as virtudes, de todo o progresso e de toda a elevação moral e intelectual. Embora o orgulho, muitas vezes, sufoque a humildade, ela se manifesta através da simplicidade, da modéstia, do respeito e da submissão às leis de Deus.

Por que a Bondade? A bondade é um sentimento superior da alma, uma virtude dinâmica de ação no bem, sendo considerada o amor em ação. A bondade, exteriorizada por pensamentos, palavras e atitudes é uma força capaz de harmonizar ambientes, iluminar corações, minorar sofrimentos, construir equilíbrio, remover obstáculos e conduzir o indivíduo pelos caminhos da evolução.

Por que o Amor? O amor transforma a alma, através do pensar, do sentir e do agir no bem. O Espírito de Verdade afirmou: "Espíritas, amai-vos, este é o primeiro mandamento", lembrando o que foi ensinado por Jesus: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". Para entender e vivenciar verdadeiramente o amor é necessário conhecer, estudar, observar, comparar, sentir, refletir, intuir, aprender essa sublime virtude.

A paz interior e a felicidade, através da educação dos sentimentos, devem fazer parte de nossos objetivos primordiais nesta encarnação.
Mas como fazer? Optar pelos caminhos regidos pelas Leis de Deus: amor, perdão, indulgência, caridade, compaixão, humildade, bondade, virtudes que elevam o ser humano de um simples animal racional para a condição de espírito sublimado.

O meio prático e eficaz para o homem se melhorar e resistir ao mal é o autoconhecimento, isto é, ele se conhecer profundamente, saber quem ele é e quais suas obrigações consigo mesmo e com a sociedade em que labora. Ele necessita estudar mais para saber a respeito de suas emoções e sentimentos, a respeito de seu psiquismo e de como realizar as transformações necessárias em sua vida.

REFERÊNCIA: CAMARGO, JASON. EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS. PORTO ALEGRE: LETRAS DE LUZ, 2001. 


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